Café Literário: Cadê meu guru?




Acabo de ler Jamil Snege, pela primeira vez. Acabo de ler Viver é prejudicial à saúde. E de repente tudo fez sentido.

Quando li O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, há alguns anos e descobri que era uma autobiografia fiquei fascinado com a figura do guru que acendia lâmpadas pelo caminho do autor, esse era o tal do Jamil Snege.

É um tanto constrangedor ter de admitir que só ouvi falar do Turco, quando li a reportagem do Caderno Prosa (link: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/05/18/jamil-snege-uma-obra-sombra-497088.asp), e isso tem menos de um ano. O constrangimento encerra quando descubro que se trata de lençol freático, só a nascente está exposta, e onde menos esperamos. Pouca gente conhece Jamil Snege. Será?

Fazer a ligação entre ele e o guru do Tezza foi trabalho para o jornalista que escreveu a matéria. A partir dela comecei a procurar livros por todas as partes. Tudo esgotado. Há uma característica paradoxal em sua obra que me agrada muito: apesar de publicitário (dizem, de sucesso), Snege tratava seus livros como arte, jamais como produto. Suas publicações eram independentes e sua função era buscar o novo, sempre.

O que levou a família a um impasse a respeito do destino das publicações após sua morte. Modificar esse caráter puramente artístico vai de encontro à própria essência da obra. Por outro lado, há uma demanda significativa pelos livros do autor que é referência para dez em cada dez autores contemporâneos oriundos do sul do país.

Essa visão do artista sobre sua obra é atualmente considerada romântica – de um modo ou de outro, o livro deve ser visto como produto, segundo a maior parte dos agentes envolvidos em sua produção, desde o autor até o livreiro de hoje – mas encontra eco em algumas vozes importantes do cenário literário.

Cesar Aira, em uma de suas mais impressionantes observações sobre produção literária, trata de expurgar do livro a ideia de produto manufaturado: Nunca me interessaram as estratégias. Entrar nessas especulações equivale a deixar de escrever, e eu sempre quis continuar escrevendo. Eu me desvencilho do livro assim que ele é publicado e prefiro que o editor não faça nada por sua difusão. O melhor dos livros é sua discrição, sua paciência para esperar o leitor, ainda que isso demore muitos anos”. 

São autores como Aira e Snege que mantém aceso o piloto que queima no autor emergente. Não encabeçam listas de mais vendidos, não aparecem em revistas e complementos literários com frequência, não são convidados para entrevistas em programas televisivos e, voltando ao questionamento do terceiro parágrafo, são desconhecidos do grande público. Será?

Depois de quase desistir da busca, encontrei por acaso uma matéria que tratava da homenagem por ocasião dos dez anos da morte de Jamil Snege e, nessa reportagem, a informação de que seus herdeiros decidiram vender o estoque pessoal que ainda possuíam (link: http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?id=1448653&tit=Mais-500-chances-para-ler-o-turco-Jamil-Snege). Não tive dúvidas quanto à encomendar um exemplar. Mas qual deles? Encontrei uma referência que exterminou a dúvida. Segundo Joca Reiners Terron, Viver é prejudicial à saúde é uma das novelas mais perfeitas escritas em língua portuguesa nos últimos cinquenta anos, afirmação publicada no corpo da matéria que anuncia a venda dos exemplares.

Novela de setenta e sete páginas, folhas pequenas e letras grandes. Curta e forte, como uma dose do melhor uísque. Quem acompanha a literatura brasileira produzida nos últimos quinze anos percebe, antes de terminar a terceira página, que já leu Jamil Snege há muito tempo. Está impresso em tudo o que foi produzido pelos autores das gerações posteriores.

A narrativa concisa, justa, a primeira pessoa, a ironia, a autocrítica sincera e impiedosa (por isso a ironia), a personagem urbana, e você volta a pensar na ironia e relembra que ironia não é piada de salão, mas um importante recurso de linguagem, a relação da personagem com a cidade e com o cotidiano (há tempo para uma impensável e surpreendentemente adequada análise de Mamonas Assassinas), uma inquietante busca por romper a casca da palavra e extrair dela seu significado mais profundo, ideia essa expressa na própria obra (“Ah merda, se eu pudesse rasgar com as unhas a pele das palavras, romper seu invólucro acústico, liberar o feto coaxante que habita em seu bojo, ouvir suas imprecações de cartilagem e muco – um som que fosse a extrusão de membranas mal-formadas sobrenaturando o mundo...” Viver é prejudicial à saúde – Jamil Snege – pág. 65). 

Você nota, enfim, que está consumindo o Turco sem saber, faz um tempão. E entende que grandes autores não se definem por listas de venda, por exposição midiática. Grandes autores são lençol d’água, do qual encontramos apenas a mina que jorra pouca água aparente, mas que está por baixo irrigando terras e terras, por anos e anos.

Fernando de Abreu Barreto

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago).
Mantém o blog “O Nariz do Fernando”, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. A novela “A Forma da Sombra”, de sua autoria, será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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