Café Literário: Beijo


I
beijo

queimou meu cigarro e vou expelindo fumaça
como quem faz qualquer graça diante da câmera

hoje
eu queria que você estivesse longe, mas próxima

como um dedo que se põe a digitar
que digitasse, então, “quero-te”

é pouco, mas só posso te beijar
não posso concluir o amor pleno

vais mandar-me passear
e eu passeio mesmo

pois que no passeio
tudo pode acontecer

como eu posso te encontrar
num diamante raro

é claro
tu não vais me aceitar

eu não irei aceitar-te
pois és rara e não a mereço
pois és louca e não me mereces

II
touro

deixo meus poemas passados
para os anos vindouros

hoje
quero seu nome gravado em ouro

assim:
touro

quero seus lábios à espera de um poema
um conselho que se dá a quem pena

um desenho num velho moleskine
uma esquina à espera de um trottoir

um ar, um mar de ventos
espero, espavento

III
metade

chuva fúcsia
minúcia

deito-me em plumas
vejo-te em dunas

ouro escondido
diamante líquido

tarde
metade

não seremos inteiras
seremos metade



IV
malas

janela antiga
batendo madeira ao vento

luz bravia
morte ao relento

caça a fantasmas
que fritam gansos

as perdizes são tão nobres
por que deixá-las?

fumo encoberto
nutrícias núpcias

fogo aberto
malas

V
som

sois esfumaçados
dedos enrodilhados em cordas
música pós-contemporânea

lua ausente
chove
e ninguém sente dor

canções ao redor
como comer roedores?
dó de minerva

inocente
cumpre-se o destino
erva


Vivian de Moraes

Jornalista formada na Unesp de Bauru em 2008, trabalhei em periódicos diários, na Embrapa e no Sesc Araraquara.Tenho três livros publicados: "Sonetos Sombrios" e "Poemas e Canções", lançados na Unesp/ FCL Araraquara e no Sesc Araraquara no dia 4 de outubro de 2012, com tiragem de 200 exemplares cada; e "hacais/ vivian/ de moraes", lançado em outubro deste ano, com tiragem de 200 exemplares. Tenho um livro de contos chamado "Lesbos" e um livro de microcontos ilustrados, à procura de editora. Pretendo, ainda, escrever um livro de fundo autobiográfico sobre transtorno bipolar. Atibaiense, vivo atualmente em Araraquara/SP, onde estudo Letras (Francês) na Unesp. Em maio deste ano, a revista "Cult" publicou "Tesoura"(http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/tesoura/), poema de minha autoria, no espaço "Oficina Literária". Duas sequências de poemas meus também foram publicadas em novembro pela revista especializada online “Mallarmargens” (http://www.mallarmargens.com/2013/11/a-poesia-de-vivian-aurora-de-moraes.html).

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Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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