Café Literário: Seixos de pedra do caminho da memória


O som dos pingos de chuva martelando no vidro da janela deixava Cecília menos perturbada. A praia estava cinzenta em certa manhã do mês de outubro e uma névoa densa tornava quase impossível delimitar onde começava o mar e onde terminava a terra. Embora que, se você estivesse em um lugar alto, conseguiria driblar a névoa,  e poderia enxergar uma paisagem turva do oceano e das suas ondas violentas, quebrando-se junto aos corais e rochedos ali próximos. Via-se a fusão de cores do céu carregado de nuvens arroxeadas com manchas amareladas parecidas com um hematoma, e a cor da areia fina e molhada. Não existiam flores naquele lugar. E nem sonhos. Nada sobrevivia por muito tempo. Apenas algumas árvores retorcidas, com muitos galhos de troncos escuros e úmidos que circundavam uma casa torta e decrépita na encosta, e na janela do aposento mais alto, olhos grandes e perolados fitavam o farfalhar das árvores lá fora.
 
Cecília havia se acostumado com o barulho e os rangidos no meio da noite e no início da manhã. Sentia-se reconfortada e menos solitária. Sabia que os fantasmas daquele lugar não a machucariam. Talvez. Ela não tinha certeza. Vestia uma camisola branca e rendada, que estava suja de lama na sua parte inferior, por causa dos acontecimentos da noite passada, em que movida pela impaciência, insensatez e solidão, ela correu farfalhando para o ar frio da noite. Correu como se estivesse fugindo da morte, correu para o escuro. O mundo tornara-se irreal aos seus pés. Sôfrega e cansada, ela tropeçou no cascalho, e ali permaneceu, com a face derramando sangue, até à hora da alvorada cinzenta, quando viu uma vela acesa na janela aberta dos seus aposentos, e a cortina de seda branca que dançava com o vento. Não era a primeira vez que isso acontecia. Cecília sempre fugia, mas previsivelmente acabava retornando para casa. Ela pertencia a aquele lugar.
 
Os cabelos de ébano estavam molhados, sua pele cor de nácar estava mais fria que nunca, e na bochecha esquerda havia um corte fundo e vermelho vivo que contrastava com a sua pele pálida. Seus pés estavam feridos por ter andado descalça pelos seixos de pedra fora da casa, e o sangue escorria lentamente. Era uma criatura bela, porém carrancuda. A mágoa perdurava em seus olhos, e ao fitá-los lentamente, você poderia vislumbrar um oceano de dor, descuido, e perda.
 
Por todos os cômodos daquela casa, estavam espalhadas lembranças e memórias que ecoavam a todo instante, como se não desejassem nunca serem esquecidas. O vento uivava, fazendo as paredes rangerem. Não havia nenhum animal ali. Nem um gato ou pássaro. Nada sobrevivia por muito tempo. Apenas Cecília e as suas  memórias. Aquele lugar cheirava a maresia, terra molhada, vela derretida, e, sobretudo, doença e desespero. A poeira recobria os móveis, e em cima do aparador, havia retratos antigos da família. Ela fitou-os por um instante. Lembrou-se da própria mãe, que certa vez fugira do manicômio, caminhando na areia molhada da praia, tossindo catarro grosso, a voz áspera, um rosnado grave de resignação, denunciando que a morte a rondava. Do rosto do pai ela já não se lembrava mais. Tornara-se um fantasma em sua mente, um corpo delgado que vagava sem rumo antes que a morte o levasse. Lembrou-se do rosto e da voz de um homem e de si mesma, violada, com frio, e gaguejante, o sangue morno escorria entre suas pernas, seu vestido havia sido rasgado. Ela foi encontrada e trazida para casa por viajantes após ser vista vagando mais uma vez sozinha e perdida na estrada distante após o caminho de seixos de pedra da casa. E por fim, dolorosamente ela lembrou-se de uma criança sendo jogada do alto de uma janela no último andar. “É isso o que fazemos com crianças indesejadas”, disse uma voz ecoando na sua cabeça, que parecia bastante com a sua própria voz. E lembrou-se de como chorou naquela noite, de como parecia que o seu coração havia sido rasgado e dilacerado no peito. Cecília arfou, e cristais de lágrimas brotaram dos seus olhos de pérola. Ela sentiu sua bochecha arder, quando lágrimas salgadas atingiram o corte no seu rosto. Sentia-se tão cansada, que por um momento esquecera-se da dor. Aninhou-se mais um pouco sobre a poltrona velha, e dormiu acalantada pelos uivos do vento.
 
O lugar estaria escuro, se não fosse por um feixe de luz dourada insólita. A chama de uma vela que crepitava. Cecília lentamente abriu os olhos, e demorou um instante para se lembrar de onde estava. Ainda chovia muito e um cheiro nauseabundo pairava no ar. Ela tentou se mover, mas algo a impedia. Observou a si própria, e soltou um murmúrio baixinho de horror quando se deu conta do que prendia o seu corpo. Ela estava deitada com a barriga para cima, despida, e sua pele estava envolta por um tipo de fio delicado, mas assustadoramente rígido como um casulo, parecido com a teia de uma aranha. Milhares de teias envoltas em sua pele, em seu rosto, pernas, braços e tronco. Ela estava imobilizada. Observou o carpete manchado com o sangue dos seus pés, e perguntava a si mesma quem poderia ter feito isso. Nada acontecia. Estava apreensiva e nervosa. Lágrimas brotavam-lhes dos olhos, mas ela não sentia mais o rosto arder. Seu coração batia lentamente. Após algum tempo sem sentir nada além de medo, ela começou a se perguntar se estava morta. Ela sabia que não adiantava fugir, então permaneceu imóvel por horas, talvez dias, anos ou milênios.
 
Estava escuro, e Cecília viu a silhueta de uma criatura baixa, corcunda, com as pernas atrofiadas e as mãos grandes demais para o próprio corpo se aproximando dela. A criatura a olhou nos olhos, e Cecília sentiu que o conhecia, ou pelos menos reconhecia certos traços de suas feições. A criatura hesitou por um momento, mas logo em seguida penetrou com sua enorme mão o casulo de teias e depois o peito esquerdo dela, rompendo a pele delicada e pálida, e os músculos, indo quase até a sua alma, arrancando-lhe o coração pulsante, sem dificuldade alguma. Depois disso, mastigou-o lentamente, e o engoliu. Por fim, retirou-se da sala deixando-a novamente sozinha. Sangue quente de um vermelho tão vívido como ela nunca vira antes jorrava do seu peito. Havia dor, mas sobrepondo-se a ela, existia o torpor. Este era muito maior, e Cecília gritaria, se conseguisse. Mas era muito mais fácil agarrar-se às bordas tênues da letargia e do irreal e profano e deleitar-se com aquela sensação acolhedora que só a proximidade com a morte poderia provocar.
 
Porém, o que estava implícito para ela, era que a morte próxima não era aquela morte da carne e o apodrecimento das entranhas e víceras, mas sim, a morte das sensações. Um turbilhão de imagens retorcidas veio aos seus olhos, e ela reconheceu na criatura corcunda o rosto do próprio filho, mesmo na penumbra daquela sala abafada e fétida. A criança que há alguns anos fora atirada por ela mesma, da janela do aposento mais alto daquela casa. E que se tornou um monstro deformado em sua mente, e todas as noites ela sentia como se o seu coração estivesse sendo rasgado. Sentia-se muito culpada por isso, mas da mesma forma, sentia-se aliviada. Não amaria uma criança que era simplesmente o resultado de um estupro. O filho de um homem cujo rosto ainda a assombrava todas as noites. Cecília tornou-se dissidente de si mesma, sentiu asco por si própria, sabia que aquilo era como o inferno. E suas lembranças eram os demônios e as hordas infernais que a castigavam com açoites de palavras torpes e imagens perturbadoras, que ferem-lhe a alma, até que depois de milênios tudo acaba. Ela está destruída. Não sente mais nada. O sangue que jorrava do seu peito escorria ligeiramente. Cecília sentia-se morta. Podia sentir o calor esvaindo-se do seu corpo. E então, tudo se repete lenta e metodicamente, até que ela desperte.
 
Quando acordara, a alvorada havia chegado com os seus feixes de luz prateada, e então Cecília percebeu que havia dormido durante muitas horas. Não chovia mais. Permaneceu sentada na poltrona velha, chorando e soluçando profundamente por horas. Lágrimas enormes e quentes adornando aquele rosto de porcelana. Ela ergueu os olhos perolados e úmidos, e viu um pequenino pássaro preso entre as cortinas velhas que cheiravam a mofo. Nunca vira algo assim. Não naquela casa. Levantou-se com dificuldade, um pouco atordoada, e sentiu dor ao tocar o chão com os pés descalços e feridos. Foi até a janela, forçou-a até escancará-la. Só há morte naquela casa, e temendo pela vida do passarinho colorido, fez das duas mãos copas em torno do corpo do ser delicado do animal, que farfalhava, sentindo duas pequenas asas beijar a sua mão suavemente, e o viu voar para bem longe. Deixou o ar fresco entrar para que o cheiro de sangue seco e lama fossem embora. Aspirou o ar da manhã, sentiu a garganta seca, mas de alguma maneira, estava sentindo-se livre. Há tantas coisas quebradiças e rúpteis nesse mundo. Pessoas se despedaçam com tanta facilidade, assim como sonhos e corações que são constantemente dilacerados também.
 
Danyella Simões
danyellasimões@live.com

Nascida em 1994, prefere mais as noites que os dias. Adoraria passar uns dias morando num lugar frio, sossegado, em um casarão torto e meio abandonado, na companhia de 3 animaizinhos de estimação doidos e alguém mais doido ainda, a ponto de acreditar que à noite as árvores ao redor da casa falam.

Um comentário:

  1. Caramba, intenso! É um texto bonito, com ares de terror, com ares de poesia e bonito. Está bem escrito, com um ótimo vocabulário, e bem amarrado. Parabéns!

    ResponderExcluir

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.