Café Literário: Clichês na janela


Pela janela. Em pé. O cigarro na mão. A fumaça esvaindo. Esvaindo. Na rua o movimento intenso. Tenso. Ele pela janela. O rosto refletido. Distorcido. O mundo. Seu mundo. Seu? A televisão dialogava, buscava-o. Ele claramente a evitava. Seu brilho já não era atraente. Nem todas as vozes e rostos e corpos e outras vidas que continha. Não interessava mais. Só a janela. E a ideia do fora.
Na mesinha diante do sofá o livro. Filosofias. Ideias tantas. Ao lado o copo. Uísque e gelo. E o cinzeiro. Cena clássica. Romântica. Clichê. Não era um clichê também?

Sempre um clichê. Tudo era um clichê. Inclusive as portas que se fechavam e abriam para os corpos que entravam e saiam. Afastou-se da janela. Agora era o quarto. Parado observava o silêncio do quarto. A ameaça da grande e vazia cama. Cama de morrer. Pensou.  Afastou-se. A porta trancada. Já não queria o quarto. Mas a sala, o uísque, o cigarro e a janela. Em tempos de políticas corretas, gostava de se rebelar. Cuspiu no chão. Da sala. Ato nojento, execrável. Passou o pé. Sorriu. Sentiu vontade de urinar no sofá e em tudo. Rebeldia total. Saltar fora de toda a regra ou boa conduta. Estava farto.

A janela continuava a olhar para ele. Olho enorme de enquadrar os rostos. Outro cigarro. Precisava de uma música. Mas não podia ser nada comportado. Queria um certo desespero, um certo peso. Já não queria as palavras exatas ou as boas rimas, nem as ideias criativas ou inovadoras. Matanzza então. Pensou na idade. No tempo de existência. Experiência. Sorriu amarelo. Quase cinquenta. A metade do século. E nada. Na janela um rosto sem expressão. Isso era irritante. Seria a solidão? Não. A solidão era aliada. Estar sozinho não era o problema, mas estar vazio. Oco. Casca. Era isso. Morto? Estaria morto? A janela era indefinida, buscou o espelho do quarto. Os olhos. Estavam sim. Como suspeitara. Mortos. Sem brilho. Sem cintilação. Olhos de já ver tudo? Olhos saturados? Saturados do mesmo? Imagem, som, rosto, tudo?

Tinha saudades dos olhos de uma pequena foto que ainda trazia na carteira, ainda um brilho, um resquício... Olhos de pulsar emoções... Agora não. 

Transformado em estátua de sal? Já não a carne e sua textura e prazeres. O sal. A pedra. Era assim? Também as rugas enredavam e turvavam as purezas de ver e sentir. Fundas e profundas, inundadas de experiências, de imagens, de dores... Algumas alegrias. Nada pode ser um dramalhão. Às vezes tentamos...

Tinha que sentar. As pernas doíam. Recostar as costas e passar uma mão no rosto. Afagar um cansaço antigo, amenizar irritações anciãs. Era irritado? Sim, claro que sim, como não seria? Mais que isso. Era um indignado. E indignação era o seu próprio corpo. O corpo da indignação. E expressava isso tudo no silêncio. Na recusa de entrar em grandes debates. A grande recusa. 

Pensou no gosto do chocolate. Gostava muito. Da doçura, mas também repugnava, buscou o cigarro e o uísque. O álcool era um grande amigo. Sabia que era traidor e falso, mas era um bom amigo. Conhecer amizades...

Ronie Von Rosa Martins
ronieev@gmail.com

Professor - Português/Inglês - Pedro Osório/Cerrito - RS
Pós-graduado em Literatura Contemporânea Brasileira - UFPEL
Pós-graduado em Linguagens Verbais Visuais e suas Tecnologias – IFSUL

Textos publicados no Cronópios, Revista Entrementes, Revista Partes, Meiotom, Verbo21, Paralelo 30, Portal Literal, Recanto das Letras,   Caos e Letras, Letras et Cetera, Literatura del Mañana, Arte Institucional número 5, Nerdescritor , na Revista Capitu, Tiro de letra, Kplus , Revista Literatura em Debate, Outra Revista e Revista Nota Independente, Antologia Online da Câmera Brasileira de jovens escritores e Jornal O lince, Clube do Livro , Veredas , Casa das Musas , Editorial Rove e na Revist’A Barata, Jornal Telescópio, Literatura em Foco, na Revista Germina – Literatura e Arte e Andar 21.

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