A corte moral


O julgamento moral da ficção não é novidade, nem causa estranheza que continue acontecendo. No entanto, toda vez que me deparo com questionamentos acerca da moralidade de uma obra tenho o impulso de contra-atacar.

Dias atrás me envolvi em uma insólita discussão sobre a moralidade das novelas da Rede Globo. Pessoas com boa formação intelectual discursavam sobre os perigos da exposição de valores morais condenáveis em horário nobre. Mantive minha opinião com firmeza, apesar da convicção de que meus argumentos foram tratados com desprezo.

Não desisti, porém, da cruzada. Se aquele ambiente não era o ideal para a discussão, trouxe o jogo para o meu campo.

Antes de começar qualquer embate a respeito do tema, deve estar claro para o leitor, ou espectador, que personagens e autor são pessoas distintas – o que parece óbvio, mas não é. Seguidas vezes noto dificuldade do receptor em separar a obra da figura do autor.

Parte da ficção pode ter origem em experiências vividas pelo criador, mesmo que essas experiências também tenham origem da ficção. A influência de uma música, de um filme, de um livro sobre a criação é maior do que podemos auferir. Mas, em regra, uma obra de ficção nasce da reflexão do autor a respeito de algo que vivenciou.

É difícil separar o que é pura criação do que é experiência real. Para tanto, é preciso compreender o sentido da obra.

A forma da sombra, novela de minha autoria que será publicada pela Caligo Editora em 2014, apresenta a princípio uma personagem central amoral, violenta e misantropa. Classificação que parte de uma das possíveis interpretações que podem ser dadas ao livro. 

A violência, a aparente ausência de moral e a aversão à humanidade claramente expostas no livro não são características do autor, mas da personagem. Tampouco as experiências descritas no livro foram vividas por mim.

Quando o receptor consegue compreender a diferença entre autor e personagem, e supondo que ele compreende a informação que o autor desejou passar – o que é elementar, o leitor chega a outro ponto: como ele me apresentou aquilo que queria me mostrar? Nesse momento ele é capaz de compreender todo o conceito estético da obra.

No caso de A forma da sombra, a violência, a amoralidade e a misantropia são características inseridas na obra para ressaltar seu ponto central, que é a sensação de isolamento provocada pela constatação da personagem de que é diferente de tudo que a cerca.

O julgamento moral, no entanto, pode impedir o receptor de chegar a esse ponto, porque ele não aceita que haja diferenças entre personagem e autor. E porque pode impedir que ele enxergue que o comportamento da personagem não representa mais que um meio de o autor informar o que deseja. Por fim, limita – sempre – a capacidade de interpretação.

Não é raro que leitores e espectadores não compreendam a obra ao se depararem com personagens que agem de forma contrária aos seus valores morais, terminando por entender que o autor deseja fazê-los se comportar como a personagem.

Daí vêm comentários como “a Globo ensina as pessoas a roubar, a se prostituir e a matar”, o que leva a absurdos como a acusação de que Natural born killers inspirou um casal de assassinos americanos, ou da música A Tout Le Monde, do Megadeth, motivar o suicídio de um jovem, ambos casos que terminaram em Tribunais.

Muitas vezes o autor realça o comportamento amoral de uma personagem com a intenção de provocar reflexão no receptor. No entanto, as novelas da televisão atingem muitas camadas de espectadores, de diferentes níveis de formação, que sofrem influência social, cultural e religiosa diversas. É natural que parte desses espectadores a vejam como uma influência negativa. Cabe aos criadores, sempre que haja oportunidade, esclarecer o papel da ficção na sociedade.

A literatura e o cinema, por atingirem público restrito acabam sofrendo menos ataques. Quando sofrem, no entanto, costumam ser mais violentos. Nesses casos, resta ao autor sentar na poltrona e se socorrer de Albert Camus, imaginando-se personagem de O Estrangeiro.

Fernando de Abreu Barreto

2 comentários:

  1. Muito bom artigo! Amei e concordo.

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  2. Veja só, Luize, VC fez seu comentário no dia do meu aniversário, mais de um ano atrás. Foi um presente que não sabia que tinha ganhado e só descobri agora, porque queria reler esse artigo. Muito obrigado pelo elogio, apesar do tempo passado.

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