Desafio Literário: Kuchisake Onna


Local: Uma comunidade nipo-brasileira na cidade de Ogaki, na Província de Gifu, no Japão.
Data: 13 de agosto de 1982. Sexta-feira. Fim de tarde.


― Não, Marcos, por esse caminho, não.
 
― E por que não?
 
― Você não sabe que é esse o caminho onde aparece Kuchisake Onna, a mulher da boca rasgada?
 
― Pare de bobagens. Somos grandes o suficiente para não acreditarmos mais nessas histórias.
 
Porém, Shintaro, em seus dez anos de idade, acreditava. Mais que isso: afirmava que um primo havia se encontrado com a assustadora mulher e que ele somente se salvara de ser devorado, após ter dito àquela, em voz alta, que, sim, era bela. E tão impressionado ficara com a história que não se cansava de repeti-la ao amigo:
 
― Dizem que tem cento e trinta dentes. E que aparece no final da tarde, na saída da escola. Dizem que está sempre de quimono e que tem os cabelos longos. Dizem que usa uma máscara e que, quando encontra uma criança pelo caminho, faz a pergunta: Você me acha bonita? – Então, ela…
 
― Tira a máscara – Marcos interrompe. – E, mostrando a cara assustadora, com a boca rasgada de orelha a orelha, faz a pergunta mortal: Então, que tal um beijo?
 
E Marcos, fazendo caretas, começava a zombar do amigo, até que este, chateado, ameaçava:
 
― Pode rir, Marcos. Mas, no dia em que você se defrontar com a Kuchisake Onna, vai lembrar das minhas palavras. Aí, será tarde!

Marcos não mais se importava com os ataques de mau humor de Shintaro, quando este era alvo de piadas por falar sobre a mulher da boca rasgada. Sabia que a birra duraria pouco e que, no próximo encontro, lá estaria Shintaro repetindo a mesma ladainha. Para Marcos, parecia que o amigo estava lendo histórias de terror além da conta. Com o tempo, acreditava, essa obsessão acabaria.
 
Portanto, não deu muita atenção quando, naquela tardezinha – ao saírem da escola além do horário habitual –, Shintaro avisou-lhe sobre o perigo de tomarem aquele atalho, onde podiam encontrar-se com Kuchisake Onna. Assim, decidido, começou a caminhar à frente do amigo.
 
― E então, Shintaro? – voltou-se Marcos para o outro, após alguns passos. – Você vai ficar aí parado? Quero ir para casa!
 
Shintaro, trêmulo, olhou para os lados. Tudo deserto. Não, pior seria ficar ali, parado. Escurecia e a mulher da boca rasgada poderia aparecer a qualquer momento. Assim, apressou-se para alcançar o amigo.
 
No trajeto, Shintaro não parava de assustar-se pelo mais ínfimo barulho. Era o canto de um grilo, o piar de uma coruja: tudo era motivo para que Shintaro alertasse a Marcos:
 
― Não te disse? Esse caminho leva ao inferno. Você é teimoso, Marcos! Agora, podemos ser apanhados a qualquer momento pela mulher da…
 
― Basta, Shintaro, dessa história de mulher da boca rasgada. Acaso você está vendo alguma… Shintaro! Ô Shintaro, estou falando com você!

O amigo não respondeu. Pálido, as mãos trêmulas, Shintaro somente conseguia murmurar: – É… a mu… a mmu…
 
Foi quando Marcos, olhando na direção para qual Shintaro apontava, viu, ao longe, uma mulher, de quimono, vindo ao encontro deles. Se tinha os cabelos longos, ou se usava máscara, não descobriu; pois, nesse exato momento, perdeu os sentidos.
*

Despertou na manhã seguinte, com o pai à beira da cama. E, ao lado deste último, uma bela senhora, de quimono, sorria. Marcos, pensando que ainda tinha a sua frente a assustadora figura de Kuchisake Onna, deu um salto da cama:
 
― Essa senhora, foi e-e… ela quem…
 
O pai tentou acalmá-lo:
 
― Esta senhora chama-se Otsuya, filho. Foi ela quem te encontrou ontem à noite, trazendo-te salvo.

E a senhora:
 
― Eu vinha da lavoura quando avistei você e seu amigo. Pareciam perdidos na trilha e eu quis ajudá-los. Mas, ao aproximar-me, você simplesmente desmaiou. Mais tarde, trouxe-o até aqui, com o auxílio de seu colega.
Marcos, porém, continuava desconfiado:
 
― Colega?
 
E a mulher, com um sorriso:
 
― Sim, Shintaro. No início, ele parecia realmente amedrontado ao ver-me. Mas não fugiu. Apenas fechou os olhos e ficou repetindo: – Você é bonita, você é bonita… – Foi então que comecei a rir, dizendo: – Muito obrigada, mas acho que agora o mais importante é ajudarmos o seu amigo que acabou de desmaiar. Ele, ao abrir os olhos, ainda tinha dúvidas se eu era ou não uma assombração, mas depois se acalmou. E, por fim, foi em busca de socorro; enquanto eu fiquei lá, cuidando de você.
 
Marcos, no entanto, parecia ainda não acreditar. E perguntou a Otsuya:
 
― Então, a senhora não é…?
 
― Kuchisake Onna? – riu-se: – Ai, pequeno, não acredite em tudo o que o povo diz. – E, em seguida, levantando-se: – Bom, vejo que você está bem melhor. Agora, preciso voltar. Tenho muito trabalho a fazer.
 
E, despedindo-se de Marcos e da família, Otsuya, a bela camponesa, partiu.
 
*

Outra característica de Otsuya, além de beleza, era o ceticismo; pois se recusava a acreditar em lendas. E isso desde pequena. Por exemplo, durante o O-bon¹, as crianças de sua idade costumavam reunir-se nas férias de agosto para contar histórias de fantasmas. Otsuya, porém, parecia ser imune às histórias mais horripilantes. Certa vez, sua frieza fez até mesmo com que a melhor amiga perdesse a paciência:
 
― Você é uma “estraga prazeres”, Otsuya! Parece que faz de propósito só para prejudicar nossa diversão. Quer saber de uma coisa: não vamos mais convidá-la para nada a partir de hoje.
 
E foi o que realmente aconteceu. O grupo de amigas começou a evitar a presença de Otsuya. Mas, ao contrário do que poderiam pensar, Otsuya não se abalou com o isolamento. Mesmo porque sua beleza estonteante atraía a atenção e a companhia dos rapazes. E, para aumentar a fúria da ex-amiga, Yoshiko – a mesma que decretou sua expulsão do grupo –, Otsuya conquistou o namorado daquela.
 
Foi então que, para vingar-se, Yoshiko recorreu à bruxaria, praticada pela família materna havia mais de dois séculos.
 
E, numa noite de lua cheia, novamente no O-bon, Yoshiko foi até a avó para ter o seu desejo de vingança cumprido. A velha bruxa, porém, ainda tentou alertá-la dos perigos de despertar os mortos, especialmente numa noite de O-bon:
 
― Geralmente, acaba-se por despertar às almas atormentadas, aquelas que mataram e fizeram sofrer a outros durante suas passagens por este mundo. Tais mortos não podem trazer nada de bom para quem os invoca. Melhor não mexer com tais forças, Yoshiko!

Mas a neta permaneceu irredutível:
 
― Não me importa, vovó! Sei o que desejo e, caso se realize, garanto que não me arrependerei!
 
A avó, então, vencida pela teimosia da neta, perguntou:
 
― E o que você deseja, Yoshiko?
 
― Quero que a beleza de minha rival, Otsuya, tenha um fim. Quero que ela fique com uma cicatriz tão horrível no rosto, de tal modo que nenhuma pessoa tenha condições de olhá-la. Principalmente Tatsuji, aquele traidor, que me deixou por ela!
 
Assim, a avó de Yoshiko deu início ao ritual, clamando pelas forças dos mortos para que o desejo de vingança da neta fosse realizado.
 
*

Otsuya despertou, na manhã seguinte ao ritual realizado pela avó de Yoshiko, com uma sensação incômoda. A noite toda havia sido de pesadelos. No mais assustador de todos, um esqueleto vinha em direção de Otsuya, empunhando uma espada de samurai e visando o rosto desta. Mas a moça conseguia desviar-se sempre. Até que, num determinado momento, apareceu Yoshiko, que gritou com o esqueleto para que cortasse o rosto de Otsuya. O ser fantasmagórico, porém, não gostando de receber ordens de Yoshiko, voltou-se contra esta última.
 
E Otsuya despertou no momento em que a caveira começava a atacar a Yoshiko.
*

Enquanto isso, na casa de Yoshiko, um grito despertava a todos.
 
A avó, temendo que o pior tivesse acontecido, foi a primeira a subir até o quarto da neta para ver o que tinha acontecido.
 
No entanto, a neta recusava-se a abrir a porta. Foi quando a avó resolveu pedir ajuda ao filho, que, após várias tentativas, conseguiu arrombar a porta do quarto.
 
O que viram, em seguida, foi ainda mais perturbador. Yoshiko gritava diante do espelho. O motivo, descobriram-no quando se aproximaram: a moça tinha um horrível ferimento no rosto, que lhe escancarava a boca de orelha a orelha.
*

Naquele mesmo dia, Yoshiko adentrava o hospital para a cirurgia. Mas os médicos pouco puderam fazer: e Yoshiko permaneceria com uma horripilante cicatriz para toda a vida.
 
Um golpe que ela não conseguiu suportar. Ao ponto de, uma semana depois, sair do hospital diretamente para uma clínica psiquiátrica.
 
Uma tragédia que, alias, levaria a avó, culpando-se do mal que havia trazido à neta, a cometer o suicídio no dia seguinte à internação desta última na referida clínica.
 
Quanto a Yoshiko, esta também se mataria tempos depois. Sem jamais ver realizada sua vingança contra Otsuya, que a cada dia ficava mais bela. E feliz, ao lado de Tatsuji, o futuro marido. 
*

Naquela noite, de volta do trabalho, enquanto caminhava pela trilha onde havia encontrado os dois garotos, Otsuya sentiu que alguém a seguia. O que fez com que, pela primeira vez na vida, fosse tomada pelo pavor. E, decidindo apressar o passo, chegou à casa o mais rápido que pôde. Em seguida, fechando a porta, disse consigo, aliviada:
 
― Não acredito, mas… e se for verdade? Melhor não arriscar.
Enquanto isso, não longe dali, o fantasma de Yoshiko continuava a vagar. Sem rumo.
 
Esquecida até mesmo que um dia desejou vingar-se de alguém.

[1] O dia dos mortos no Japão, cuja celebração tem início numa tarde de agosto.               
 
Edweine Loureiro                                  
edweine@yahoo.com.br                 


Edweine Loureiro nasceu em Manaus em 1975. É advogado, professor de idiomas e reside no Japão desde 2001. Premiado em diversos concursos literários no Brasil, Portugal, Espanha, México, Japão e nos Estados Unidos, é autor dos livros Sonhador Sim Senhor! (2000), Clandestinos (2011), Em Curto Espaço (2012) e No mínimo, o Infinito (2013).
 
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