Desafio Literário: Essência


Pinóquio não queria estudar. Quis conhecer a cidade que ouviu falar quando o amigo de Gepeto os visitara.

Saiu pela manhã e foi para a tal de rodoviária, levando no bolso todo o dinheiro que conseguiu pegar da gaveta da marcenaria, quando Gepeto saiu pra tirar umas medidas para algum serviço.

Sentiu-se perdido naquele local cheio de ônibus e poeira. Procurou onde deveria ser vendido o bilhete. Ficou na ponta dos pés no guichê, para alcançar o balcão, onde colocou com firmeza as cédulas, pedindo duas passagens para não levantar suspeitas.

- Uma meia e uma inteira pra meu pai. Ele está logo ali... foi comprar cigarro e me pediu pra...

Mal concluía seus argumentos e o atendente enfiava as duas passagens embaixo do vidro, junto com o troco.

Com as passagens na mão sentiu que seu nariz coçava. Dirigiu-se à plataforma. Aproveitou o tumulto do embarque e conseguiu entregar a passagem ao despachante, que só viu um braço estendido por entre corpos que se empurravam para subir no ônibus.

A viagem foi longa. Viu tantas coisas pelo caminho... coisas inimagináveis que Gepeto nem iria acreditar. O ônibus chegou ao seu destino apenas à tarde. Pinóquio desceu, saiu com dificuldade da gigantesca e confusa rodoviária e pôs-se a caminhar pelas ruas, apreciando tudo com atenção e deleite.

Estava extasiado. Não sabia que podiam existir construções tão grandes, pontes tão imensas... e tanto barulho e veículos nas ruas, levando centenas de pessoas pra lá e pra cá. Ninguém parecia se conhecer. No início, dava boa tarde para um e para outro passante, mas entendeu logo que aquele não era um costume para ser usado, pois ninguém lhe respondia.

Após uma ou duas horas de andança, chegou numa praça e viu um banco ao lado da quadra de futebol. Enquanto uns meninos jogavam bola, outros estavam aglomerados mexendo num joguinho que parecia um pedaço de vidro. Pinóquio não sabia o que era aquilo. Observava os meninos batendo com o dedo, e aquela coisa emitia sons e cores, e parecia bastante divertida.

- Posso brincar também?

- Peraí, garoto. Sou eu, depois ele, depois ele ali, e aí pode ser você. Você sabe jogar este jogo?

- Não.

- Este é novo, é o Crash Asteroid.

- Ahn...tá.

- Você tem que explodir o asteroide antes que ele atinja sua nave.

- Explodir?

- É, vai apertando assim em cima dele e ele explode.

Pinóquio observou que o jogo era bastante simples. Ficou ansioso para jogar, pois os garotos deliravam e não tiravam o olho do vidro. Enfim, chegou sua vez.

- Aperta logo o “Iniciar”! –disse um dos meninos.
Pinóquio queria dar o “iniciar” no jogo mas o vidro – “TLOC” - não reconhecia o toque de seu dedo. Então ele bateu com a ponta do indicador com mais e mais força... “TLOC-TLOC” e “TRINKL”.

- Você trincou minha tela! Você estragou meu tablet!

- Eu... Eu não quis...

- Você vai ter que me dar um novo! Cadê seus pais?

Pinóquio se levantou e foi recuando, de costas... enquanto os garotos o cercavam gritando impropérios. Então ele deu meia-volta e saiu disparado da pracinha, cruzando a rua, quando algo alto e barulhento o atingiu.

Ele voou por alguns metros com o impacto. Quando caiu no chão, ficou preocupado, então verificou todas as suas articulações e tudo parecia estar bem. Ia se levantar quando um homem o deteve ao chão.

- Menino, não se mexa. Fique quieto. Um ônibus te atropelou... vou ligar para os bombeiros. Já, já vão te resgatar. Cadê seus pais?

- Pra quê? Por q...

- Fique deitado e não fale nada!

Pinóquio percebeu que havia se formado uma imensa aglomeração à sua volta. Não estava gostando disso. Tinha que sair dali. Ele ouvia as pessoas falando coisas sobre ele. Chamando-o de coitado... Falando que ele podia morrer... Que podia estar com hemorragia... Dizendo que o para-choque havia se amassado bastante.

Não havia como sair dali. Estava cercado e o homem o segurava reto no chão.

- Senhor, mas não entendo... eu estou bem... por quê todos estão me olhando e falando de mim como se eu estivesse...

Após alguns minutos, um homem de vermelho apareceu no meio do círculo que se formara, abrindo caminho pela multidão de curiosos. Atrás deles, mais dois, trazendo uma maca.

- Quem é o responsável pelo menino?

- Não sabemos – falou o homem – Vamos até o hospital e depois tentamos achar os pais.

Foi colocado na maca e levado para dentro da ambulância. Estava enrascado. Como fugiria dali para voltar pra casa?

- Fique calmo, menino. Qual é seu nome?

- Pinóquio.

- Você sabe o telefone do seu pai ou de sua mãe?

- Não... eu ...

- Tudo bem. É normal estar confuso. Pelo menos suas próteses parecem ... bem... Isso são próteses, certo?

- Próteses?

O diálogo foi interrompido quando a ambulância chegou ao hospital e abriram com violência a porta para retirar a maca do veículo.

- Senhor – disse o bombeiro -  o senhor não poderá nos acompanhar. Peço que tente encontrar os pais do menino ou qualquer informação útil. Naquele balcão de triagem da emergência, por favor...

Enquanto o homem tentava cuidar da parte burocrática, Pinóquio foi levado pela emergência adentro, e após ter passado por uma rápida avaliação dos médicos e perguntas como “quantos anos você tem” – que ele respondeu dizendo “um” –acharam que havia dano cerebral e pediram uma tomografia.

O resultado desta tomografia foi assunto no hospital durante anos.

Pinóquio conseguira escapar da confusão daquele lugar branco e cheio de luzes entrando dentro de um carrinho de inox que passou perto de sua maca enquanto esperava no corredor, após o exame. Esse carrinho o deixou na cozinha, nos fundos do hospital, de onde conseguiu fugir com facilidade.

Quando chegou à rua, já era noite. Sentiu-se sozinho e com medo. Estava num beco com muitos sacos de lixo, caixas e caçambas.

E havia dois rapazes olhando pra ele.

No início achou que eram os meninos do tablet, mas depois percebeu que eram outros –maiores, mais fortes. Pareciam querer assustá-lo com suas caras ameaçadoras e seus olhos vermelhos no meio daquela fumaça estranha. Ele sabia o que acontecia quando alguém batia em outro. Pessoas podiam morrer assim. Ele teve certeza que eles queriam agredi-lo. Viu um canivete.

Pinóquio não pensou. Agiu, correndo em direção ao outro beco, desesperado.

Mas eles eram maiores e o alcançaram.

Um, que estava de jaqueta, revistou seus bolsos e pegou o dinheiro. Imobilizou Pinóquio, colocando seus braços para trás. O outro, mais alto, riu de forma debochada e o xingou de vários nomes que ele não conhecia mas que deveriam significar coisas terríveis. Então desferiu um soco em seu corpo.

Fez-se um barulho estranho.

Arregalou os olhos para Pinóquio e o xingou mais alto, segurando os nós da mão direita usada no golpe. Então, com fúria, olhou para Pinóquio, armou seu braço num impulso e deu-lhe um outro soco, no maxilar.

Mais uma vez o rapaz alto arregalou os olhos, e cheio de dor, curvou-se com o braço entre as pernas, com o nó dos dedos sangrando, urrando.

- Que tá havendo?  - disse o que estava de jaqueta.

- Esse cara parece de pedra! Seu f...

Nesse momento de confusão Pinóquio tentou se desvencilhar do rapaz que o segurava, mas foi atacado com o canivete. A lâmina ficou cravada, inócua, no corpo de Pinóquio. O rapaz ficou boquiaberto e Pinóquio se virou e fugiu, correndo o máximo que podia. Alcançou a rua, arrancou o canivete do corpo e o jogou no chão.

Subiu, assustado, no primeiro ônibus que viu, indo para qualquer lugar. O ônibus ia vazio.

Ele se sentou e encostou a cabeça no vidro da janela, arrependendo-se te ter vindo para a cidade. Apreciou as luzes nas ruas e avenidas, a ponte, o lago central... era tudo tão bonito... mas estava tarde e ele queria voltar para casa. Poderia perguntar ao motorista como fazer para ir à rodoviária. Mas não tinha dinheiro...

Viu seu reflexo no vidro, e percebeu, assustado, que havia uma lágrima escorrendo pela bochecha. Sentiu seu nariz coçar e teve certeza de que ele parecia ter encolhido um pouco.

Estava tão absorto que não percebeu que ao seu lado estava uma mulher. 

Quando deu conta dela, não lembrava em que momento ela havia sentado ali.

- Por quê fez isso, Pinóquio?

Pinóquio viu uma luz em volta daquela bela figura e soube que não era uma pessoa comum, e que podia confiar nela. Olhou para o motorista e ele parecia alheio à sua presença. Olhou de novo para ela e abaixou os olhos, envergonhado.

- Eu não sei... estou tão arrependido... Só queria voltar pra casa...

- Pinóquio... roubar o dinheiro de Gepeto, e vir pra cá sem falar nada? Ele ficou muito preocupado, foi te procurar e acabou numa enrascada. Isto está certo, Pinóquio?

Agora Pinóquio a observava ansioso.

- Não, não está certo! Mas... que enrascada? O que ... o que aconteceu com ele?

- Agora ele está bem. Fique calmo. Tive que salvá-lo. E quanto a você...  Você mentiu apenas uma vez, mas com seu arrependimento transformado em lágrima, seu nariz já voltou ao normal. Mais que isso.  Acho que você ficaria surpreso em ver como... está... Eu tenho visto seus sonhos, Pinóquio.  Eu vim aqui pra fazer o que você deseja. É pra isso que eu existo.

- Eu... Eu... eu desejo ficar forte e resistente como sou, e quero voltar pra Gepeto.

A mulher pareceu assombrada.

- Mas... e aquele seu sonho de todas as noites, Pinóquio?

- Não, esqueça aquilo. Estive pensando... eu quero continuar como sou, quero ser quem sou. E estar com Gepeto.

A mulher o fitou por alguns segundos. Assentiu com a cabeça, sorriu e desapareceu, deixando uma luz muito forte que tomou conta de tudo. Houve um vento forte, e Pinóquio sentiu que rodopiava, e até que flutuava... e depois a luz cessou e ele se viu na marcenaria de Gepeto. Era noite. Correu para o quarto e chamou o velho, que parecia estar profundamente adormecido.

- Oi, voltei, voltei! Gepeto! Prometo que vou trabalhar pra recuperar o dinheiro que gastei! Prometo que vou tentar ser melhor! Perdoe... perdoe o que fiz!

Gepeto acordou. Eles se abraçaram e conversaram muito. Tranquilos, adormeceram.

Já era manhã. Gepeto dormia e Pinóquio estava à janela, olhando pensativo pelo vidro que dava para o vilarejo. Os raios do sol vinham pintando de claridade todas as coisas. Tudo pareceu belo.

Pinóquio se sentia bem.

Observou as gotículas de orvalho no vidro e bateu o dedo nele.

TLOC – TLOC – TLOC.

Cristina de Abreu
pestana.sonia@gmail.com              
 
Cristina de Abreu, moradora de Niterói – RJ, casada, casal de filhos pequenos, 43 anos. Sua atração pelas palavras e a comunicação a levou à faculdade de Comunicação Social da UFF, onde se formou em 1992. É publicitária e servidora pública. Trabalhou com Comunicação Social / Marketing no BANERJ, Banco Bozano Simonsen, na CNEN, foi Oficial da Marinha do Brasil e atualmente trabalha na Justiça Federal do Rio de Janeiro. E decidiu começar a escrever contos e estórias em 2014.

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