Café Literário: Tom

A história que vou lhes contar agora me foi contada por minha avó, numa das noites em que me pegou no colo, com sua velha cadeira de balanço a ranger, para me contar histórias tenebrosas sobre a casa em que ela morava. Muitas daquelas histórias eram impossíveis de ter acontecido e depois de dias de raciocínio constante eu acabava por desvendar o erro que denunciava o caráter fabuloso dos seus contos. Porém, esta história que resolvi escrever para combater a minha insônia é especial, pois eu nunca desvendei o seu mistério…
 
Notando minha querida avó que, com o avançar da idade, seus contos ficavam cada vez menos críveis, tomou-me ela uma vez em seu colo, deu um forte suspiro e pôs a olhar durante muito tempo para o velho apanhador de sonhos da janela. Como que ela não me responderia nada enquanto eu também não olhasse, volvi meus pequenos olhos para o objeto corriqueiro, o qual eu nunca havia reparado com tanta atenção antes e me senti um pouco triste sem saber bem o porquê. Certos objetos exercem em nós uma força de atração inexplicável e aquele apanhador vermelho era um desses, como uma lâmpada de gênio ou o caixão de um vampiro.
 
Minha avó rompeu então o silêncio e suas palavras não saíram da minha cabeça desde então; talvez porque ela me jurou que era verdade e minha avó não era dada a juras ou talvez porque ela protagonizara o ocorrido, receio que um pouco de cada, mas eis a história que me contou:
 
O nome de minha avó era Ana e ela tinha um irmão, cerca de dez anos mais velho, chamado Tom. Ele a havia presenteado com o apanhador de sonhos, ainda quando ela era muito pequenina para se lembrar, numa tentativa de resolver os problemas de insônia, dos quais ela tinha terríveis crises acompanhadas de pesadelos que não a deixavam dormir sequer um minuto. Tom era muito carinhoso e conforme minha avó ia crescendo, começou a elaborar meios de fazer com que ela dormisse bem. A última forma de seus métodos consistia num jogo, onde ele escondia uma frase pela casa que ela precisava achar. Eram frases como: “Boas histórias acompanham bons sonhos” ou “Os anjos protegem os sonhos das pequenas”, de qualquer forma a frase era apenas uma senha que ele cobrava para contar a ela uma de suas maravilhosas histórias. Deitada em sua cama, ela escutava maravilhada o talento que o irmão tinha para contar histórias fantásticas e olhando para o apanhador a balançar na sua janela acabava dormindo bem, como se nunca tivera sofrido de distúrbios do sono.
 
No entanto, quando minha avó completou nove anos, Tom sofreu um acidente de carro e veio a falecer. Ninguém sentiu mais a morte dele do que ela, que me assegurou ter chorado por quatro dias quase sem parar e até mesmo sem dormir. Até que, no quarto dia, fatigada de tanto sofrer a morte do irmão, ajoelhou-se apoiada na cama, olhando para o apanhador de sonhos e pediu muito dedicada que pudesse sonhar com o seu irmão. E continuou obstinada no seu pedido até que ali mesmo, meio no chão e meio na cama, adormeceu.
 
Logo Ana havia sido transportada para uma escuridão densa e claustrofóbica, o que a fez ter grandes dificuldades para respirar. Ofegando naquela imensidão escura e mal conseguindo se mover, Ana tinha unicamente em seu pensamento a saudade dos cuidados que recebia de Tom. Quase vencida e sentindo suas forças se esvaírem, gritou por seu irmão:
 
— Tom! — o que repetiu algumas vezes — Tom, Tom!
 
De repente um ruído a fez parar. Pensou ter ouvido algo e silenciou para ter esta certeza. Toc-toc-toc. Três batidas no que parecia ser uma madeira. Três batidas que a fizeram gelar, pois a escuridão não a permitia ver de onde vinha. Toc-toc-toc. Mais uma vez e o desespero foi aumentando, no que Ana começou a chorar de medo. E então uma presença que lhe provocou um calafrio na espinha surgiu bem próximo, as suas costas. Deitada e abraçando as próprias pernas ela tinha certeza que algo estava logo atrás dela, mas foi incapaz de se virar. Então, meio que uma ideia lhe surgiu clareando a mente e acelerando seu coração e de forma inocente e quase inaudível, perguntou:
 
— Tom? — silencio… e então: Toc-toc-toc.
 
Ana acordou gritando, o que fez seus pais correrem para o seu quarto. Era esperado que os pesadelos houvessem retornado. Era esperado que ela sonhasse com Tom. Sua mãe a pegou nos braços e se deitou com ela até que o dia amanhecesse.
 
Depois conversaram com ela dizendo que Tom estava no céu. Que era um lugar muito lindo e que ele não iria voltar para assustar sua tão amada irmãzinha. Ana retrucou que tinha pedido ao apanhador de sonhos para sonhar com Tom e seus pais a afagaram e replicaram que ela apenas tinha ficado impressionada.
 
Na noite seguinte, quando ela se preparava para dormir conversou consigo deitada na cama.
 
— Ora, Ana, — dizia ela para si mesma — já estás a virar uma mocinha. Não podes continuar a ter pesadelos.
 
Decidiu que precisava beber um copo de água quando, na sala, avistou um vulto preto a correr para a janela. Era um gato que havia entrado pela janela que os pais esqueceram aberta. Ana a fechou e passou a vista pela sala e viu que o gato tinha derrubado uma almofada do sofá. Foi apanhá-la e qual não foi a surpresa ao ver abaixo do sofá um pedacinho de papel rasgado ao jeito de Tom. Empalideceu e tremendo pegou o papel. — Você não é mais uma criança — repetia para si. Desembrulhou e lá estava escrito:
 
“Hoje, a noite, não terás pesadelos. Sonharás comigo”.
 
Por um momento sua alma gelou, mas respirando fundo se convencera que teria sido uma mensagem que seu irmão tinha deixado antes do acidente e que o gato encontrou por mero acaso. Segurou o pedacinho de papel como se fosse uma joia rara, voltou para a cama e olhando para o apanhador de sonhos adormeceu.
 
Sentiu que pisava uma terra fofa e que fazia bastante frio. Tentou olhar em volta, porém não reconheceu nada dali. Até que andando sem cuidado tropeçou numa pedra e caiu, olhou para onde tinha tropeçado e notou que a pedra tinha um formato retangular, um paralelepípedo perfeito, mas o que a deixou com um medo de morte foi perceber o que era exatamente aquela pedra. Repentinamente todo o lugar lhe veio à memória, estava no cemitério, no cemitério onde Tom havia sido enterrado e ela acabara de tropeçar no túmulo dele.
 
Aquela pedra com o nome de seu irmão escrito chamou Ana para mais perto e ela, hipnotizada por tudo aquilo, foi se aproximando até encostar o ouvido no frio paralelepípedo. Toc-toc-toc. Fez-se ouvir a batida outra vez. E foi ficando mais forte, o que fez com que ela se afastasse, mas o medo a prendia por perto numa vertigem terrível causada pelas três batidas que ela compreendera vir do caixão. Faltou, por fim, forças em suas pernas e Ana foi ao chão, sentada de olhos no túmulo até que as batidas cessaram.
 
O silêncio ainda durou por alguns segundos, o que para ela estava sendo uma eternidade de medo e expectativa, até que um rebuliço, um volume diferente no solo se notou e dali brotou uma mão. A mão de Tom, aberta, cheia de terra e vazia de vida. Ana gritou, gritou muito. E acordou gritando.
 
Seus pais, preocupados, correram para consolá-la. Ficaram mais preocupadas, pois naquele dia teriam que comparecer a um compromisso inadiável e precisavam deixar Ana aos cuidados de uma babá. Explicar para sua filha assustada uma ausência nesse momento de dor não foi tarefa fácil, mas Ana era compreensível e o medo fê-la estranhamente decidida a não ter pesadelos naquela noite.
 
Logo quando a noite sobreveio àquele dia, seus pais saíram e deixaram Ana com a babá, que logo foi cuidar de arrumar o quarto da pequena para que ela dormisse e assim a babá pudesse assistir a novela. E logo entrara para fazer a limpeza, saiu do quarto com um pedacinho de papel na mão.
 
— Isto lhe pertence Ana? — perguntou a babá.
 
A pequena logo reconheceu o jeito carinhoso de Tom no pedacinho e embranqueceu, mas determinada a vencer-se tomou nas pequenas mãos a folhinha e a abriu.
 
“Para evitar pesadelos irei velar teu sono pequena”.
 
Algo claramente estava errado. Ana chegou a duvidar da realidade, a achar que pudesse estar dormindo naquele momento. Teve raiva e rasgou o papel e embora a babá perguntasse se ela estava bem, a garota saiu enraivecida para seu quarto, trancou a porta e se deitou até vencer por obstinação a falta de sono para dormir. Dormiu.
 
Desta vez Ana não estava em seu sonho. Ela via Tom sair do seu túmulo com grande dificuldade, com algumas das feridas do acidente abertas. Ele tinha um olhar triste para a noite e andava vagaroso para fora do cemitério. As ruas estavam vazias e ele passava pelo antigo parque por onde brincaram parando apenas por um breve momento para observar o balanço, seu brinquedo preferido. Passou pelo colégio que Ana frequentava e pôde-se notar um quase macabro sorriso brotar no canto de sua boca, mas isto não era o mais assustador do que o fato de Ana começar a reconhecer o caminho que seu irmão estava fazendo. Ele ia cumprir com o prometido no bilhete, seu irmão estava indo visitá-la.
 
Quando ele dobrou na esquina de sua rua, Ana gelou e sua respiração foi ficando mais acelerada. Quando seu irmão abriu a pequena porta da frente o medo tomou conta de Ana e ela sentia que já não poderia mais segurar seu grito. Ele parou de frente para a casa, mas com um novo meio sorriso resolveu dar a volta e pequena sabia o motivo. Tom estava vindo até a janela de seu quarto.
 
Tom dava passos curtos que se aproximavam cada vez mais o seu objetivo. Neste momento Ana pôde se ver dormindo, mas o que mais a assustou é que ela não se via como que de longe, mas próximo, como encostada na janela. Ela se via pelos olhos de Tom e sentiu  grande medo pela proximidade.  E depois de Tom encostar sua mão suja de terra no vidro da janela, fechou seu punho e… toc-toc-toc.
 
Ana gritou o que fez sua babá correr e bater na porta para que ela a destrancasse, mas Ana gritou um pouco mais até conseguir reunir forças para abrir a porta e abraçar forte a sua babá, mas o mais terrível era que mesmo o terreno da casa ser completamente asfaltado, na janela do quarto tinha o perfeito desenho de uma mão feito de terra.
 
Os pais de Ana ficaram muito aturdidos e preocupados, colocaram minha avó para frequentar psicólogos e guardaram o apanhador de sonhos. Logo ela não tinha mais esses sonhos estranhos e nem os bilhetes apareciam. Os pais dela se esqueceram desses fatos e em dois dias a marca da mão havia sumido, mas conforme ela foi ficando mais velha, decidiu retirar o velho apanhador de sonhos do canto onde havia sido guardado e o deixava agora pendurado para que o seu irmão um dia a viesse buscar.

Francisco Nícolas Martins Santiago
thyravennevermore@gmail.com

Nícolas tem vinte anos e cursa a faculdade de direito. Tem como hobbie, além dos contos, a escrita de poesia e sonha em um dia escrever um romance. Escreve mais para a catarse dos amigos, mas pretende agora começar a participar de concursos literários para se aprofundar na escrita.

Um comentário:

  1. Excelente conto, meu amigo! A história é muito boa, está bem escrita - talvez alguns erros de concordância, mas isto não afeta de maneira nenhuma seu texto - com ótimo vocabulário e tenso do início ao fim. Muito bom mesmo! Parabéns!

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