Café Literário: Freddie


Eu estava escondido. De onde estava, mal dava para saber se ela já havia terminado a contagem e saído em nossa procura. Sempre soube me esconder bem. Minha família e eu morávamos perto de uma floresta e há muito havia me aventurado a encontrar todos os atalhos e esconderijos possíveis e imagináveis. A casa de barcos onde me encontrava ficava numa trilha apertada virando-se à direita. Como a trilha era comprida e as árvores da floresta eram grossas, não era possível ver a casa á distância. Na verdade, apesar de eu chamá-la de casa, era mais como um cômodo só com algumas prateleiras quebradas e duas bateiras de madeira com a tinta por descascar; uma virada para o outra. Havia um espaço entre as duas pelo qual, com um pouco de esforço, consegui atravessar e me enfiar ali dentro, a cabeça contra os joelhos, esperando.

Nada.

Eu podia imaginar Amelia, minha prima, dando voltas e mais voltas na floresta, se perguntando onde eu poderia estar. Será que ela já tinha achado os outros? Será que já era seguro sair? Eu meditava calmamente sobre isso enquanto, lá fora, o vento e as árvores cochichavam como se soubessem de um segredo que eu não sabia.

Nada ainda.

Eu já estava ficando cansado. A posição começava a me doer.  A essa hora, pensei, ela já deve ter desistido de me procurar. Decidi que era hora de voltar para casa. Estava me preparando para sair quando ouvi batidos na bateira. Amelia enfim, havia me encontrado. Saí de entre as bateiras, me espreguicei e fiquei de frente com esse alguém, que na verdade não era Amelia. Era o meu irmão, Freddie.

"Belo esconderijo, mano" - Disse-me ele. Eu me limitei apenas a sorrir. Ele se escondia tão bem quanto eu. Brincar de esconde-esconde com ele era extremamente cansativo e demorado e, por isso, brincávamos de outras coisas. - "Estou procurando o Bug" - Continuou - "Você o viu?”.

Bug era o nosso cachorro. Nós o havíamos encontrado abandonado na floresta e estava em nossa família desde então. Eu sabia que ele deveria estar por perto, pois ele sempre me seguia onde quer que eu fosse. - "Vamos, eu te ajudo a procurar" - Respondi.

Andamos apenas por alguns minutos até encontrar Bug deitado na sombra de uma das árvores. Freddie o segurou pelo colarinho e, no momento, nem me importei. Ele sempre fora bruto com todos os seus brinquedos e, ás vezes, até comigo. Era o jeito dele. Eu não podia imaginar que dessa vez era diferente. Que era intencional. Quando percebi que ele retirava uma faca do bolso, já era tarde demais. Eu fiquei ali, imóvel de medo, assistindo a faca atravessar o meu cachorro, que nem teve tempo de se debater ou latir. Fechei os olhos com força na esperança de que, quando os abrisse, nada disso fosse real e Bug viesse correndo e pulasse com força no meu colo para me lamber. Não adiantou. Bug não levantou e tampouco veio me lamber como outrora ele faria. E mais, Freddie desaparecera. Não consegui pensar em mais nada a não ser colocar Bug morto no meu colo e correr. Corri desesperadamente sem saber para onde ia. Corri com as lágrimas escorrendo de meus olhos. Meu irmão tinha finalmente conseguido me fazer odiá-lo. Nem percebi a presença de minha mãe até que esbarrei com tudo nela.

“Querido, estávamos tão preocupados.” Ela me envolveu num abraço e suspirou. – “Você sumiu por tanto tempo." - "E você achou o Bug” - Seus olhos pousaram em mim por um instante, depois em Bug e então no sangue que cobria minhas mãos.

“Charlie, o que é isso?” – “O que aconteceu?”.

Nada.

“Charlie, quem fez isso?”

“Foi o Freddie. Eu não...” – “Eu não consegui salvá-lo”.

“Freddie? Que Freddie?"

“O meu irmão."

Eu nunca vou esquecer a cena de Bug morrendo imóvel, indefeso. Eu nunca vou esquecer-me de tê-lo levado morto em meu colo. Mas esse não é o pior. O pior é que eu nunca vou esquecer-me de quando a minha mãe me disse que não havia nenhum Freddie ali. Não tinha como haver. Meu irmão tinha morrido há um ano.

Fim...

Jéssica Fernanda Rebelo

Jéssica Fernanda Rebelo, 20 anos, pseudoescritora, desprovida de melanina, leitora assídua, rata de vídeo locadora, blogueira nas horas vagas, pottermaníaca, whoviana, órfã de Lost e aspirante a engenheira.

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