Café Literário: Minha querida mãezinha


Eu sempre achei que ocupava o lugar o errado. 

Eu tinha seis anos quando, um dia minha mãe arrumou um namorado.
- Ele vai ser seu pai agora, filha.

Eu não tinha tido um pai antes, não sabia o que era isso. Mas logo de cara não gostei. Cissa, minha irmã mais velha, também não. E por isso ela passava mais tempo na rua do que em casa. Eu acabava ficando sozinha, mas não me importava. Porque à noite, estava todo mundo em casa, juntos mesmo que separados.  

Quando minha mãe engravidou, achei que as coisas melhorariam para mim. Agora eu ia ter alguém com quem brincar. Minha irmã Cissa tinha 15 anos, ela não gostava de brincar comigo. Agora eu entendo por que.

Quando a neném nasceu, acabei ficando mais sozinha. Meu pai não me deixava brincar com a minha irmãzinha. Ele não gostava de mim, agora que tinha a própria filha. 

Eu passei a dormir na sala e meu quarto passou a ser dela. Tive que abrir mão de outras coisas também, brinquedos e até comida. Tudo para minha irmãzinha.

Meu pai me olhava com indiferença (engraçado, ele olhava assim pra todos nós). Cissa sentia raiva, ela saia e demorava a voltar, às vezes mais de um dia. Os meus dias eram tristes e solitários, demorava a chegar a hora de ir dormir. Tiveram vezes em que eu não comia, eu ficava esperando a mãe chegar do trabalho com alguma coisa, e muitas vezes ela vinha com as mãos vazias.

Um dia mamãe disse que eu ia ter que me mudar. No começo achei que ela fosse junto comigo, mas quando chegou o dia, só eu e Cissa tínhamos mala pronta. Ela disse que eu e minha irmã íamos morar na casa da nossa tia. Ela não era minha tia de verdade, mas minha mãe pediu para chamar assim. 

- Por que mamãe? – Ela não respondeu.

- Eu vou te visitar filha.

- Promete mamãe?

- Claro que sim.

Ela foi me visitar duas vezes e parou. O neném deixava-a muito ocupada. 

Minha tia morava com dois filhos e um marido, o senhor Otavio. Ele era legal comigo, me deixava ajuda-lo a limpar os carros. 

Eu e minha irmã dormíamos nos fundos, no mesmo quarto. Achei legal porque assim a gente ficava mais perto. Mas a Cissa não ficava comigo, ela gostava de sair à noite. 

Um dia minha tia saiu pra trabalhar, a Cissa e o senhor Otavio saíram juntos. Ela me pediu pra ficar quietinha e não contar a ninguém. Eu não entendi porque tinha que guardar segredo. 

A solidão me incomodava. Aquela casa era escura e todos brigavam uns com os outros. Não havia espaço para mim. 

Eu tinha seis anos e um coração dolorido. Com medo, agarrada em minhas pernas. Estou assustada e quero a minha mãe, o que será que ela esta fazendo?

 Passaram-se muitos dias e já estava perto do Natal. Eu sabia pelos anúncios da tevê, todos falavam sobre isso. Será que minha mãe vai me dar um presente?
Ouvi uma discussão na cozinha, minha tia gritando com a Cissa. Minha irmã estava grávida do senhor Otávio. Furiosa, a mulher nos colocou para fora de casa. Eu, Cissa, o bebê que ela carregava e o senhor Otavio.

Ele disse que ia ficar tudo bem, que levaria minha irmã para morar com ele. Na hora, eu achei que fosse junto, mas eu estava enganada.

- Nós não vamos ter dinheiro pra cuidar de duas crianças, querida. 

- Agora a gente tem que pensar no bem do bebê, você não é mais bebê. – Disse o senhor Otavio.

- Mas eu tenho certeza que a mamãe vai te receber.

Eles foram embora. Cissa e o senhor Otavio. Sem olhar para trás em nenhum momento. Eu comecei a achar que meu coração estava pesado demais para o meu peito. E eu estava sozinha. 

Eu caminhei até a casa da mamãe, mas ela não estava lá.

- Mamãe, mamãe! Sou eu mamãe, abra a porta! Você está aí mamãe? Abra a porta, eu voltei!

Gritei até uma senhora que morava ao lado aparecer. Ela disse que mamãe não morava mais ali. Ela se mudou com meu pai e a minha irmãzinha e não disse pra onde. 

Começou a chover.

Eu caminhei um pouco mais, até cansar. Sentei em uma calçada qualquer e abracei minhas pernas. 

Eu to com medo mãe.

Passando pela calçada eu vi o Edu. 

- Ei menina! O que você está fazendo aí?

- Eu não sei. – Respondi. Vi no Edu, um menino tão perdido quanto eu. A gente devia ter mais ou menos a mesma idade.

- Então levanta daí! Sai dessa chuva! – Ele me deu a mão e me ajudou a levantar.

- Onde você mora? – Eu não respondi. 

- O gato comeu sua língua? Responde, onde você mora? – Ele falava como se estivesse preocupado. Era magrelo, menor do que eu. Usava um boné sujo e roupas amarrotadas.

- Já que você não responde, não deve morar em lugar nenhum né?

- Claro que não. – Eu disse tentando parecer confiante. – Eu tenho casa sim! Só que eu tenho que achar minha mãe, primeiro. 

- Bom, eu estou procurando minha mãe também. – Ele disse com tom de voz animado. – Que tal procurarmos juntos? 

- Hm... pode ser. 

- Vem, vamos para minha casa! – Ele me puxou pelos braços e começou a caminhar. 

- Onde você mora? – Perguntei.

Ele parou, pensou um pouco, e depois respondeu:

- Eu moro em qualquer lugar. 

Minha querida mãezinha, já faz tempo. Eu sinto tanto a sua falta. Agora eu tenho um amigo pra brincar. Mas eu ainda tenho medo. À noite, é difícil arrumar um lugar pra dormir. Eles empurram a gente, eu e o Edu, meu amigo. Quando chove é mais difícil ainda, arrumar um lugar para se proteger. Mas eu me viro mãezinha. Cadê você mãezinha.

Tenho seis anos e o mundo é grande demais para mim. 

Lunna Ramos
lunnarsramos@gmail.com

Lunna Martins Ramos. Estudante de Letras, 18 anos, natural do Rio de Janeiro, residente de Niterói. Escreve contos, poesias e o que puder. Vencedora do Prêmio Eunice Cariry de 2012 com a poesia “O Contrário de Mim”. No momento, trabalhando em seu primeiro livro.

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