Desafio Literário: Verhaltensbeobachtung

Não percebemos, mas, vivemos num mundo igual ao dos contos de fadas da era medieval. Um pouco mais evoluídos é claro, mas todos podemos ser  personagens das mais diversas narrações. Nossas histórias pessoais continuam cercadas de magia, de mistérios, de surpresas, alegrias e decepções, para felicidade daqueles que gostam de contar.

Talvez algumas das primeiras pessoas que tenham percebido a ligação entre o mágico e o real foram dois sujeitos comuns, como eu e você. Viveram na Alemanha do início do século XIX.

O primeiro morava em algum lugar no caminho entre Hanau e Bremem. Era Karl Rudolf Alexander Bauer, mais conhecido por Krabbe. O pobre camponês, que um dia sonhara ser médico e comer bem.

Ele tornou-se um médico diferente, capaz de desvendar mistérios, dizem, apenas observando o comportamento humano. Tudo começou quando solucionou o roubo do dinheiro de um nobre. A sorte o ajudou e além de uma bela refeição ganhou dinheiro e fama. Deu a si mesmo o título de Doutor Sabe-Tudo.

O segundo vivia não muito longe dali, num vilarejo próximo de Zurique, na Suíça. Era um jovem não muito inteligente, mas, tinha um dom especial: falava a língua dos animais. Expulso de casa, ameaçado de morte pelo próprio pai pela sua incapacidade em aprender, com a ajuda dos bichos chegou a ser nomeado Papa. Porém, ele sabia que não era merecedor e abriu mão da sua consagração. Dedicou-se a adestrar animais. Na verdade trocava experiências com eles. 

Como precisava de dinheiro para sobreviver trabalhou como cocheiro. Seus cavalos eram muito obedientes, comportados. Formavam belos conjuntos. Alguns o chamavam de Der Kutscher – O Cocheiro, outros de Der Trainer – O Treinador. Numa de suas viagens até a Inglaterra participou de um torneio de adestramento. Um jornal local o intitulou The Coach. Assim, para não usar mais o sobrenome de seu pai adotou o nome Rolf Kutscher.

Em suas viagens conduzindo a carruagem de seu patrão ou participando de torneios, Kutscher ouviu falar do Doutor Sabe-Tudo e acreditou que eles tinham algo em comum. Resolveu procura-lo.

Chegando a pequena cidade onde Krabbe morava, não foi difícil encontra-lo. Em cima da porta de entrada de uma casa construída em estilo enxaimel, numa rua estreita e calçada com pedras, estava uma placa com as inscrições “Doktor Allwissend“ – Doutor Sabe-Tudo.

Depois de deixar seu cavalo na cocheira, Kutscher bateu à porta e foi atendido por uma senhora de meia idade, de rosto corado e sorriso simpático.

-    Boa tarde! Em que posso ajudá-lo?

-    Boa tarde! Procuro o Doutor Sabe-Tudo.

-    À quem devo anunciá-lo?

-    Sou Rolf Kutcher, da Suíça.

-    Por favor, aguarde um minuto. Vou servir-lhe um café enquanto espera que ele termine a consulta em andamento.

Na sala de espera havia várias molduras expondo diversas cartas de agradecimento pelas consultas do Doutor Sabe-Tudo, muitas delas com a aposição de selos de nobreza e até de realeza. A mobília era muito bem cuidada, como era todo o edifício.

Uma das janelas, que estava aberta, dava para um belo jardim, com rosas das mais diversas cores e espécies. Um pássaro aproximou-se e começou um diálogo com Kutscher. Pareciam velhos amigos colocando a conversa em dia. A cena era observada à distância.

Passados alguns minutos, uma das portas se abriu e de dentro de uma sala saiu um senhor sorridente e de andar firme. Cumprimentou-o com atenção. Pelas roupas que vestia parecia um rico comerciante. Pouco depois que o sujeito saiu, a senhora convidou-o a entrar no consultório.

Atrás de uma escrivaninha feita em madeira esculpida e sentado numa cadeira forrada de um veludo vermelho estava um senhor também de meia idade. Ele o esperava com um sorriso surpreendente. O homem estendeu-lhe a mão.

-    Olá Senhor Kutscher! Como foi a viagem? Deve ter sido um pouco cansativa, o senhor quase não parou no caminho nos dois últimos dias.

-    Isso mesmo, quando comecei a me aproximar daqui a ansiedade aumentou e não parei em nenhum vilarejo, pelo menos nos últimos 60 quilômetros.

-    O senhor deve possuir um cavalo resistente. Zurich não é tão perto daqui.

-    Sim, Donner é um bom companheiro.

-    O Senhor é uma pessoa muito interessante Senhor Kutscher. Não é todo dia que encontramos uma pessoa que fala com os animais!

-    Pode me chamar apenas de Kutscher, Doutor.

Kutscher estava surpreso com as observações de Krabbe. Começava a acreditar que teria valido a pena procurá-lo. Será que o Sabe-Tudo havia descoberto sua identidadade. Quando decidiu abandonar o pontificado deixou a barba crescer, mal tirava o chapéu da cabeça e mantinha os olhos baixos. Quando Krabbe citou a conversa com animais, Rolf Kutscher baixou ainda mais os olhos e encolheu-se.

-    Pois bem, Kutscher. Me chame de Krabbe. Veio até aqui por precisar da minha ajuda. Assim,  preciso saber o que procura. Me desculpe pela sinceridade, mas, parece esconder algo.

-    Peço reserva sobre a nossa conversa. Tenho tentado levar uma vida normal. Não tem sido fácil.

-    Este é um dos segredos do meu sucesso meu caro: ética profissional. O que se fala nesta sala, aqui fica.

Então Kutscher contou a história de sua vida desde as primeiras lembranças até o momento quando bateu à porta de Krabbe.

-    Muito interessante Rolf! E como acredita que eu possa ajuda-lo?

-    Me ajudando a ajudar outras pessoas. Observando e conversando com os animais aprendi muito sobe os homens. Com alguns conselhos básicos é possível corrigir rumos e tornar a vida mais fácil. Acredito que duas cabeças pensem melhor que uma e como soube que o senhor sabe de tudo, resolvi procura-lo.

A conversa foi interrompida por batidas na porta.

-    Esta é minha esposa Gretel. Ela é uma grande observadora, a pessoa com quem divido o meu sucesso.

-    Karl, o próximo cliente já está aguardando há algum tempo. O que devo fazer?

-    Pedirei licença ao Senhor Kutscher. Poderia voltar amanhã de manhã meu amigo?

-    Sim, posso, aproveitarei para descansar um pouco!

-    Que tal uma cavalgada? Venha tomar um café comigo e depois conheceremos um pouco da região!

-    De acordo, volto amanhã!

Os dois recém-conhecidos passaram a noite pensando um na história do outro. Talvez pudessem ser bons amigos.

Começado o novo dia, tomaram um bom café da manhã e saíram para cavalgar. Kutscher sobre Donner e Krabbe sobre uma bela égua.

-    Gosta de cavalos não é Kutscher? São os seus animais preferidos?

-    Gosto de todos os animais. Ultimamente os cavalos têm sido meus melhores companheiros de aventuras.

-    O nome Donner - Trovão, deve ter sido escolhido pela força de seu animal, não é?

-    Na realidade ele é chamado pelos da sua espécie de Sturm – Ventania, Donner foi um apelido que lhe dei por conta de sua flatulência: poderosa e barulhenta.

Donner agitou-se, não gostou que Kutscher tivesse compartilhado aquilo com estranhos, ainda mais na frente daquela bela eguinha. Ela não conseguiu disfarçar um sorriso irônico e animal.

-    Me desculpe Donner, não queria deixa-lo sem jeito. – disse Kutscher.

-    Então me parece que o Doutor Sabe-Tudo finalmente errou em suas observações! – emendou Kutscher.

-    Meu caro, ontem você me contou o seu segredo, hoje lhe contarei o meu.
-    Então você tem um segredo?

-    Todos nós temos. É com isto que eu trabalho. E não sei de tudo, ninguém sabe!

Krabbe contou que no começo contou com a sorte, depois percebeu que observando o comportamento das pessoas com atenção, as ouvindo, era possível descobrir o que pensavam, sentiam. Então ele dizia a elas o que queriam ouvir. Melhor ainda: elas pagavam por isso.

Disse que Gretel, como quase todas as mulheres, é uma grande observadora. Era a sua assistente. Ontem, quando Kutscher chegara foi ela quem fez as primeiras observações. Percebeu pela sujeira nas roupas e no cabelo de Rolf o tempo decorrido desde a última vez que ele teria feito sua higiene pessoal. Reconheceu o seu sotaque e soube de que região viera. Também o viu quando passou pela primeira vez em frente à casa e falava com o seu cavalo. Quando ele chegou ao consultório, continuou observando o seu comportamento pela janela instalada do outro lado do jardim. Surpreendeu-se em ver como o pássaro parecia realmente responder às palavras de Kutscher.

-    E eu pensando que você havia desconfiado da minha identidade. Fui logo entregando tudo!

-    Me falou porque que tinha vontade de falar, não o forcei a nada. – argumentou Krabbe.

-    Claro! Tem razão.

-    Pois é assim que faço o meu trabalho, que ganho o meu dinheiro. Posso dizer que já tenho uma pequena fortuna. Nada mal para um agricultor que nem tinha o que comer! 

-    Me de alguns exemplos das suas observações. – pediu Kutscher.

-    Num primeiro momento me dediquei mais a avaliar casos, histórias. Não pessoas.

-    Como assim?

-    Aqui nessa região da Alemanha há muitos contadores de histórias. Já ouviu falar dos Irmãos Grimm?

-    Sim, também conheço algumas de suas histórias.

-    Pois bem, eles apenas publicam e contam histórias contadas pelo povo. As melhoram, porém, não as inventam. Elas retratam o comportamento humano.

-    Pode exemplificar?

-    Primeiro vou contar outro segredo meu. Eu tenho uma fábrica de espelhos mágicos.

-    Espelhos mágicos! Isto é lenda!

-    Acredite, eles existem. Os espelhos só nos mostram aquilo que queremos ver. Por exemplo, a madrasta da Branca de Neve: ela tinha a certeza de que era a mulher mais bela em seu reino e todo dia buscava essa afirmação no espelho. Quando o tempo passou e ficou mais velha, sua beleza se modificou e ela enxergava a sua antiga beleza na jovem Branca de Neve. 

-    Ah! Assim, a inveja se transformou em ódio e ela tentou matar a garota. – concluiu Kutscher.

-    Bela conclusão, meu amigo. Para os meus clientes, aqueles que procuram autoafirmação eu vendo espelhos mágicos.

-    Vamos analisar mais um caso: A Bela Adormecida. O que mais lhe chamou a atenção no caso dessa princesa?

-    A intolerância da fada ao lhe rogar a maldição. Creio eu.

-    Pois o que me chama mais a atenção – disse Krabbe – foi o fato do rei não falar sobre o perigo existente para a sua filha. Se ela soubesse da maldição, ela mesmo se preveniria e não feriria seu dedo na roca. 

-    Não havia pensado nisso. Estou achando tudo muito interessante. 

-    Donner tem uma pergunta. – continuou Kutscher. 

-    Agora sou eu quem está surpreso. Já ouviu o ditado que diz: quem fala demais acaba dando bom dia a cavalos? Cá estou, disposto a responder a pergunta do equino!

-    Ele quer saber a sua opinião sobre a história do Rei Sapo. Se você acredita na possibilidade de um animal se transformar em humano.

-    Pois bem, meu sempre disposto Donner, comparar o homem a um sapo na história é apenas uma forma de descrever a falta de beleza de um sujeito, sem querer ofender aos sapos. No caso em tela, um príncipe. Acredito que a princesa só enxergou nele um príncipe e não um sapo quando o conheceu melhor. A beleza também está no interior das pessoas e nas suas qualidades, não só nos aspectos físicos.

-    Sua égua, Encantada, acha que a princesa era apenas interesseira.

-    Como sabe o nome dela? Ah, acabei esquecendo. Você fala a língua dela! É verdade, a princesa usava a sua beleza para tirar proveito daqueles apaixonados por ela.

-    Meu caro Krabbe, o que pensa sobre as madrastas. Porque são sempre descritas como más?

-    Na maioria dos casos não são. Mesmo nos contos, disfarça-se a maldade de algumas mães na figura das madrastas, porém, são as próprias malvadas que transferem para suas filhas os maus cuidados recebidos de suas mães ou dos pais.

-    E eu que pensava só aprender com os animais. Esta manhã está sendo de grande valia. – expressou Kutscher.

-    Poderíamos falar durante vários dias sobre casos como esses. Agora tenho uma proposta a lhe fazer. Me ocorreu que poderíamos nos tornar sócios. – propôs Krabbe.

-    Sócios, como assim?

-    Eu poderia continuar com as minhas consultas, fazendo os meus diagnósticos, as minhas previsões.

-    Certo. É o que você vem fazendo até hoje! Mas onde eu me encaixo nisso?

-    Com o adestramento de humanos, baseado nos conselhos dos animais.

-    Então acredita na minha visão?

-    Com certeza! Pense que os problemas do homem surgem quando ele usa o seu lado animal, o irracional, quando age por instinto. Assim, quando a nossa natureza é quem fala, não somos muito diferentes: homens, cavalos, cães ou mesmo sapos.

-    Donner também concorda. – traduziu Rolf Kutscher.

-    Sabe, meu amigo, já tenho nomes para as nossas profissões.

-    Profissões? Você acha mesmo que vamos ganhar dinheiro com isso?

-    Claro. Chamaremos os seus treinamentos de coaching, um termo inglês. Parece de mais estilo. Como prefiro o alemão minha atividade será a Verhaltensbeobachtung – Observação Comportamental.

-    Ainda não acredito que poderemos ganhar dinheiro com isso.

-    Nós ganharemos um pouco de dinheiro meu caro, o suficiente. Aqueles que vierem depois de nós ganharão muito mais. A doença do homem moderno estará muito mais ligada a saúde mental do que a física. Palavra do Doutor Sabe-Tudo.

Assim o fizeram. Formaram a primeira organização a prestar serviços de consultoria onde o cliente paga bem para ouvir o que já sabe e agir como sabia tinha que agir. 

K & K – Krabbe & Kutscher Consultores Associados registraram em seus livros toda a experiência adquirida. Mais tarde as anotações foram encontradas por um jovem cientista de  nome Wilhelm. Ele chamou esta ciência de Psicologia.


Adnelson Borges de Campos
adnelsoncampos@ibest.com.br                  

Adnelson, 50 anos, Administrador, atuando na Petrobras desde 1986, é Gerente de Mineração da Unidade de Industrialização do Xisto em São Mateus do Sul – PR. Começou a escrever e participar de concursos mais recentemente e teve alguns de seus títulos selecionados e publicados em antologias de contos.

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