A Dama da Noite


Havia chovido o dia inteiro em Friburgo. Os relâmpagos cruzavam o céu como em uma demonstração da ira divina. Não que fosse muito comum Ele descarregar sua cólera, mas é que o mundo andava muito mal comportado. A tão famosa fonte da vida desabava fortemente fazendo as pessoas caminharem apressadas pelas ruas à procura de abrigo, os carros, na medida do possível. Em alguns lugares, a água invadira completamente as calçadas e, de certa forma, a soma disso tudo me ajudou bastante. Sou taxista e, até aquele momento, havia feito inúmeras viagens com os pedestres pegos desprevenidos pela chuva, faturando uma boa grana. 

Já era quase meia noite e eu estava tão cansado que não pensava em outra coisa senão voltar para casa, tomar um banho quente, beber um pouco de café forte e deitar em minha tão confortável cama.

Saí do centro da cidade com certa facilidade. Àquela hora o trânsito já estava bem melhor, mas como todo bom apressado, procurei o primeiro atalho. Taxistas têm essa vantagem sobre os cidadãos comuns: conhecem todas as ruas possíveis e imagináveis do lugar, tornando rápido (ou lento) qualquer trajeto.

A rua era deserta e sem iluminação. Não havia casas, nem bares. Apenas árvores, arbustos e algumas sempre-vivas que mesmo à noite, coloriam as calçadas sem cimento, ao serem iluminadas pelo clarão de meus faróis. Da estrada podia-se avistar um barranco, não muito íngreme, terminando em um rio, que serpenteava, acompanhando-me. 

Após uma curva fechada, vi alguém parado à beira da pista e decidi encostar o carro. Seria meu último passageiro. No meu caso, pessoas são dinheiro, e eu não estava em condições de dispensar ninguém.

– Está precisando de ajuda? – perguntei após acender a luz do salão, me inclinando na direção da janela do carona.

– Sim... – respondeu com uma voz fininha e sem força. Era uma mulher. Tinha os cabelos molhados e caídos sobre o rosto, e sua cabeça estava levemente inclinada para baixo.

– Entre no carro! – pedi com um sorriso e ela atendeu prontamente. Até porque ela não podia desperdiçar uma chance dessas. Dera uma tremenda sorte em eu ter passado por ali. Muita sorte mesmo.

– Obrigada... – agradeceu ela sem vigor.

– Mas você está toda molhada! – observei ainda com a luz do salão acesa. 

Tive um ímpeto de tirar seus cabelos do rosto com os dedos, mas acho que ela não gostou muito da ideia e ao perceber isso, ela mesma o fez. É claro que pude observar outras coisas naquele minuto em que a luz ainda estava acesa. A moça aparentava uns vinte e três anos, apesar de suas sardas darem a ela feições infantis. Talvez tivesse um metro e sessenta. Seus cabelos eram negros, na altura dos ombros, mas podiam ter outra cor, pois estavam inteiramente molhados e não se podia distinguir perfeitamente. Usava um belo vestido vermelho cereja, que estava colado ao corpo pelo efeito da água. Tinha a pele branquíssima, coxas grossas e seios pequenos e firmes. 

– Não sente frio? – perguntei ao apagar a luz.

– Não... – disse ela calmamente ao me olhar pela primeira vez diretamente nos olhos. Havia algo neles que não pude distinguir claramente no momento, mas que me deixaram profundamente impressionado, numa sensação de quase torpor.

–Onde quer que eu a leve? Fique despreocupada, não vou lhe cobrar nada. Acredito que esteja com problemas, e estou disposto a ajudá-la.

– Obrigada mais uma vez. O senhor é muito gentil...

– Não precisa me chamar de senhor – disse arrancando com o carro. Já dormi com várias clientes minhas, mas ela... Ela era diferente. Tentei ser o mais cortês possível, como em nenhuma outra ocasião.

– Desculpe-me – disse ela com a mão na cabeça e cerrando os olhos, parecendo um pouco confusa. – Leve-me até o cemitério...

Estranhei, mas não pedi que ela confirmasse. A necrópole ficava próxima ao centro e havia muitos prédios de apartamentos por lá. Podia ser também que ela quisesse fazer algum tipo de culto religioso e nesse tipo de coisa eu nunca gostei de opinar.

– Aquela rua era muito perigosa para uma moça linda como você estar a essa hora. O que aconteceu? – perguntei.

– Eu estava indo para uma festa com uns amigos, mas... não deu... – balbuciou cabisbaixa.

Provavelmente brigou com o namorado a caminho da festa. Deve estar carente... Da parte dele, acho que foi muito irresponsável tê-la largado naquela estrada. Era um pulha!

Passei pelo caminho mais longo até o destino, para ganhar tempo, é evidente, embora um taxista nunca deva se atrasar. O cliente sempre em primeiro lugar! Porém ela se mostrava abstrata, e seu olhar e suas feições eram inexpressivos.

– Obrigada... – murmurou secamente ao abrir a porta do carro, logo após eu pará-lo.

– Hei! Não vai me dar ao menos seu telefone? – disse ao segurar sua mão.

– Não faça isso! – advertiu ela, chorosa, dando-me as costas em seguida.

Estava começando a achá-la muito esquisita, mas mesmo assim preferi aguardar. Podia ser que depois de feitas suas orações ela necessitasse de alguém para levá-la definitivamente para casa, e esse alguém é claro que seria eu. Fiquei a olhando caminhar na direção do cemitério, sem parar nem um momento. Foi quando meus músculos enrijeceram, no momento que fui tomado por um frio intenso, que me subia dos pés a cabeça, acompanhado de tremor e calafrios. A minha dama havia atravessado os portões fechados da necrópole sem ao menos tocá-lo, parecendo uma névoa evanescente. Meti a mão na ignição, virando a chave, desesperadamente, consecutivas vezes, mas o desgraçado do Chevette insistia em não pegar!

– Deus do Céu! - exclamei, já com a intenção de abandonar o carro e correr. Foi na última tentativa que o táxi ligou e saí em disparada, cantando pneus. Enquanto dirigia, ainda trêmulo e ofegante, sob o efeito do susto, fui ligando os fatos. Quando peguei a moça, apesar de ter chovido o dia inteiro, fazia horas que não caía uma só gota d'água e, no entanto, ela estava completamente molhada. No caminho ela disse que ia para uma festa, mas não pode ir, sem contudo justificar. Ao sair, toquei em sua mão e ela estava gelada, tal qual uma pedra de mármore. Lembrei-me então que há alguns anos um grupo de jovens acidentou-se naquela estrada. O motorista, em princípio embriagado, perdera o controle do veículo, que desceu o barranco, caindo emborcado no rio. Todos morreram.

Esta noite eu não consegui dormir, perturbado com o encontro que tive. Relembrava cada momento, cada frase, e, principalmente, cada detalhe daquela mulher, e, depois desse dia, eu não me interessei por quaisquer clientes, por mais belas que fossem. Eu não conseguia - e nem queria  tirar aquela moça da cabeça. Aqueles olhos, parecendo perdidos, o corpo perfeito e a pele fria, macia e suave ao toque, eram as únicas coisas em que eu pensava o tempo todo. E por mais que eu voltasse ao mesmo lugar, à mesma hora, nunca mais a vi, exceto em meus sonhos, onde está mais linda do que nunca, com um sorriso resplandecente e cabelos que esvoaçam com uma leve brisa.

Vez ou outra, sinto o mesmo perfume que senti naquela ocasião, um cheiro doce e calmante e tenho a impressão que ela está por perto. Nessas horas eu lamento por não saber ao menos seu nome, e por isso eu a chamo de Dama da Noite. Então eu choro feito um lobo que uiva ao luar, como se quisesse trazer a própria lua para perto de si. Nosso encontro não deveria ter sido àquela noite. É que eu cheguei tarde demais...

George dos Santos Pacheco

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