O problema da categorização dos livros

Num dia desses aí estava eu navegando na internet quando surgiu na minha frente um comentário inicialmente inocente da Sarah Dessen, conhecida autora americana, mas que gerou um reboliço deveras interessante...


O comentário em questão pode ser vistos nesses twits aqui aqui, mas podem muito bem ser dispensáveis na leitura desse artigo em questão. Em suma, o que ela expôs foi a listagem duvidosa e seletiva que livrarias (editoras, sites, blogs, pessoas...) fazem de títulos com o (suposto) objetivo de que eles se tornem mais atrativos a certos tipos de público, mesmo que esse público não seja o que inicialmente se quer alcançar.

A discussão que se seguiu representa bem a nossa modernidade. Afinal, a gente se pega ou concordando com ela, ou sugerindo ainda mais "separação" ou ignorando o assunto, o que é infinitamente menos trabalhoso. A pergunta que eu levantei no momento foi justamente essa: afinal, qual o propósito de tanta categorização (e classificação) no mundo da literatura? É um gênero que é subdivido em outro, que tem mais outras sub divisões, que é sub-sub-dividido... e por aí vai até que a gente enrola no labirinto sem saber da saída.

Até que ponto vale diferenciar e dividir sem perder a essência do conteúdo? Se eu classificar alguma coisa na categoria Teen Fiction significa que não posso desenvolver personagens adultos na trama? Significa que eles não são importantes? Significa que esse livro não estará na categoria Young Fiction porque já existe uma subcategoria em que ele se encaixa "melhor"??

Já discuti vários gêneros literários (post sobre coming of ageyoung adultyaoi no meu site pessoal) e a gente sabe que lá fora, por exemplo, a sub-classificação é massiva. Tudo vai se espremendo e se encaixando em padrões tão delimitados que às vezes fica difícil de fugir deles. Por exemplo, se você pegar um livro que já está classificado como thriller psicológico, você sabe o que estará lendo e provavelmente não terá nada "extra". Você foi lá para isso afinal, escolheu essa obra talvez justamente por isso. Mas e quando a classificação não é assim tão óbvia?

Como escritora, concordo plenamente com a Sarah. Isto é, a ideia de ver os livros divididos "em partes" é muito prejudicial ao texto, é muito limitador. Categorizar as coisas pode ser extremamente útil, mas pense no que você está deixando de fora ao dizer que aquele livro é uma literatura para pré-adolescentes. Afinal, categorizar é sim excluir, cortar opções. O tanto de gente que eu já vi (e conheço!) que deixa de ler alguma coisa só porque a categorização não condiz com o que a pessoa pensa! Ou a vergonha de comprar livros ditos "pré-adolescentes", ou mesmo "infantojuvenis"! Quer dizer que eu, com meus 27 anos de idade nas costas, não "deveria" ler nada fora da minha categoria indicada, por assim dizer?

É quase como comparar livros à roupas. Quando a gente vai crescendo, vai deixando de passar naquela seção ali porque já "não serve" mais.

Além disso, o surgimento de dezenas - centenas - de subcategorias é uma afronta ao próprio autor. Do tipo: olha, você tem que se encaixar nisso aqui, tá? Esperamos isso de você e você só vai aparecer nas prateleiras se escrever desse jeito. Vide a explosão dos ditos "romances eróticos", ou "romances para donas de casa" (sim, já ouvi essa) que começou com 50 Tons de Cinza. A moda do sick-lit onde o protagonista da trama está doente (A Culpa é das Estrelas), do new adult onde os personagens já estão descendo a ladeira dos vinte-e-tantos e enfrentam situações mais reais, e tantos outros gêneros que estão ou brotando do nada mesmo, ou estão ganhando novos nomes pra chamar a atenção da mídia (distopias já existiam, viu? Assim como utopias, que ninguém quer enxergar!)

A questão é: na sua opinião, as categorizações ajudam ou atrapalham?

Já falei do lado do autor: pra mim, atrapalham. Parafraseando a Sarah, a gente não pode simplesmente chamar tudo de livro e ir descobrindo aos poucos o que cada um quer transmitir? Ok, coisas básicas como romance, terror, thriller, são super bem-vindas e recomendadas sim. Mas quando a gente começa a esmiuçar demais, perde o foco no ambiente como um todo (há um ditado sobre isso, não vou me lembrar qual é, desculpem).

A literatura hoje em dia é tão diversificada e mistura tanta coisa que eu acho meio presunçoso querer arrumar tudo em estantes separadas. Se alguém surgir com uma ideia que ninguém antes escreveu sobre, vão ter que criar uma categoria só para essa pessoa. Imaginem? Meio surreal e totalmente desnecessário, convenhamos.

Então pensem fora da caixa.

ps.: O texto foi originalmente postado no Marcado com Letras, replicado e adaptação para a Revista Pacheco.

Artigo escrito por

Mineira de 20 e tantos anos, analista internacional por formação, professora por profissão e escritora por paixão. Propagadora de cultura alternativa, queer e fantástica. Trabalha na introdução de literatura colorida na vida das pessoas, é dona do Marcado com Letras e autora dos best-sellers da Amazon "Império Esquecido" e "A Última Festa".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.