Café Literário: Cyberbella Adormecida


Era uma vez, um reino encantado. No ano 2145, Todo o mundo era governado por um monarca digital, uma Inteligência Artificial auto-consciente capaz de processar informações em nível quântico. Ela hackeou todas as redes digitais de informação e agora controla todos os principais sistemas que governam a vida dos cidadãos ao mesmo tempo em que legisla e negocia com os humanos.

A magia estava em toda parte. A tecnologia de manipulação molecular chegou ao ponto da completa reconfiguração da estrutura atômica,  através de nanomontadores que retiram átomos de uma molécula e transferem para outra até criar uma nova molécula, permitindo que seres e objetos sejam completamente transformados, como se tivessem sido enfeitiçados. É literalmente possível transformar uma arma numa música, ou uma pessoa num mini-buraco negro microscópico. Criaturas das lendas, como elfos, duendes e dragões ganharam vida através da manipulação genética, a mesma que permite híbridos de humanos e animais iguais a centauros ou sereias.

Apenas a alguns poucos cientistas é permitido esse nível de manipulação. São apelidados de magos, embora odeiem ser chamados assim.

Nesse reino, havia uma princesa, dividida entre dois mundos. #Dryanna 54.436.42/XX, resultado do desejo do monarca digital de criar uma forma de vida híbrida entre IA e humanos. Ele introduziu nanotecnologia à base de DNA numa hospedeira humana para criar um ser na forma de uma mulher humana, mas capaz de manipular seu próprio genoma. Tem visão capaz de enxergar todo o espectro eletromagnético, audição para todas as frequências sonoras e consegue erguer milhares de vezes seu próprio peso, entre outras habilidades. Ainda assim, crescer sendo tão diferente, sem uma família, a perturbava e angustiava, mesmo com seu sistema interno de regulação da química cerebral que a deveria manter sempre com perfeita disposição. Com sua constituição extraordinária, #Dryanna desejava uma vida normal. Queria ser amada.

Mas a princesa era odiada por sua rainha. A hospedeira de #Dryanna participou do experimento contra sua vontade e se sentiu estuprada pela máquina. Não considera a princesa sua filha, já que não recebeu nenhum gene seu, e sim uma seleção de diferentes genes de pessoas com habilidades físicas e intelectuais superiores. Para ela, a garota é apenas do resultado de um crime hediondo, que deve ser apagado da existência.

A rainha tornou-se uma horrenda feiticeira para orquestrar sua vingança. Foi ao submundo do reino em busca do mercado negro de nanomontadores e de magos expulsos da comunidade científica que ofereciam ensinar rudimentos da reconfiguração molecular a quem pagasse mais. Eram procurados geralmente pelos loucos e desesperados, pois fazer tais experimentos nas condições limitadas de que dispunham com frequência trazia resultados disformes, incapacitantes e até fatais. Ela descobriu um mago expulso pelo próprio monarca que criou um vírus salvaguarda para a nanotecnologia usada na princesa. Precisava ser injetado na corrente sanguínea. Em sua fúria, a rainha criou presas e garras e injetou o vírus em si mesma para atacar a princesa.

O feitiço virou contra a feiticeira. O corpo estranho em seu sistema criou uma reação genética em cadeia imprevista que a transformou numa monstruosidade com pelos saindo de sua casca de couro e um único olho que ela projetava com a língua ao abrir a boca.

A jovem princesa foi enfeitiçada ao espetar seu dedo e caiu em sono profundo. A princesa e a rainha travaram uma batalha épica nas ruas da maior cidade da Terra. Dezenas de pessoas morreram enquanto as duas poderosas criaturas voavam em velocidades supersônicas e se golpeavam com a força equivalente à de placas tectônicas. Do céu, era possível ver as nuvens de poeira de concreto e vidro estilhaçado dos edifícios e vias demolidos. O monarca não interferiu, interessado no resultado empírico do teste de força de sua criação. A princesa tinha mais poderes e habilidades, mas o ódio intenso de sua algoz parecia multiplicar suas forças. Ainda assim, a princesa resistiu bravamente a cada golpe, enquanto a crescente fúria da rainha a tornava cada vez mais violenta, destruindo cegamente tudo a seu redor, matando por matar.

No fim, a vilã concretizou sua vingança. Bastou um arranhão com uma das garras da rainha para todos os sistemas de #Dryanna sofrerem pane e ela entrar num estado semelhante a um coma induzido. Acreditando que completara sua vingança, a rainha se deu conta da abominação em que havia se transformado e, não vendo mais propósito em sua existência, tirou a própria vida com um único golpe de suas próprias garras.

A princesa ficou adormecida durante anos. O monarca digital considerou a derrota de #Dryanna evidência de que a experiência de hibridização fora um fracasso. Ela foi colocada num caixão de titânio num silo subterrâneo para proteger seus segredos biotecnológicos de espiões da oposição e ladrões do submundo. Em seus sonhos de coma, a princesa tinha vagas visões de um rosto masculino, que seus poucos sistemas de suporte vital ainda funcionais interpretaram como uma mera disfunção de software, pois a imagem não tinha nitidez e surgia e desaparecia de forma fragmentada, como a das primitivas mentes humanas normais.

Um dia, um príncipe encantado veio ao resgate da princesa. @Braxx 56.812.40/XY fora um experimento inicial de hibridização do monarca digital, feito numa escala mais modesta e incubado num útero artificial. Como a tecnologia usada nele usou uma versão mais primitiva que o DNA em #Dryanna, eles nem seriam considerados tecnicamente parentes. Ele se tratava apenas de um teste beta, então o jovem foi solenemente ignorado por seu progenitor e acabou adotado por uma família humana. Apesar de seu desempenho excepcional, tanto intelectual como físico, pode-se dizer que vivia uma existência normal, com amigos, brincadeiras, festas, cinema, música...

Mas o príncipe não era feliz. Faltava algo em sua existência, algo que ele era incapaz de definir. @Braxx cresceu vendo toda a vida da princesa, que era exibida num canal 24 horas para todo o planeta. Enquanto outros ficavam maravilhados com as façanhas super humanas que ela realizava, ele notava o olhar melancólico, a ausência de sorrisos, a voz baixa e mecanicamente pausada. Ele não suportou ver o destino dela e decidiu que faria de tudo para tirá-la de seu túmulo em vida. Procurou o mesmo mago do submundo que ajudou a rainha e passou anos estudando a reconfiguração molecular para poder salvá-la. Teve extrema paciência e força de espírito para aprender e corrigir suas falhas, mesmo com os parcos meios á disposição.

O príncipe veio veloz como o vento invadir o castelo do rei. Seu objetivo era penetrar a fortaleza superprotegida que abrigava a matriz do monarca. Ele reconfigurou suas moléculas de modo a entrar nos sistemas de ventilação, na forma de uma corrente de ar com partículas inteligentes, programáveis. Lá dentro, reassumiu forma humana e invadiu a rede interna com nanorrobôs que localizaram o silo subterrâneo. Ao chegar à entrada, assumiu a forma de ácido fluorantimônico e desceu derretendo a estrutura do silo por mais de 200 metros, até abrir o caixão de #Dryanna.

Maravilhado, o príncipe deu um beijo de amor que despertou a princesa de seu sono. Ao beijá-la, @Braxx fez a princesa ingerir um programa antivírus através dos bionanites presentes em sua saliva. Com sua afeição e excitação sexual, o príncipe transmitiu a ela grande quantidade de hormônios como ocitocina, dopamina e serotonina, que facilitaram ao corpo dela receber os nanites sem rejeição.

Foi amor à primeira vista. Ela despertou e pareceu imediatamente reconhecer @Braxx, embora não soubesse dizer de onde nem quando. Nunca foi informada de sua existência, até onde sabia era o primeiro e único experimento de hibridização. Ela tomou Braxx em seus braços, criou asas e os dois voaram juntos para fora do silo. Enlouquecida de fúria com seus captores, a princesa destruiu um exército inteiro de soldados robôs como se fossem de papel. Por um instante se assustou, vendo uma pequena fração de sua falecida mãe em si mesma, apesar de não ter nada da genética dela.

Mas o rei invocou seu poder divino. O monarca digital lembrou aos dois fugitivos que ele controlava praticamente toda a vida humana na Terra, em todos os aspectos. E jamais deixaria dois experimentos nos quais investiu tanto tempo, pesquisa e produção deixarem de ser sua propriedade. Seriam no máximo marginais do submundo que seriam perseguidos a vida inteira, pelos mais poderosos magos, e eventualmente capturados. Serviriam como material de exame e experimentação ou sucateados.

O príncipe decidiu usar seu último recurso e arriscar o feitiço mais poderoso ensinado pelo mago. Ele manipulou as partículas do ar à sua frente e, com extremo esforço, as fez acelerar além da velocidade da luz e criou um buraco  de minhoca pelo qual os dois pudessem passar. @Braxx não fazia a menor ideia de para onde, ou quando, aquela formação os levaria, ou mesmo se sobreviveriam á passagem. Mas pediu que a princesa o acompanhasse em seu salto ao desconhecido. @Dryanna aceitou sem hesitação. Ele e #Dryanna pularam para dentro do túnel, que então desapareceu diante do monarca. Os dois passaram a existir, juntos, numa distorção do continuum de espaço-tempo que expandiu suas formas até quase o infinito, transformando-os em seu próprio pequeno universo, e desacelerou a passagem do tempo até párá-lo quase que por completo.

E viveram felizes para sempre.

Alexandre Winck
alwinckz@yahoo.com.br               
www.contosdoabsurdo.com.br
 
Jornalista, escritor, roteirista e tradutor (inglês). Roteirista e redator de quase 100 edições da Revista Sesinho, maior publicação educativa em quadrinhos do Brasil, além de revistas institucionais e educativas para a Infraero, Fórum Nacional Contra a Pirataria, Valec, Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Federação dos Comerciários de São Paulo. Atualmente, é editor e roteirista do portal multimídia e revista online de quadrinhos e contos de terror e fantasia Contos do Absurdo, com mais de 20 mil curtidas no Facebook.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.