Café Literário: Outro momento


Poucas pessoas usam essa expressão: “Ah, estou em outro momento”. Mas, mesmo inconscientemente, usamos essa expressão diariamente. Quando falamos em momentos, pode vir muitas coisas na nossa mente. Podem surgir lembranças, alegrias, desejos, felicidade e por ai vai... Tudo é relativo.

Falamos em grupos: “Poxa, momentos que não acontecem mais”. “Bons momentos tivemos na infância”. “E naquele momento ele me beijou...”. Falamos isso em uma roda com amigos lembrando os momentos bons da infância. Mulheres confessam para as amigas do momento exato em que o homem da vida dela beijou ela pela primeira vez. Ou seja, momentos únicos que tiveram. Agora, por exemplo, pode ser um momento. Um momento que não acontecerá mais. Daqui a pouco é outro momento.

Momento é constante e transitório. E é sobre essa transitoriedade que quero falar. Esquece as falas dos momentos únicos que tivemos. Dos momentos inesquecíveis. Do momento especial. Do momento em que nos beijamos. Esquece. Quero falar da transitoriedade momento que não percebemos. Melhor, que fingimos que não percebemos.

Sentir é relativo ao momento. “Sinto nesse exato momento a plenitude”. “Sinto neste momento que coisas boas vão acontecer”. Quando dizemos isso, estamos dizendo que o espaço, o tempo, vai organizar uma ocasião para que surja uma oportunidade para sentir. Tudo isso é muito rápido, e quase sempre não percebemos a transitoriedade do momento. É por isso que não sabemos definir o que sentimos em determinado lugar, em determinado tempo.

Seu desejo se realiza, a plenitude, as coisas boas acontecem. Você sente paz, amor, felicidade em um único dia. Mas dai você já não está mais satisfeito com o desejos alcançados naquele dia. Algo está te incomodando. Você está em outro momento.

Quando você ouve uma música, e acha aquela música incrível, é provável que você vá comentar com alguém sobre aquela música, ou vai pedir para aquela pessoa ouvir. Estou errado? Pois é, não precisa responder. Daí aquela pessoa ouve a música e não gosta. Ela está em outro momento que não é o mesmo que o seu.

Li um livro uma vez, e naquela época achei aquele livro um lixo. A releitura é importante por causa disso: “do momento”. Um tempo depois reli o livro e amei, parecia que tudo que estava lá dentro era pra mim. Eu estava em outro momento.

Você convive com uma pessoa há 7 anos, e no começo você dizia que era o amor da sua vida, que era o homem mais lindo da terra, que era com ele que você queria passar o resto da sua vida. Mas agora você já não tem tanta certeza. É simples. Você está em outro momento.

Temos medo desse momento, desse sentimento momentâneo. O “sentir” é sacana, quando estamos firmados, seguros em algum lugar, surge outro sentimento momentâneo. E o castelo que construímos, já não sabemos mais se está bem estruturado. Somos vítimas desse sentir ingênuo e de alguma forma puro, mesmo sendo tempestivo.

Vale lembrar que só é tempestivo quem ainda não entendeu que o momento, o sentir, a vida, é transitória. Mas para quem está acostumado com esse engarrafamento, sabe que chegaremos em casa com vida. Mesmo parecendo que não.

É dessa forma que percebemos que nunca existirá o ideal. Que o feliz pra sempre não existe. Que o amor não é pra sempre. Porque tudo é momentâneo.

“Mas, Leandro, o que está acontecendo? Você não era assim!”. “Como assim, você me disse que estava apaixonado, e agora me vem com essa que não está mais?”. "Mas você sempre defendeu isso". "Mas você gostava daquilo...".

Pois é, estou em outro momento.

Leandro Salgentelli
leandro.sargentelli@outlook.com.br
 
Leandro Salgentelli, blogueiro, poeta. Amante da literatura, apaixonado pela escritora, poeta – Martha Medeiros. Bom leitor de Clarice Lispector, Elizabeth Gilbert, Marla de Queiroz e, do educador Rubens Alves. Apaixonado pela música, teatro e cinema.

(...) Um homem precisa saber e correr atrás de algumas respostas, se não ousar, não persistir, então, nada lhe serve a esse homem. Nem mesmo à vida representa algo, nem mesmo sua própria existência (...)

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