Eu, zumbi?

 

Certa vez li uma reportagem em que o autor afirmava que existem apenas duas ou três histórias diferentes e dessa forma, depende unicamente da criatividade do escritor, tornar um texto original. Basicamente, histórias são narrativas de personagens em conflito, há vilões, mocinhas e mocinhos e um imbróglio para resolver. O enredo muda, os personagens mudam de gênero, mas a síntese da história continua a mesma. Por isso quando alguém disser “isso nunca se fez”, é bem possível que já tenham feito, mas de uma forma diferente. Bem diferente, às vezes. 

A cada dia chegam às prateleiras livros, filmes e HQs em que os autores lutam para manter a originalidade de seu trabalho, criando e recriando mitos e heróis. O vampiro, por exemplo, foi criado e recriado diversas vezes. Na literatura clássica, com Bram Stoker, os vampiros têm características bem diferentes do que na literatura contemporânea: podem assumir a forma animal; têm aversão aos símbolos cristãos; não têm reflexo; possuem grandes caninos; dormem em caixões; “morrem” se expostos à luz do sol; e apenas podem ser exterminados se forem decapitados ou se uma estaca de madeira atravessar seu coração. 

Em meio a esse caldeirão de estilos, criatividade e busca por originalidade, surgem ideias espetaculares e outras nem tanto. Os vampiros de Stephenie Meyer, comparados aos de Stoker, não mudam de forma; são indiferentes aos símbolos cristãos; não têm caninos protuberantes; possuem reflexo diante de um espelho; e não dormem em caixões – e como se não bastasse, sua pele brilha se expostos à luz solar. Ou seja, quase não tem relação com o vampiro original.

Já Blade, criado por Marv Wolfman e Gene Colan para a Marvel, é um híbrido de humano com vampiro, por ter sido contaminado ainda no útero de sua mãe, e preservando características humanas e vampíricas e isso, meus amigos, beira a genialidade. Os inimigos a quem Blade combate, mantém as particularidades do vampiro clássico, assim como ele, que luta contra sua sede de sangue. O bonequinho aqui aplaude de pé.

Na linha da adaptação dos quadrinhos, outras versões geniais surgiram nos últimos anos, como os filmes Constantine, Thor e a série televisiva “The Walking Dead”.  Levando isso em conta, quando recebi a notícia sobre outras duas adaptações, fiquei curioso, e resolvi pesquisar, mas descobri que tanta criatividade está assumindo uma proporção nunca antes vista na história da humanidade. O anúncio na rádio falava sobre a série “Eu, zumbi”, baseada nos quadrinhos da DC Comics, que versa sobre uma estudante de medicina que se torna zumbi e trabalha no escritório do legista da cidade, tendo acesso aos cérebros, que ela deve comer para manter sua humanidade. A protagonista ao comer os cérebros, herda as memórias do cadáver e com a ajuda de seu chefe médico legista e um detetive da polícia, resolve casos de homicídio. Ora, vocês hão de convir que um zumbi com consciência, estudante e, ainda por cima, detetive é demais para mim.

Seguindo o mesmo padrão da zumbi detetive, há também o lançamento recente de “Frankenstein - Entre anjos e demônios”, uma recriação do famoso personagem de Mary Shelley, também adaptado de uma HQ. Nessa aventura, a criatura monstruosa se torna um marombado cheio de cicatrizes estilosas e penteado bacana. E uma cientista ainda se apaixona pelo monstrengo Adam, a criação do Dr. Victor!

Aqui, meus amigos, o bonequinho mete o pé.

Personagens e histórias são recriados de tal forma que chegam a se tornar outros completamente diferentes. No caso dos zumbis, especificamente, a criatura cujo estereótipo define-se por um morto reanimado, privado de consciência, irracional e de hábitos noturnos se foi transformada em outra, capaz inclusive de amar, como é o caso do filme “Meu namorado é um zumbi” (adaptação do livro "Warm Bodies"). Contudo, há também os bons e-xemplos das releituras (ou mash ups), como o filme “João e Maria – Caçadores de Bruxas” e os brasileiros “A escrava Isaura e o vampiro”, “Dom Casmurro e o Disco Voador”, e “O Alienista – Caçador de Mutantes”, em que elementos da literatura fantástica foram inseridos nos clássicos nacionais. Há ainda, as produções da Disney, “Frozen – uma aventura congelante”, baseada no conto “A Rainha da Neve”, de Hans Christian Andersen, e “Malévola”, releitura do clássico “A Bela Adormecida”, de Charles Perrault, que tem como mote a origem da rainha má, e são muito bem sucedidos a meu ver, por abordarem elementos desprezados na história original, o que sempre é possível.

Por isso, meu amigo, quando você pensar que não se poderá criar mais nada, que se esgotaram as chances de surgir algo diferente, lembre-se que é possível sim, pois o que não falta é criatividade ao ser humano. E talvez não existam apenas duas ou três histórias, mas um lote delas.  O problema é quando alguém resolve ao invés de recriar, criar novamente, o que é uma coisa bastante distinta. É se julgar tão genial quanto o criador.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

* Publicado na Revista Êxito Rio, em 10/02/2014.  

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