Café Literário: Obra-prima


Os dois tiveram o mesmíssimo sonho. Artistas plásticos em começo de carreira, sonharam que chegara o dia que tanto esperavam: seu talento seria finalmente reconhecido. Antes do pôr-do-sol, eles pintariam o mais belo quadro que o mundo já vira, a obra-prima das obras-primas, a obra de arte para a qual Da Vinci sequer teve a ousadia de se inspirar. Mas uma era a condição: eles teriam de pintá-la a quatro mãos. Nada demais, não fosse um detalhe: mesmo morando na mesma cidade, ainda não se conheciam.

Levantaram-se da cama bruscamente, ainda sonolentos. A janela anunciava o nascer do sol. O sonho não lhes saía da cabeça. Deveriam levá-lo a sério? Que loucura! Pintar um quadro com um desconhecido e em poucas horas? E ainda mais aquela que seria a maior obra de arte de todos os tempos? Ainda que confusos, do sonho lembravam que o encontro entre os dois seria no centro da cidade. Assim que se encontrassem, reconhecer-se-iam mutuamente, mas não sabiam exatamente como.

Tomaram um banho rápido. Vestiram uma calça qualquer e a primeira camisa que encontraram, exatamente aquela jogada sobre um dos cavaletes. Tomaram café às pressas. Aliás, nem o tomaram todo. Um pouco do café caiu acidentalmente na camisa que vestiam. Saíram correndo de casa assim mesmo, em direção ao centro da cidade. Realmente precisam apressar-se. Eles tinham somente até o sol se pôr para trazer ao mundo a arte suprema.

Algo lhes dizia que deveriam ir até o marco zero da cidade. E foram. Chegaram quase no mesmo instante e se reconheceram na mesma hora. Correram um em direção ao outro, como se fossem velhos amigos que não se viam de longa data. Abraçavam-se e gargalhavam extasiados de felicidade. Vestiam a mesma calça jeans e a mesma camisa manga curta de meia branca, manchada de tinta e com respingos de café. Era o sinal. Eram eles mesmo.

Não falavam nada. Não havia o que dizer. Nos olhos um do outro viam o quanto tinham em comum, além da profissão e da cidade natal. A vontade de viver da arte. O mesmo estilo. As mesmas influências. Os mesmos gostos. O sonho de seus traços mudarem a forma de a humanidade ver o mundo. O sonho que tiveram na noite passada... e a certeza de que aquele era mais que um sonho... Céus! O sonho! - pensaram eles. Não poderiam mais perder tempo. O sol marcava meio-dia.

Em poucos minutos decidiram questões práticas como a composição do quadro, a técnica, o estilo, o tamanho da tela, a profundidade, a luz, as cores. Aparentemente, tudo resolvido, um deles puxou o outro pelo braço:

- Vamos! Meu ateliê fica pra lá.

O outro não arredou o pé:

- Achei que fôssemos pintar no meu ateliê!

E começaram a discussão. Cada um apresentando mais e melhores argumentos que o outro de que o seu ateliê era o local mais adequado para nascer a obra de arte. Porque era mais amplo. Mais confortável. Mais inspirador. Por que lá havia acervo de material suficiente para finalizar o quadro e, ainda que viesse a faltar algo, perto havia onde comprar os suprimentos necessários.

Os argumentos e contra-argumentos não tinham fim. E as horas se passavam. E ali eles permaneciam, sem chegar a uma decisão. Até que o sol se pôs. Enfim, escureceu. Não havia mais nada a fazer. Com a luz do sol, foi também a chance de a humanidade ver a obra-prima das obras-primas.

Parece que tudo não passara de um sonho. Ao menos, foi o que pensaram ao levantar da cama bruscamente, ainda sonolentos. A janela anunciava o nascer do sol. O sonho não lhes saía da cabeça. Deveriam levá-lo a sério? Que loucura! Deixar de produzir a maior obra de arte de todos os tempos por não conseguir chegar a um consenso sobre onde pintá-la? Eles não tinham tempo a perder. Tomaram um banho rápido, vestiram uma calça e uma camisa qualquer, tomaram café às pressas e saíram correndo em direção ao centro da cidade.

Aldenor Pimentel

Aldenor Pimentel é natural de Boa Vista-RR. Jornalista, poeta e escritor, tem contos, crônicas e poemas publicados em coletâneas de textos literários. Recebeu prêmios em concursos de contos e poemas.

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