Desafio Literário: O íncrivel João Coração de Leão

Há muito tempo atrás em um reino muito distante, havia uma fazenda onde vivia a família Coração de Carvalho. O pai e a mãe se chamavam Carlos e Sandra e eram pessoas honestas, trabalhadoras e de bom coração. Eles tentaram ensinar esses valores aos filhos, mas a verdade é que os três juntos valiam muito pouco: Gustavo, o mais velho, era orgulhoso e vaidoso; Pedro, o do meio, era teimoso e esquentado; e João, o mais novo, era um tremendo preguiçoso! Ele passava o dia inteiro olhando para o teto e sonhando acordado, o único serviço de casa para o qual prestava era cuidar para que a lareira não se apagasse, o que o deixava todo coberto de cinzas – por isso que, quando ainda era um menino, foi apelidado pelas outras crianças de “Gato Borralheiro”.

Próximo a essa fazenda, havia um bosque belíssimo. O bosque era muito importante para os moradores da região: era lá que eles buscavam lenha, levavam os porcos para pastar, pescavam e caçavam. Sem esse bosque, a vida de todos ficaria muito mais difícil.

Não era de se estranhar, portanto, que agora estivessem tão preocupados: já fazia alguns meses que um troll malévolo havia tomado posse do bosque e não deixava mais ninguém entrar nele, usando sua força prodigiosa para matar e devorar todos os que tentaram desobedecê-lo!

Trolls não são mais encontrados hoje em dia, então a maioria das pessoas se esqueceu de como eles eram. Eles se pareciam um pouco com seres humanos, no sentido de que também tinham braços, pernas e uma cabeça; fora isso, na verdade eram bem diferentes. Eram muito maiores, para começo de conversa – um troll normalmente tinha a altura de quase dois homens, e a largura de três! Além disso, a pele deles era da cor de terra e musgo e quase tão dura quanto pedra. Eram peludos e tinham narizes longos, orelhas grandes, garras e dentes afiados. Eram fortes, muito fortes, e também violentos, cruéis e egoístas, só se preocupavam em satisfazer às próprias vontades. Felizmente, a maioria também não era muito esperta!

Pois um troll tomara posse do bosque, e todas as famílias da região corriam perigo – o inverno estava chegando, eles precisavam de lenha para se aquecer, senão iam acabar morrendo de frio! Se Carlos fosse mais jovem, ele teria tentado expulsar o troll à força, ou pelo menos se arriscado a correr mais rápido que o monstro; mas já estava muito velho para fazer essas coisas. Ele e Sandra conversaram muito sobre o assunto, até que por fim chegaram a uma decisão.

No dia seguinte, eles foram ter com Gustavo:

- Filho, precisamos que vá ao bosque trazer lenha para a família.

- Mas mãe, pai, e o troll que agora está morando lá?

- Você é jovem, forte e esperto, pode pensar em alguma coisa. Gustavo, precisamos muito dessa madeira! Como o filho mais velho, cabe a você essa responsabilidade.

E assim, Gustavo pegou o machado do pai e partiu. Mal ele havia dado a terceira machadada, no entanto, começou a ouvir o som de passos muito pesados se aproximando a uma grande velocidade. Logo ouviu também o som de alguém fungando, como um cachorro farejando o chão, então ouviu um rosnado baixo e terrível, e junto desse rosnado vieram as seguintes palavras:

- Sinto cheiro de gente e isso me deixa cabreiro! Se encontrar alguém no meu bosque, vou assar e devorar por inteiro!

E Gustavo saiu correndo dali na mesma hora! Os pais ficaram muito desapontados, e isso o deixou envergonhado, mas não o bastante para se arriscar de novo.

Carlos e Sandra conversaram de novo a noite toda, e no dia seguinte chamaram Pedro:

 - Filho, já que seu irmão não conseguiu trazer lenha para a família, precisamos que você vá ao bosque buscá-la.

- Não conseguiu porque é um covarde! Ora, vou mostrar a ele como um homem de verdade se comporta.

E Pedro pegou o machado do pai e foi buscar lenha, reclamando do irmão e resmungando sobre o troll durante todo o caminho.

Pedro também parou para cortar a lenha na entrada do bosque; e assim como acontecera com Gustavo, ele logo ouviu os passos pesados do troll que se aproximava, fungando e rosnando como um cão de caça enquanto dizia:

- Alguém invadiu o meu bosque, isso eu não aceito! Quando encontrar esse invasor, vou assar e devorar por inteiro!

Pedro fugiu de medo na mesma hora! Ainda não foi desta vez que a família conseguiu a lenha da qual precisava.

De novo, Carlos e Sandra passaram a noite toda conversando, mais preocupados que nunca. A família não tinha dinheiro para comprar a lenha, e nenhum dos dois tinha esperança de que o terceiro filho, João, fosse ter sucesso quando seus irmãos mais velhos fracassaram. O que não sabiam é que o João ainda estava acordado e que ouviu toda a conversa deles. De início, ele ficou olhando para o teto do mesmo jeito de sempre, parecendo distraído; mas então suspirou, resmungou alguma coisa e depois foi dormir.

No dia seguinte, Carlos estava se preparando para ir ele mesmo ao bosque, apesar da idade, quando todos na família se surpreenderam ao ouvirem João dizendo que ele ia buscar a lenha! A reação deles foi imediata:

- Mas filho, isso é perigoso demais para você, que não é alto nem forte! - exclamou Sandra.

- Você, que nunca fez nada de útil na vida? Essa é boa! Você vai é ser devorado pelo troll, isso sim – zombaram Gustavo e Pedro.

Mas João não se incomodou com a zombaria dos irmãos, ou com a preocupação de sua mãe. Apenas repetiu que desta vez ele é quem iria ao bosque, e acrescentou:

- Precisarei de uma faca bem amolada e dois sacos: em um deles, levarei aquele pedaço de queijo bem fresco que ainda temos na despensa, no outro, levarei mingau de aveia. Mãe, cozinhe o mingau para mim, por favor.

Sandra ainda quis argumentar mais uma vez, tentar convencer o filho a desistir, mas antes que abrisse a boca, Carlos simplesmente entregou o machado nas mãos de João, sem falar nada. Ele não sabia bem o porquê, mas alguma coisa no jeito como o filho estava se comportando fez com que ele tivesse fé em que o rapaz conseguiria ajudar a família.

E assim, com as bênçãos de seus pais (a contragosto, no caso da mãe) e as zombarias de seus irmãos, lá foi João, levando consigo o machado, uma faca, um saquinho com um pedaço de queijo (que ele cobriu de terra e lama) e um saco cheio até a boca de mingau de aveia (que ele botou debaixo da camisa, o que fez parecer que tinha um barrigão). Enquanto andava, antes mesmo de sequer levantar o machado para golpear uma árvore, também ele começou a ouvir passos pesados, fungadas e rosnados:

- Invadiram meu bosque de novo, vieram mexer no vespeiro! Assim que agarrar esse atrevido, vou assar e devorar por inteiro!

E então o troll apareceu.

Foi preciso muita coragem da parte de João para não só não fugir do troll como ainda fingir que não estava nem um pouco assustado, porque o monstro era ainda mais horrendo do que ele esperava! O troll tinha uma corcunda enorme nas costas, seus braços eram tão compridos quanto as pernas, e enquanto o olho direito era todo miudinho, como se esse lado da cabeça fosse todo achatado, o olho esquerdo era tão grande e esbugalhado que ocupava quase todo o rosto. A criatura começou a rosnar:

- Mais um lenhador vindo aqui roubar minha madeira, não é? Pois venha cá, seu pedaço de carne fresca! Vou cortar você em pedaços e fazer um cozido!

Na mesma hora, João tirou o queijo todo coberto de terra e lama de dentro do saco e esmagou-o com apenas uma mão até que todo o soro vazou por entre seus dedos.

- Fique calado! – ele gritou para o troll, fingindo estar muito zangado. - Se me fizer perder a paciência, vou espremê-lo assim como faço com esta pedra!

O troll ficou chocado com aquilo! Trolls, como já dito, normalmente não eram muito inteligentes, e aquele era ainda mais burro que muitos. Ora, quando ele viu que João não apenas não ficou nem um pouco assustado com ele, mas também era forte o bastante para espremer água de uma pedra, foi a primeira vez em sua vida que sentiu medo da força bruta de outro.

- Não, pequeno amigo, não me machuque! Poupe-me e farei o que me pedir!

- Está bem – concordou João, limpando os restos de queijo da mão na casca de uma árvore –, mas quero que corte bastante lenha para mim, como um pedido de desculpas.

- Farei isso – respondeu o troll, aliviado. Ele então se apresentou como Egil ao rapaz, que o fez prometer não quebrar o machado (que ficava tão pequeno nas mãos enormes do troll!) e depois deitou encostado em uma árvore para vê-lo trabalhar.

Egil trabalhou tão bem que, em apenas um dia, juntou lenha o bastante para os Coração de Carvalho passarem bem todo o inverno. Ele estava prestes a se despedir, contente de não precisar mais ficar na companhia de alguém tão perigoso, quando João falou:

- Amigo, acho que devemos celebrar nossa nova amizade! Sua casa fica aqui por perto, não é verdade? Vamos lá festejar. Ajude-me a carregar a lenha, seus braços são mais compridos que os meus.

Egil gemeu baixinho, não querendo receber João em casa, mas então seu olho esquerdo se arregalou ainda mais, com um brilho maligno, e logo ele se transformou todo em sorrisos enquanto levava o garoto até sua casa. Não era de se estranhar essa mudança na atitude do troll: ele simplesmente planejava matar seu novo “amigo” quando este fosse dormir. Quanto a João, ele assobiava despreocupado, parecendo não imaginar o que se passava na cabeça de Egil.

Quando chegaram à casa do troll, este pediu que João fosse buscar água no poço enquanto ele ia acendendo o fogo. Mas o rapaz viu que o balde era enorme e feito todo de bronze, tão pesado que ele não conseguiria levantá-lo nem em mil anos! Pensando rápido, o jovem tentou parecer o mais desdenhoso que conseguiu:

- O quê, perder meu tempo com um baldezinho desses? Ora, não preciso disso, meu amigo, vou lá fora arrancar o poço do chão e trazê-lo aqui pra dentro.

- Não, não, amigo! – exclamou o troll, preocupado. – Isso vai destruir meu poço. Espere aqui então, por favor, enquanto vou lá trazer água.

Egil precisou ir ao poço e voltar mais algumas vezes, mas encheu de água um enorme caldeirão de bronze. Ele então jogou vários pedaços de carne salgada (de animais, não de gente, pois não queria ofender seu “amigo”) e algumas ervas ali dentro, acendeu o fogo e esperou a comida ficar pronta.

O cozido logo ficou pronto. Quando os dois se sentaram à mesa, João falou, fingindo desinteresse:

- Estava pensando... Que tal fazermos uma competição amigável? Podemos disputar para ver quem consegue comer mais que o outro. O que acha?

O troll soltou uma gargalhada cheia de mesquinharia e patifaria.

- Mas claro, meu pequeno amigo! Aceito a disputa com o maior prazer – respondeu, contente. Ele tinha certeza que pelo menos nisso conseguiria ser melhor que João. Além disso, quando o outro estivesse pesado de tanto comer e fosse dormir, ele aproveitaria para sentar em cima dele e esmagá-lo.

Então eles começaram a comer. Egil engolia a comida o mais rápido que conseguia, quase sem mastigar, mas João comia com calma e mastigando bem. Quando sentiu que estava começando a ficar satisfeito, ele simplesmente pegou sua faca, furou a própria barriga e então abriu-a toda – e o mingau de aveia se derramou quase todo para fora do saco. Egil arregalou o olho direito (porque o olho esquerdo já era arregalado naturalmente), mas não comentou nada. Os dois continuaram a comer.

Quando João já não aguentava botar mais nem um pedaço de carne na boca, o troll finalmente parou de se empanturrar e se jogou na cadeira, resmungando:

- Chega! Não aguento mais. Não conseguiria comer nem um coelhinho bem macio, agora.

- Não, mas você tem que continuar a comer! – disse João, fingindo que não estava prestes a ter a pior indigestão de sua vida. – Ainda consigo comer muito mais do que isso.

- Como consegue comer tanto? – perguntou o troll, admirado. Pois ele estava tão preocupado em simplesmente enfiar comida goela abaixo que nem percebeu que, na verdade, já havia comido bem mais que João.

- Ora, é fácil. Bastou eu cortar minha barriga, isso abriu bastante espaço para eu comer mais. Não percebeu quando fiz isso?

- E isso não dói?

- Bom, talvez doa em pessoas fraquinhas, mas em mim não doeu nada! Vamos, tente você.

Egil seguiu o exemplo de João: pegou o facão que usava para cortar carne e atravessou a própria barriga com a lâmina. Desnecessário dizer que doeu muito! Não querendo parecer fraco, Egil fingiu que não sentia nada e continuou a se cortar, mas quando já tinha aberto a barriga até a metade, ele não aguentou mais e começou a urrar e se debater. Mais do que tudo, o monstro queria parar com a dor: agarrou o cabo do facão com as duas mãos e puxou-o de dentro de si, mas puxou com muita força e sem qualquer cuidado, então só o que fez foi abrir ainda mais o ferimento. E foi assim, com um último berro de dor, que o troll Egil acabou por se matar.
 
João voltou para casa levando o maior feixe de lenha que conseguiu carregar, depois seu pai mandou que Gustavo e Pedro voltassem à casa do troll para trazer o resto. Quando os outros habitantes souberam que ele havia se livrado do monstro, todos ficaram muito gratos e disseram que João, até então chamado de Gato Borralheiro, merecia um novo nome; e foi assim que João Coração de Leão livrou a região do malvado troll e levou lenha o bastante para salvar sua família do inverno!

Tiago Quintana

Tradutor profissional e mestrando de Linguística Aplicada pela UFRJ na área de Discurso e Transculturalidade. Estudioso de narrativas clássicas e medievais, especialmente as tragédias gregas e as sagas e poemas nórdicos. Leitor assíduo de fantasia em suas muitas formas: espada e magia, fantasia épica, contos de fada, e afins.

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