Café Literário: O tapete


Clara estava feliz. Havia chegado de Paris à linda cidade austríaca em que sua mãe comprara um chalé. Estava redecorando a casa e buscava peças exclusivas. Ela tinha o bom gosto de sua mãe para as Artes e mais capital. Entrou na loja de antiguidades e olhou tudo com atenção. Comprou o tapete assim que o viu. Era de pura lã de carneiro e estava muito preservado.

O antiquário disse que datava de 1945, uma relíquia.

Ficaria perfeito na saleta da lareira, com seus quatro metros quadrados. A parte de baixo estava desgastada, mas o material do qual foi feito era um tanto fascinante. A única insatisfação que Clara sentiu foi o odor vindo do tapete – um misto de antiguidade com... Não soube identificar o que mais.

Ao chegar a casa não hesitou em estender a nova aquisição entre a cadeira de balanço e a lareira. Admirava o tapete a cada passo descalço que dava sobre ele. Não seria difícil conservá-lo, já que morava sozinha e raramente recebia visitas – exceto a de seu vizinho, residente desde a época em que sua mãe era viva.

Nos dias seguintes, o cachorro do vizinho, um pastor alemão, começou a entrar na casa e deitar-se no tapete sempre que as portas se abriam. Clara não escondia seu descontentamento, já que a lã poderia desgastar-se a cada soneca do intruso. Chegou a comentar jocosamente com o vizinho que o cão era tão bom que cuidava do rebanho mesmo no tapete. Policiou-se para não permitir a entrada do cachorro.

Numa noite decidiu dormir no tapete, já que era macio o suficiente e a lareira a aqueceria.

Durante a madrugada acordou de sobressalto, pois a música que ouviu durante o pesadelo pareceu estar na sala.

No dia seguinte levantou-se indisposta, mas não sentia o cheiro desagradável do tapete em seu corpo e nem na sala. O cheiro havia se dissipado.

Enquanto pintava um banco na varanda, viu o vizinho e o chamou para ver a perfeita antiguidade na sala.

O homem impressionou-se com a preservação incomum para um objeto tão antigo e logo quis saber da procedência.

Empolgada por falar de seu achado, Clara foi logo dizendo que se tratava de um tapete pertencente a uma ex-fugitiva da Segunda Grande Guerra, conforme o dono do antiquário havia dito, para surpresa do vizinho. 

Clara Esteve ausente durante uma semana para fazer uma pesquisa, em Paris, sobre Guy de Maupassant, parte de seu trabalho literário para uma editora.
 
Mal acessou a porta de entrada, já se deparou com as pegadas que marcavam o assoalho da varanda e o peitoril da janela da sala. Pensou: ah esse pastor alemão! Espiou pela janela enquanto a tinta do banco ainda estava fresca! Tenho um trabalho a refazer.

Como estava exausta, pegou um edredom e um travesseiro do quarto e foi dormir no tapete. Tomada por uma dispnéia, de súbito acordou, percebendo que o edredom fora jogado para além de seus pés. Lembrou-se então do pesadelo que teve. A terrível cena de crianças em pânico e sufocadas vieram-lhe à mente. Também sentiu falta de ar e foi até a janela da sala. Ao abrir a cortina, deparou-se com o brilho de um par de olhos. Depois do susto, identificou o pastor alemão. Foi para o quarto, decidida a dormir na cama. Seus pensamentos a impediram. A solidão e a saudade de sua mãe lhe trouxeram a temeridade se estava sugestionada pelos acontecimentos de um ano atrás, quando sua mãe perdeu a sanidade, passou a ter alucinações, deixou de sair de casa e por fim, ateou fogo ao corpo, fato esse sinalizado pelo pastor alemão. Ela não visitava sua mãe, não pode apoiá-la. Trabalhava em Angola. Levantou-se, tomou um copo de leite quente e tentou dormir. Adormeceu.

Quando amanheceu, o vizinho bateu-lhe à porta. Desculpou-se pelo estrago na pintura do banco. Clara agradeceu e o informou sobre o que ocorreu na noite passada, pedindo sua opinião sobre o fato, pois não sabia a quem recorrer. Ele a tranquilizou, dizendo que não passou de um pesadelo e que ela estava mal impressionada.

Clara trabalhou incessantemente durante o dia. Escreveu, pintou o banco, arrumou a casa. 

Acendeu a lareira e levou o jantar para comer sobre o colo. Teve o cuidado de forrar o tapete para que nenhum alimento caísse diretamente sobre ele. Depois de saciar uma fome leonina, sentiu-se sonolenta e foi dormir no quarto.

Num lapso esqueceu a porta dos fundos aberta, por onde o pastor alemão entrou. Encontrou-o mastigando com gosto a beirada do tapete. Tomada pela ira, atirou no cachorro a pá de jardim que usava para cultivar a horta nos fundos da casa. Arrependeu-se depois que viu que havia cortado parte da orelha dele. Com o vizinho, foi ao veterinário. Agora, tinha certeza de que não seria perturbada pelo animal.

Ela voltou para casa ansiosa por identificar a dimensão do estrago, mas antes tratou de limpar os respingos de sangue que felizmente não atingiram o tapete. Ainda visualizava a agressividade com que o cão comia o material.

Aparentemente, o gosto não era tão ruim quanto o odor inicial. O tapete era perfeito.

Feliz ficaria sua mãe se encontrasse tal objeto que proporcionasse essa experiência estética por um preço quase simbólico.

Clara deparou-se com a parte mastigada do tapete. Sofreu inicialmente, mas notou que um pequeno pedaço de couro poderia ser remendado naquele ponto. Como já anoitecera, faria o trabalho no dia seguinte.
 
Para compensar o descuido, resolveu passar a noite ali mesmo, já que nenhum pesadelo seria pior que ver seu tapete perder a originalidade.

O cansaço fez com que dormisse rapidamente.

Um silêncio quebrado por cochichos ininteligíveis, cães latindo, gritos abafados de mulher, choros engolidos de criança, estampidos, estalidos de chicote e ruídos de ratos intercalavam-se como em uma sinfonia paralela a uma orquestra tocando Madame Butterfly ao fundo.

Um cenário em meio à neve, galpões de madeiras enegrecidas eram ladeados por muros tingidos de vermelho queimado, cercas de arame, altos portões, acessos ao subsolo, carroças, pás, ratos circulando desordenadamente em busca da sobrevivência e uma incessante fumaça cinza saindo de chaminés. Não havia pessoas.

Repentinamente, a visão é afastada para um cômodo mobiliado com austeridade, muito reservado, no qual, ao fundo, uma porta se abria e convidava à passagem. Antes de passar pela porta, um cadafalso provocava uma queda escura e muda interrompida pelo contato macio com um tapete de lã.  Ele vinha envolvendo o corpo, assumindo sua forma, aconchegando o hospedeiro, apertando, esmagando e uma de suas beiradas provocava asfixia, tapando a boca e o nariz. Os olhos conseguiam ver uma inscrição na beirada sufocante: “Lieferung für Maria Mandl”.*

No ar, um cheiro de algo muito novo misturado a... Não se soube com o que mais.

Clara despertou ofegante e com a testa e as mãos úmidas de suor. A cabeça doía. Sentia muita sede. Foi até a cozinha e bebeu água. Não se impressionou com o pesadelo. Era inevitável devido às ocorrências do dia. Voltou ao tapete, mas não conseguiu dormir porque o dia já clareava.
 
Tomou um banho, o café da manhã e foi tirar o tapete da sala para levar ao conserto.

Quando chegou ao antiquário foi logo dizendo que não se importava em pagar o preço pela prioridade do conserto, ao que, o proprietário informou não fazer restauração, indicando o tapeceiro local.

Na tapeçaria deparou-se com os mais variados tipos de tecidos, couros e similares para restaurações, reformas e estofamentos. Nada se comparava à base de seu tapete de lã.

O tapeceiro pegou então, uma borda do tapete para analisar o material, afinal, ele era o profissional especializado. Assustou-se com a delicadeza do material e identificou uma inscrição: “Lieferung für Maria Mandl”. Sentiu-se obrigado a declinar do serviço e disse: “Maria, sinto muito. Não disponho desse material. Nunca trabalhei com ele.”

Imediatamente Clara questionou o tapeceiro sobre o porquê de ele a ter chamado de Maria. 

“Está em alemão na borda do tapete.” disse ele.
 
Ela sentiu suas mãos gelarem e uma palpitação sufocante. Empalideceu a ponto de o tapeceiro providenciar-lhe uma cadeira e um copo d’água. Recuperou-se, agradeceu e saiu apressadamente, com o tapete no porta-malas.

Voltou ao antiquário. Perguntou a ele como havia conseguido aquela peça. Soube que pertenceu a uma mulher que fugida ao fim da Segunda Guerra Mundial, teria ido morar com parentes naquela região. Ninguém sabia de sua identidade. Havia chegado com poucos pertences – apenas roupas e aquele tapete cuidadosamente envolto em material que o protegia das intempéries. Ela foi mãe solteira que deixou a filha para que a madrinha cuidasse. Nada se falou sobre que trabalho realizava – talvez uma prostituta para nazistas.

Clara ficou atônita. Não revelou a inscrição encontrada.

Chegou rapidamente em casa, recolocou o tapete entre a cadeira de balanço e a lareira, posicionando a beirada roída de forma a não ser vista.

Várias dúvidas lhe pairavam: quem foi Maria Mandl? No que trabalhava? Onde morou? Ainda vivia? Quem eram seus descendentes? Pegou seu notebook e fez uma busca na internet. Ficou perplexa. Descobriu tratar-se de uma notória guarda feminina de alta patente da SS nazista, servindo no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia. Foi responsabilizada pela morte de aproximadamente quinhentas mil mulheres judias, ciganas e prisioneiras políticas. Ficou conhecida como A Besta...

As informações iam surgindo a cada página procurada  e algumas mulheres nazistas de campos de concentração e de extermínio foram associadas à pesquisa, culminando na descoberta de que peles humanas foram usadas para a confecção de diversos artefatos decorativos colecionados por oficiais seguidores de Hitler.

Foi até o tapete e analisou criteriosamente se a base da lã poderia ter algum indício de ser pele humana. Sentiu um tremor invadir seu corpo ao perceber que sim. Tratava-se de um delicado e bem preparado mosaico de peles humanas, bem selecionadas e com similaridade incontestável de tonalidade. Chorou copiosamente. Buscou uma explicação para essa escolha tão efêmera pelo tapete. Por que em meio a tantos objetos deveria ser este o que viria para suas mãos?

SIM! Este era, sem dúvida, o seu pior pesadelo. Aí estava a originalidade do seu estimado tapete.

As informações, entretanto, não eram exatas. Nas diversas páginas da internet não constava que Maria Mandl tivera descendentes.

Clara buscaria mais informações no dia seguinte. A partir daquele momento estaria concentrada em terminar o trabalho literário que havia começado e o encaminharia à editora. Pretendia se concentrar em uma nova pesquisa, mas sem pendências. Trabalhou ininterruptamente. Concentrou-se ao máximo e chegou à exaustão.

Quando se deitou na cama para dormir havia trabalhado pelo menos catorze horas, tomado um bule de chá e comido um pacote de biscoito. Dormiu rapidamente. De súbito e vinte minutos depois acordou de sobressalto.

Lembrou-se do pesadelo. Uma caixa de música tocava Madame Butterfly. Estava no mesmo cômodo que vira no pesadelo anterior. Era de propriedade de Maria Mandl. Ela a ouvia todas as noites, em solidão e com olhar triste, expressão terna, exatamente contrária à de “Besta”, como foi apelidada.

Clara foi à cozinha para tomar água, pois sentia uma sede insuportável. Lembrou-se de que a caixa de música que sua mãe havia comprado anos atrás no antiquário era muito similar. Correu ao antigo quarto da mãe e a encontrou sobre a cômoda. Abriu. Ouviu uma ária de Madame Butterfly. Ficou aterrorizada e a fechou com tanta força que acabou por quebrar a tampa. Notou que caiu dela uma foto. Era Maria e uma criança muito rosada.

No verso da foto havia uma espécie de dedicatória, escrita em alemão.

Não dormiu mais, esperando o dia amanhecer, pois tinha muito a fazer. Enviou seu trabalho à editora por email e colocou uma cópia impressa num envelope que despacharia pelo correio local. Colocou a caixa de música numa sacola e foi ao antiquário.

O antiquário, depois de duramente pressionado e solidário ao que ela estava passando, acabou confessando que conheceu Maria Mandl, com quem teve um breve relacionamento e uma filha. Nunca revelou a ninguém para proteger a menina dos nazistas e dos inimigos. A menina cresceu, casou-se e foi morar em Paris, onde estudou Artes. Nunca soube de sua verdadeira origem. Ele, como pai, manteve-se próximo da filha, mas não revelou sua identidade.
Ela retornou depois de alguns anos.

Ele a reconheceu imediatamente quando ela se interessou pela caixa de música que havia sido de sua mãe. Ela estava feliz, radiante por ter comprado uma casa em local tão lindo, calmo e onde havia passado sua infância. Ele não queria estragar tudo com um passado que só traria dor. Dois anos depois, ela adoeceu. Perdeu o juízo. O vizinho disse que falava sozinha, via coisas, se sentia perseguida. Ateou-se fogo e morreu.

Clara reconheceu nele seu avô. Nada revelou. Não havia laços afetivos entre eles. Foi embora dali muito perturbada, pois da mesma forma que sua mãe foi envolvida pela caixa musical, também ela foi envolvida pelo tapete pertencido a sua avó.

Naquela noite pensou muito sobre o pesadelo real que os prisioneiros dos campos de concentração e de extermínio teriam passado. Pensou em sua avó e como aquela imagem terna e maternal que teria visto na foto da caixa musical não condizia com aquele monstro retratado na biografia dela. Entre ela e sua avó havia uma similaridade. Ambas abandonaram a mesma pessoa. Será que sob as mesmas circunstâncias ela também seria capaz de dizimar milhares de vidas de forma sádica e impiedosa?

Levou o travesseiro e o edredom do quarto para o tapete da sala. Deitou-se e esperou para dormir sob efeito de todos os comprimidos do frasco de calmantes que sua mãe usava. 

* “Lieferung für Maria Mandl” – “Entrega para Maria Mandl”

Julia Gravalos Benini

julia.benini@hotmail.com

Estudante do segundo ano do ensino médio no Colégio Unidade Jardim, em Santo André-SP. Escrevo pequenos textos por hobby, apreciados por meus pais e amigos. Interesso-me por vários gêneros literários. Gosto de ler, estudar, pesquisar, História e Artes. Aprecio um olhar crítico sobre o que escrevo porque vejo como um recurso de aperfeiçoamento.

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