Café Literário: O retorno

 


A nossa vida tinha se transformado em uma tortura. Desde o acidente minha esposa não dormia. Como um zumbi, passava a noite andando de um lado para o outro procurando algo em que pudesse se entreter e esperar o amanhecer. Quando finalmente era vencida pelo sono, acordava sobressaltada, ofegante, alarmada, constantemente parecia estar sendo sufocada, seus demônios a sufocavam.

Inicialmente me preocupei, tentei conversar com ela, convencê-la de que era necessário buscar ajuda médica, psiquiátrica, não aceitava que minha mulher se entregasse assim àquela perda. Acreditava que era minha obrigação fazê-la retornar a realidade, sufoquei minha própria mágoa, não aguentava encará-la, sua fisionomia atormentava-me, como eram parecidos, sufoquei minha dor para buscar uma solução para o seu sofrimento. Mas Suzana simplesmente se esquivava. Todas as minhas tentativas eram categoricamente ignoradas.

Conhecia a verdade, sabia que ela era a responsável pelo que tinha acontecido. Não como um consolo reconforte, longe disto, mas reconhecia que nada mais podia ser feito, infelizmente, por uma fatalidade nosso filho havia sido vitimado e, contrariando a ordem natural e todas as expectativas, agora ele não estava mais conosco.

Ainda assim, dia e noite, sentia-me mergulhado em angustia, tragicamente perdi meu filho e agora dia a dia, perdia a mulher a quem tanto amava. Perdia, pois, ela se entregava as lamúrias, assombramentos, angustias. Era a própria face da tormenta. Perdia também porque eu a culpava pelo meu sofrimento, meus sonhos e expectativas tinham sido roubados por sua atitude insensata, imatura e irracional.

Sempre a admirei por seu amor, carinho e atenção aos animais, mas não conseguia perdoa-la, estes mesmos sentimentos fizeram com que ela escolhesse não sacrificar a vida de um cão em detrimento a do nosso filho.

As imagens aterrorizantes não se dissipavam da minha cabeça. Como se fosse possível, constantemente sentia-me transportado de volta aquele fatídico momento. Sua insistência momento antes para que eu não pegasse o carro. Nossa discussão e eu cedendo, afinal realmente havia bebido, melhor não facilitar. A teimosia de Guilherme, meu lindo garoto, reafirmando que sua idade já era mais do que suficiente para viajar no banco da frente. Mais uma vez cedi. O cansaço de um longo dia de trabalho acentuado por umas cervejinhas para relaxar tinham me vencido. Joguei-me resignado no banco traseiro e embalado pela música suave do rádio, entreguei-me a um desejo recorrente. O sonho da família era conhecer Bonito, estávamos os três boiando nas águas cristalinas. Flutuando pelo Perdido, encontrava-me.

O grito de terror de Suzana brutalmente me trouxe a realidade, sentindo o solavanco do carro, fui impelido ao banco da frente, a propulsão do peso do meu corpo acrescida a velocidade do carro aumentaram fortemente o impacto sofrido por Guilherme, que foi brutalmente lançado contra o para brisas do carro, quebrando-o. Como uma marionete seu corpo foi ejetado para fora. No meio aquela confusão de freios, músicas, gritos e desesperos, vejo meu Guilherme ser arremessado contra um dos muitos equipamentos que tragicamente adornam a cidade maravilhosa transformando-a num imenso canteiro de obras. Como uma guilhotina cruel, a pá da escavadeira parte em dois o corpo de meu filho.

Atônito pela pancada, com um enorme pedaço de ferro lacerando minha coxa direita, cambaleando, busco meu filho, encontro-o inerte, repousado, seu corpo dilacerado está em um amontoado de areia e restos de concreto. Suzana, ilesa, corre ao nosso encontro, mas quando percebe que sob seus pés estão restos do filho morto, desfalece.

Assim tenho passado meus dias, vivendo a insensatez de Suzana e cuidando para que estes contínuos retornos aquele pesadelo, não aprisione de vez minha mente por lá. Buscando ter um pouco de alento, convido um casal de amigos, cuja mulher é psiquiatra, para um lanche. Evidentemente minhas reais intenções eram conhecidas de ambos, mas Suzana, nem podia desconfiar da nossa armação. Como de praxe ficamos, eu e Arnaldo no escritório, enquanto as mulheres ocuparam-se no jardim. Sua agitação, atitudes perturbadoras, raciocínio confuso e constantes alucinações não me preocupavam. Pâmela precisava que cada uma destas condições se manifestasse para tentar nos ajudar. Com pouco mais de duas horas de visita, Suzana entra afobada no escritório, sua ansiedade é latente. Tento acalma-la e pedindo desculpas aos convidados a levo ao quarto, peço que ela aguarde, mas, muito nervosa, esbaforida e completamente descontrolada ela insiste para que eu não a deixe.

Mas tarde ligo para Pâmela, ela me orienta que outras visitas serão necessárias, o acompanhamento tem que ser contínuo, porém esta quase certa de que Suzana sofre de Depressão Psicótica. Marcamos um novo “chá”, Suzana passa por uma nova avaliação, seu diagnóstico é confirmado. Pâmela prescreve o uso de antidepressivos e anti-psicóticos, além de consultas de duas a três vezes por semana.

Após cinco meses de tratamento, com dias mais tranquilos e noites menos insones, relaxo um pouco e passo a ter ilusões de que as coisas enfim poderão se ajustar novamente. Incrivelmente nossa casa volta a se parecer com um lar. Nossa vida matrimonial vai lentamente entrando no eixo, voltamos a conversar, planejar e ter intimidades, coisas tão comuns a qualquer casal. Até que somos surpreendidos com uma possível gravidez. Pâmela me adverte que este não é o melhor momento, que o tratamento de Suzana ainda está muito no início, que não deveríamos alterar a medicação, mas a possibilidade de um filho nos enche de alegria e Suzana, já ciente de sua vontade, insiste em suspender a medicação.

Converso com Pâmela, que mais uma vez me exorta a manter o tratamento. Porém, mesmo conhecendo todas as implicações sou convencido por Suzana de que não podemos por a vida do nosso filho em risco. Negligentemente, tomado de esperança, aceito sua decisão e suspendemos o tratamento. Voltamos a ser um casal feliz. Sua barriga crescia saudável, um filho coroaria nossa felicidade. Sua alegria de viver é contagiante. Durante o pré-natal, em uma das consultas, somos felicitados com a notícia de que teremos gêmeos. Não me aguento, saio do consultório feito um bobo, rindo descontroladamente. Suzana também não cabe em si. Para provar que sua remissão foi aceita, nos concederam dois filhos, um casal. Teríamos Guilherme de volta e finalmente nossa princesinha chegaria. Suzana sente que os céus a perdoaram. Ela se perdoou.

Tudo seria diferente. Teríamos nossos filhos em casa. Para me assegurar contra qualquer problema eventual, providencio todos os aparatos médicos necessários, nosso quarto se transforma em uma mini maternidade, tudo o que é possível ter em casa esta disponível. Ainda assim, caso alguma coisa fuja ao controle, uma ambulância estará pronta para chegarmos ao hospital.

Chega o grande dia, contrações, reclamações, contrações, ligações, contrações, todos a postos; parteira, técnica de enfermagem e o motorista da ambulância. O conselho regional de medicina não aprova o parto em casa, por isso médicos não podem assistir a nossa opção. Esperançoso, creio que tudo se dará sem problemas, nossos filhos nascerão tranquilos, sem anormalidades. Nossos demônios já foram expurgados. Todos eles.

Assim, como previsto, nossa princesinha vem antes, linda, saudável. Suzana não sofre, parece bailar de felicidade, o contentamento a envolve. O choro da filha faz com que ela se irradie ainda mais. Como é linda, minha mulher!

Agora a grande expectativa é para a chegada do meu garotão. O retorno do meu filho. E lá vem ele. Estou ansioso, a espera me consome. Mas algo esta fora de ordem. As mulheres estão agitadas, tento ver o que esta acontecendo, o corpo de uma delas bloqueia meu campo de visão. Alarmado, busco uma resposta. Estou aflito. Elas perguntam se é possível a presença de um médico. Claro que é possível com dinheiro tudo é possível! Tento estar dentro da lei, tento seguir as normas, mas meu filho esta em risco. É um médico que é preciso, chamaremos um médico. Passo a mão no celular e disco um dos telefones da agenda, a voz plácida e controlada do outro lado em nada se sintoniza com a minha agitação. Como é possível a apenas três mulheres, uma delas em trabalho de parto, tanta algazarra? Em meio a tanta balbúrdia e agitação, me esqueço da ligação e consigo finalmente entrever a cena que se esconde. Já desfalecida, vencida pelo cansaço Suzana esta entregue ao desespero. Em seu rosto outrora calmo e radianta, agora é possível notar dor, agonia, desalento. Tomado de pavor me pergunto onde esta aquela mulher linda, de fisionomia calma e amena? O que de tão terrível aconteceu que desfigurou por completo minha amada esposa?

Neste instante as outras mulheres não se preocupam mais comigo. O pânico se apoderou de seus semblantes. Toda a visão aterradora se torna possível aos meus olhos. Minha mulher exangue, tombada em seu leito. Todo o lado esquerdo do seu corpo pende desfalecido. Parece que apenas aguarda o fim. Em completa agonia, busco meu garoto, meu Guilherme voltou, mas não consigo encontrá-lo. Assombrado encontro-o no chão. O susto foi tamanho que uma das mulheres lançou-o longe. A imagem do acidente volta a minha mente. Pesadelo que teima em me martirizar.

Mais uma vez em agonia, me vejo correndo ao resgate do meu filho. Queiram os céus que minha tristeza não se perpetue. Não sei de onde tiro forças, mas lanço-me ao seu encontro. Ele parece estar bem. Mas suas mãozinhas seguram firme alguma coisa que não consigo identificar. Estas não deveriam ser as mãos frágeis de um recém nascido? Como é possível tanta força e determinação a alguém tão jovem? Em meio a tanto susto, ainda muito abalado com cenas tão dantescas, não tinha me dado conta de que me encontrava sozinho com minha família. Todos haviam se retirado.

Minha estupefação estava apenas começando. Quando finalmente consegui me aproximar e me concentrar o suficiente. Quando pude, enfim, verificar o que, com tanto vigor meu filho segurava, entorpecido identifiquei, alarmado constatei, atormentado e aterrorizado conclui, suas mãos como garras, seguravam o útero de Suzana.


Debora Rios de Souza             
     
Atualmente sou professora da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, leciono ciências para o ensino fundamental e também atuo na coordenação pedagógica. Sou formada em Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas. Já atuei no ensino médio e profissionalizante, assim como em pesquisas. Sempre fui apaixonada pelas artes, em especial a literatura.Recentemente tenho me sentido mais confiante para expor meus escritos e tenho participado de alguns concursos. Em 2012, fui agraciada com a publicação de dois dos meus poemas em uma coletânea da SME.

6 comentários:

  1. Excelente texto! Está bem escrito, com bom vocabulário, e a história é sinistra, tensa e sombria. Acredito apenas que, neste período: "Quando finalmente consegui me aproximar e me concentrar o suficiente. Quando pude, enfim, verificar (...)", seria uma vírgula entre as frases, assim: "Quando finalmente consegui me aproximar e me concentrar o suficiente, quando pude, enfim, verificar (...)" No mais está muito bom, parabéns!

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  2. Já comecei a orar por Suzana para que seus demônios sejam expurgados! Envolvi-me de tal maneira com sua dor que, de fato, parece uma história real. Lembrei-me do fato de não ter a plena certeza se Capitu traiu ou não. Realismo que encanta. Já me vejo contando para meus futuros filhos, na segurança de minha casa, é claro, que conheci pessoalmente Frida Bardem. Que prazer ler e viver estórias como essas. Agora só falta um pouco de poesia para garantir o sustento das minhas emoções. Parabéns!

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  3. Nossa! Fiquei com a respiração suspensa o tempo todo.O texto é ótimo.A proposta de uma texto de terror,mesclado ao suspense foi totalmente bem atingida.Parabens!

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  4. Texto envolvente demais! Consegui visualizar cada cena. Suspense envolvente e o pânico da família nos agoniza, ou seja, objetivo atingido. O final da estória dá uma sensação de fim de novela do tipo "Quem matou?". Ótimo texto. Parabéns!

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  5. Lindas palavras, de uma linda mulher, compondo uma linda história ... Parabéns

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