Eu vim do futuro


Eu vim do futuro. Por favor, não se assuste! Eu sei que isso tudo é muito fantástico, mas você precisa acreditar em mim! O que eu tenho para falar é muito importante e... não, não me pergunte nada. Odeio ser interrompido quando estou falando. Então vamos começar tudo de novo, está bem?

Eu vim do futuro. As coisas não mudaram muito – pelo menos não é do jeito que vocês pensaram que seria. Os carros não voam, e não temos robôs como empregados em nossas residências. Mas nossas casas são muito mais interativas: comandos por voz, reconhecimento de temperatura corporal, trancas programadas com leitura digital... não sei como viveram tanto tempo sem isso. Os aparelhos celulares fazem praticamente tudo, e o dinheiro físico já não existe mais, tudo é eletrônico. Assim, precisamos da internet como da água e da luz. Sem ela, o mundo entraria em colapso. 

Não temos chips colocados sob a pele, até porque, há muitas outras formas de nos controlar, mais sutis, discretas e eficientes. Estai atentos, pois estes mecanismos de controle estão sendo implantados já em sua época – e há muito tempo, e vocês nem se dão conta disso.

Eu vim do futuro. Está bem, não vou repetir mais isso. E não me interrompa outra vez, eu já pedi isso, poxa! Ainda se morre de fome e na guerra. O crescimento populacional não se estabilizou e precisamos cada vez mais de espaço e os países lutam por área e petróleo. O lixo é outro incômodo. Por isso, no chamado primeiro mundo, ele é compactado e embarcado em foguetes que os descarta no espaço.

Crimes ainda existem, apesar da onipresença invisível do governo. Seus agentes estão em todo lugar, mas não sabemos quem são, os olhos do governo estão em nossos em-pregos e nas redes sociais. O tráfico de drogas agora é mais caro, os tóxicos são nano robôs desenvolvidos e programados para provocarem as mesmas reações que os tóxicos do passado – e causam tão ou mais mortes do que antes.

Os jogos nos estádios ainda acontecem, mas para evitar confusões e mortes, é proibido assisti-los nas arquibancadas, são transmitidos via internet. A vida em sociedade sempre foi difícil. Eu sei, pouco ou nada mudou. Mas não se desespere, é preciso saber. A cura foi encontrada, apesar de poucos conseguirem comprá-la.

Entendo, não é possível viajar no tempo. Nossos corpos se desintegrariam, muitos acidentes aconteceram durante as pesquisas. Mas já conseguimos transportar informação, o que talvez seja mais importante. Ela não se fragmenta, e informação é conhecimento, e conhecimento é progresso. Por isso estou aqui. O futuro poderá ser bem melhor, e só depende de você.

Os homens ainda sonham, e sonhos se realizam. Basta querer. Persevere, mesmo parecendo tão distante, mesmo parecendo impossível como uma viagem no tempo. Lute por algo melhor, e se não puder mudar nada, tente mudar a si mesmo. Tanto os erros, como os acertos de minha época são fruto do trabalho de vocês. Pense nisso. Quem sabe assim, em algum tempo, não poderemos voltar e abraçar nossos queridos que já se foram? Quem sabe assim, um dia, deixaremos de ser controlados? Quem sabe extinguimos os crimes, as guerras e as mortes?

Não poderei me estender mais, meu tempo está acabando. Fique em paz, foi bom falar contigo. E não se esqueça: tudo que você fizer aí, terá complicações aqui, nesta geração. Por isso, escolha bem, pense bem no que vai fazer. E viva, e sonhe e acredite. Porque o futuro é feito de sonhos.

George dos Santos Pacheco

* Publicado na Revista Êxito Rio, em 10/01/2014. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.