Café Literário: Beijo Frio

 
 Você tem exatamente três mil horas para parar de me beijar – Cazuza.


Estava escuro ainda quando Manoel acordou sentindo alguma coisa incômoda em suas costas. A cerração ainda recobria as encostas das montanhas e as estrelas estavam sumidas no meio de tanta umidade no céu. Mas tinha ficado difícil continuar dormindo, e ele não sabia porque. Dentro da barraca o frio não entrava tanto, o saco de dormir isolava bem a umidade, mas de alguma forma ele acordou e foi se sentar, ainda enrolado nos agasalhos que catou da mochila. Acendeu o fogareiro e começou a esquentar água para preparar um café solúvel. Reparou então que as outras barracas estavam vazias.

“Mas com mil diabos, aonde o pessoal foi parar no meio da noite?”

Estava em uma expedição improvisada aos Cárpatos centrais, apro­vei­tando as férias de outono da universidade. Ideia do Mihai, que dizia não haver nada mais maluco para se fazer do que acampar nas montanhas nas noites de outono, frias, mas não geladas ainda. Manuel não se lembrava exatamente de ter concordado com o plano, mas com a adesão dos colegas de quarto e a perspectiva de ficar sozinho em Bonn até a volta das aulas, preferira acompanhar seus quatro amigos naquele passeio que tinha todo jeito de programa de índio. Ou melhor, teria jeito de programa de índio se houvesse índio na Romênia. Mas não havia, somente um bonito e empobrecido país onde o povo gostava de contar histórias de vampiros e coisas parecidas para os jovens estrangeiros.

Subitamente lembrou de um sonho que tivera, um sonho molhado com algum tipo de criatura sensual. Por alguma razão inexplicável, no sonho, os seus companheiros de acampamento fugiam esbaforidos, como ratos diante do ronronar de um gato esfomeado. Mas ele ficara. Sentiu retornar à boca o estranho gosto de água de mina, de caneca de latão, de colher oxidada. Gosto rico em ferro.

“Devo ter mordido o lábio, ou estou com as gengivas inflamadas outra vez.”

A água começou a formar bolhas na caneca.

“Onde estará o maldito pote de café?”

Saiu tateando pela escuridão, tentando que a pouca luz das laba­redas lhe mostrasse o caminho. Então sentiu novamente arrepiar a nuca, uma sensação que lhe lembrou o sonho. Virou-se assustado, poderia ser uma onça. Mas não era, era só uma mulher.

— Moça, que susto você me dá!

Ela o olhou obliquamente, com interesse, mas não parecendo ter entendido o que ele lhe dissera. Lembrou-se então de acordar o Mihai para ele servir de intérprete. E logo esqueceu, pois não tinha muita vontade de compartilhar com ninguém aquele momento.

Era uma moça bonita, embora não extraordinariamente bela. Não dava para ver direito naquele breu, somente com a luz fraca e vermelha do fogareiro. Mas era a mulher do sonho, ela mesma!

— De onde você veio?

A mulher não deu sinais de compreender o que ele dizia. Repetiu a pergunta. Ela pelo menos pareceu perceber que tinha sido uma pergunta. Disse-lhe algumas frases em uma língua desconhecida:

— Nu înţeleg ce spui, draga.

— Hem? O que…?

Então era mesmo uma gringa. Inútil esperar que ela mantivesse uma conversa normal. Aproximou-se do fogareiro e finalmente viu a lata de café, tombada junto à mochila de um dos companheiros de acam­pamento. Abriu-a e já se preparava para derramar um pouco na água que já estava prestes a ferver quando resolveu tentar alguma mímica para falar com a estranha. Esfregou a mão no braço, tentando dizer que estava frio e apontou-lhe a água quente e o café.

— Café?

— Da, o cafea mica. Vă rugăm să…

Tirou duas colheres do café e atirou dentro da água quente. Enquanto misturava, contemplou o rosto da desconhecida com um pouco mais de luz, pois ela se aproximara do fogareiro. Tinha um ar de camponesa, uma pele pálida e sem maquiagem e o cabelo ligeiramente emplastado de umidade.

O café ficou pronto instantaneamente, tal como a embalagem prome­tia. Só não ficou bom. Mas no alto daquela serra qualquer bebida quente era maravilhosa àquela hora da madrugada velha.

Pôs um pouco de café na tampa da garrafa e estendeu à estranha. Aguardaria que ela tomasse, antes de ele mesmo o fazer. Só não sabia se ela entenderia o gesto como uma mostra de educação ou uma ofensiva desconfiança. Deveria ter conversado mais com o Mihai sobre os costumes de seu país.

Enquanto a moça sorvia o café com uma vaguidão excruciante, deu-se conta de que não conseguia evitar os arrepios na nuca e os nós na garganta. Tinha vontade de correr, de chorar ou pelo menos dar um berro animalesco. Mas não o fazia. Não sabia porque. Não conseguia entender como se segurava.

Ela terminou de tomar o café e lhe entregou a tampa improvisada em caneca. Ele se serviu, mas não chegou a beber. Percebeu os olhos da estranha mirando sua face com uma voracidade que o excitava. Lembrou-se de todas as coisas erradas, sua mente foi invadida por uma cena de “O Nome da Rosa”, por saudades de sua adolescência na roça no interior de Minas Gerais, namorando nas moitas e capoeiras. A mulher ali estava.

Aproximou-se dela com cuidado, curiosidade e loucura. Ela permane­ceu plantada como um ídolo pagão. Tocou seu queixo: era duro, era frio, como uma das pedras. Puxou seu rosto para cima e mirou naque­les olhos escuros que redemoinhavam como o Estige e o Aque­ronte. Veio puxando lentamente para perto de si aqueles lábios finos, rasgados na carne pálida. Ela não resistiu, ainda que o des­locar de seu rosto fosse pesado, e voluntário. Por instantes lhe parecia que era o queixo dela que empurrava a sua mão.

Dois pares de lábios se tocaram. A troca de calor parecia provocar oscilações coloridas em sua imaginação. Lembrou-se de uma letra de música, queria que o beijo nunca terminasse. “Estamos, meu bem, por um triz, pro dia nascer feliz.”

Seus olhos queriam fechar-se, mas sua mente, arrepiada como os pe­los de um cavalo assustado por um lobo, insistia que não. Então, por uma sorte destas que ampara aos tolos, conseguiu contemplar a própria mão e notou veias saltadas que antes ela não possuía. Essa visão o relembrou do pesadelo de que acordara pouco antes, as ima­gens voltaram com mais força à sua mente e então compreendeu porque todo o seu ser queria gritar e fugir.

Tentou atirar-se ao chão, desprender seus lábios dos dela. Mas a misteriosa moça não o soltou. Antes o segurou com uma força que não parecia pertencer àquele corpo esguio. A duras penas conse­guiu, por efeito da surpresa, fazer com que o equilíbrio de ambos oscilasse no mesmo instante. Caíram sobre o fogareiro aceso, que inflamou suas roupas, brevemente. Ela o soltou, dei­xando um rugido demoníaco sair de sua boca.

Enquanto ela gritava, rolou sobre a grama úmida, tentando apagar as cha­mas. Ela batia as mãos contra as vestes negras, assustada como se o fogo a tivesse ferido muito.

Então Manuel percebeu que, se tivesse juízo, deveria fugir como os demais. Aproveitar o sol que assombraria a paisagem dentro de pou­cos minutos, a julgar pela nesga láctea do horizonte. Mas como fazer isso com tal beldade? Encheu a caneca de água fria da fonte e atirou sobre ela, apagando as últimas labaredas.

Ela se calou, intrigada. Uma fumaça branca ainda subia do tecido, a pele estava avermelhada em vários pontos. Um forte cheiro de cabelo queimado empestava o ambiente.

— De ce am fost salvat? De ce am fost salvat, draga?

Um comprido raio de sol atravessou as nuvens e atingiu a encosta da montanha desolada. A mulher deu um gemido e cobriu o rosto com os cabelos falhados pelas queimaduras. Levantou-se rapidamente e pôs-se a correr em direção ao bosque mais próximo, desaparecendo na penumbra da aurora antes de chegar até as árvores.

Depois disso Manuel não se lembra de muita coisa mais. A sensação de frio nas costas desapareceu, sumiu a vontade de gritar ou de sair correndo. No lugar da tensão antiga, uma paz interior lhe sobreveio, o sono esquecido retornou. Lembra-se apenas de ter acordado com tapas no rosto e gotas de uma água fria que parecia flocos de geada que derretiam com o calor de sua pele.

— Quem é o veado que está me molhando…?

Nem acabou a frase. Os seus amigos estavam todos em volta, assus­tados. Nenhum deles poderia se ofender com a pergunta, claro, pois nenhum falava português.

— Que merda foi essa que você fez, Manuel? — perguntou o Johnny em seu engraçado e anasalado sotaque indiano.

O fogareiro estava derrubado, e um largo trecho de grama seca estava queimado. Não havia quase nenhuma umidade à vista, somente nos lugares onde alguém atirara água às chamas já extintas.

— Vocês não tinham ido embora?

— Embora para onde? Acordamos com os seus gritos, maluco!

Manuel já se erguia, confuso e imaginando que estava louco. Então sentiu outra vez o arrepio na nuca, com uma força tão grande que era como se lhe socassem pelas costas: como não reparara antes em tantos fios grisalhos e tantas rugas de expressão no rosto dos colegas de faculdade? Olhou a própria mão, vincada de veias. E notou, com um horror que nem teve a coragem de mencionar, pedaços de tecido preto ao lado da pedra à beira do barranco.

José Geraldo Gouvêa
jggouvea@gmail.com

www.letraseletricas.blog.br

José Geraldo Gouvêa (Cataguases, 4 de maio de 1973) é escritor e tradutor amador, mantenedor do blogue literário "Letras Elétricas" desde 2007 (recentemente migrado para www.letraseletricas.blog.br). Escreve desde seus 14 anos, tendo se dedicado inicialmente à poesia, posteriormente ao conto e à crônica e, desde 2006, também ao romance. Tem publicados contos nas antologias "Rede de Contos" (Câmara dos Jovens Escritores Brasileiros), "Solarium" (Multifoco), "Solarium 2" (Multifoco), "Sinistro!" (Multifoco) e na antologia do II Festival Cultural Banco do Brasil (2010). Foi tradutor de cinco contos de H. P. Lovecraft para o volume "O Mundo Fantástico de H. P. Lovecraft" (Editora Clock Tower, www.sitelovecraft.com) e publicou, também pela Multifoco, o romance não-fantástico "Praia do Sossego". Sua obra se caracteriza principalmente pela busca de uma dicção coloquial e mineira, mesmo para o gênero fantástico. Os principais temas de sua ficção são a vida quotidiana, o folclore nacional, política, religião e assuntos sociais. Em seu blogue publicou suas traduções para o romance "A Casa no Limiar" (William Hope Hodgson, 1907) e "Abandonados em Andrômeda" (Clark Ashton-Smith, 1953), além de vários outros contos dos mesmos autores.

Um comentário:

  1. Gostei do conto! A linguagem é simples e o texto é bem fluído, os diálogos são bem colocados, além da história, que é muito bacana! Fiquei curioso: a fala da personagem, é idioma romeno mesmo? Parabéns!

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