O retrato do artista quando artista

Gosto quando encontro por aí artistas em começo de carreira. Lembram aqueles cuja arte tem por fim a própria arte.

Não se trata de uma filosofia utópica que pragueje contra artistas que cobram por seu trabalho. Não acharia justo o C. H. Cony deixar de receber pelo que escreve, talvez merecesse ainda mais do que já ganhou.

Eu mesmo, colocando meus pés na literatura, pensei tantas vezes em o quanto ficaria feliz se meus romances ‘venderem bem’, permitindo alcançar o estado glorioso de artista brasileiro que vive do que escreve (mas isso foi em outra época, que merece novo artigo – o que é bom, porque garanto a pauta).

Trata-se, apenas, de gosto.

Lembro que algumas das telas que hoje enchem os bolsos dos leiloeiros da Sotheby’s e da Christie’s valiam miséria no auge das carreiras dos seus autores. Van Gogh, pelo que me consta, conseguiu vender apenas uma de suas telas. Nem por isso abandou a arte.

O que me entristece é ver bons artistas corrompidos, como por exemplo, bandas que compõem um primeiro disco fantástico e se submetem (artisticamente) à ordem do mercado, deixando de produzir ao longo de suas carreiras boas obras. Deve haver um universo paralelo onde vagam natimortas centenas de obras primas que nunca foram, ou serão compostas.

Mas não quero perder tempo com os maus.

Fiquei fascinado quando li pela primeira vez a respeito do trabalho do escritor argentino César Aira (já escrevi sobre isso em meu outro artigo), embora ainda não tivesse lido uma linha do que escreveu. No primeiro momento não foi sua obra o que me encantou, mas o tratamento que o artista dá a ela.

Sua preferência pela prosa curta, sua preferência por pequenas editoras, sua preferência pelo trabalho quase artesanal é incrível. A partir daí, o autor trata como arte todo o livro, desde a capa até as palavras.

Não pense você que não há por trás disso até mesmo uma estratégia de negócio (o autor nega veementemente). Pode haver, não sei afirmar. Mas ela não está exposta, não vem à frente como um letreiro que tapa a vidraça da loja. E não é nem um pouco importante.

Importante para Aira é o conjunto, que é arte. Ele vive dela, mas também para ela.

Minha opção por uma editora pequena (nova) tem muitas explicações. Desde uma rejeição inicial de editoras comerciais grandes à opção por fazer um trabalho pessoal, artesanal. Será meu primeiro livro publicado e poder participar verdadeiramente de todo o processo, desde a escolha da capa até a gramatura das folhas, seduz e interessa.

Não que eu seja um exemplo, ao contrário. Exemplo é Aira.

Para mim, funciona mais ou menos como para uns (outros) argentinos músicos que se instalaram no Largo da Carioca (Rio de Janeiro) e adjacências fazendo um som original, cheio de energia e que tem juntado grande quantidade de gente no meio do expediente: se, ou quando a coisa crescer, que mantenha a mesma aura, o mesmo objetivo. Que continue arte pela arte.

Link da reportagem no Prosa e Verso:
Reportagem César Aira

Fernando de Abreu Barreto

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