Café Literário: Uma otome em minha vida


Carlos Hideki Watanabe é descendente japonês. Seu pai Yusuke Watanabe conheceu e apaixonou-se pela adorável Ana Clara Barbosa, numa viagem que fez ao Rio de Janeiro. Moravam na Tijuca, mas se mudaram para um condomínio em Copacabana. No primeiro dia de mudança, Carlos Hideki foi dar uma volta no condomínio para conhecer. Ao chegar numa lanchonete, viu uma garota de cabelos pretos e luzes rosa, um estilo de skatista, era diferente. Aproximou-se dela.
 
- Oi, desculpe por te incomodar, mas eu sou novo aqui e eu gostaria de uma informação.

- Oi, oi. Relaxa, não está incomodando. O que você quer saber?

- Ham, aqui tem quadra de basquete? Onde fica?

- Ah você joga basquete?

- Pode-se dizer que sim.

- Legal. Também você é alto, eu devia ter deduzido que jogas basquete. Você mede quanto?

 - 1,75.

- Uau! Enquanto eu estou 15 cm abaixo de você. Mas e daí? Eu também jogo basquete e não sou tão ruim.

- Hum interessante. Qualquer dia aí, marcaremos um treino.

- Claro! Adorei a ideia. Você mora no Brasil há quanto tempo? Seu português é muito bom.

- Obrigado, mas eu nasci aqui no Rio, também sou um carioca.

- Sério?! Pensei que você fosse japonês.

- Bom, eu sou descendente. Meu pai é japonês.

- Ah que legal! Eu me amarro na cultura nipônica, sou uma otome assumida. Mas acho que isso é perceptível. Xiii..., estou atrasada, tenho que trabalhar. Depois conversamos mais, tchau.

Antes que Carlos pudesse responder, a garota já tinha corrido porta a fora. Mas ele ficou encantado por aquela garota, que ainda não sabia o nome. Hideki continuou conhecendo o local, mas com a expectativa de se esbarrar naquela garota. No dia seguinte, Ana Clara pediu ao filho para comprar açúcar e ovos na mercearia do senhor Lelê. Ao chegar lá, ele teve uma grande surpresa, a garota que ele tanto queria rever, trabalhava no estabelecimento.

- Boa tarde!

- Boa... oh, você é o garoto de ontem!

- Sim, sou eu. Qual seu nome?

- Pam.

- Pam?

- Na verdade é Pâmela, mas eu gosto que me chamem de Pam, que nem a Pam de Dragon Ball GT.

- Ah entendi. Nossa que prestígio o meu! Estou conversando com a neta de Goku.
Risos.

- E o seu nome?

- Carlos Hideki.

- Hideki, o que significa?

- Árvore Maravilhosa.

- Que legal. Vou te chamar de árvore maravilhosa agora. (Risos). Brincadeira.

- Ai minhas costas.

- Senhor Lelê, o senhor foi pegar aquelas caixas pesadas de novo?

- Oh minha filha, fazer o quê? Os produtos precisam ser colocados nas prateleiras. Você não pode pegar as caixas sozinhas, são muito pesadas.

- Eu sou bem forte.

- Eu sei, mas é peso demais para você. Eu vou colocar um anúncio, informando que precisamos de um ajudante. 

Hideki achou aquela oportunidade perfeita, poderia passar mais tempo ao lado de Pam.

- Não precisa colocar um anúncio senhor Lelê, eu me candidato para a vaga.

- E você quem é?

- Carlos Hideki Watanabe. Mudei-me ontem para este condomínio e adoraria trabalhar no seu estabelecimento.

- Hum, você tem uma boa altura e é forte também. Tudo bem, vamos ver se você dar conta do recado, vai ficar por experiência durante um mês.

- Êêêêh! Huuh!

- O que é isso menina? Surtou de vez foi?

- Foi mal. Mas, eu não pude conter minha empolgação, o Hideki é um cara legal, e o melhor de tudo ELE É DESCENDENTE JAPONÊS!

- Eu mereço. Então rapaz, está tudo certo, você começa amanhã.

- Sim senhor. Ah, só tem um problema, eu estudo pela manhã, então só poderia trabalhar à tarde.

- Não tem problema.

- Obrigado senhor Lelê.

Hideki pegou as coisas para sua mãe e foi contar a novidade para seus pais. O senhor Watanabe ficou orgulhoso do filho, já estava tornando-se um homem. Logo poderia ter seu próprio negócio. Carlos sabia o quão importante era pro seu pai saber que seu filho já tem um emprego. Ele não podia decepciona-lo. Na manhã seguinte, quando Hideki voltava do colégio, viu que estava acontecendo uma feira otaku, vários produtos de anime e mangás sendo vendidos na praça. Ele resolveu dar uma passada por lá, enquanto comprava um mangá viu Pam a sua direita.

- Hey Pam!

- Hideki-kun!

- Como você está?

- Estou muito bem e você? Está ansioso para o trabalho hoje?

- Bastante ansioso. E você fazendo compras?

- Sim, eu comprei um leque estampado com templos, uma faixa de cabelo do hamtaro e um porta CD do Goku na nuvem voadora. 

- Muitas coisas. Eu só comprei este mangá. Eu devia ter imaginado que você estava por aqui.

Eles foram andando e conversando para o condomínio.

- Claro, eu não poderia perder essa oportunidade. Por aqui quase não tem esse tipo de coisa, em São Paulo que deve ser bem legal, já que lá tem muitos japoneses. Por que existe uma grande concentração de japoneses lá?

- O Kasato Maru é considerado pela historiografia, o primeiro navio de imigrantes japoneses a chegar ao Brasil, em 1908. Os primeiros imigrantes estabeleceram colônia aqui no Rio, mas não teve êxito e essa colônia durou apenas os cinco anos do contrato. Em 1910, chegou em Santos o segundo navio Ryojun Maru. Os imigrantes vieram com a expectativa de enriquecer no Brasil, mas isso foi um sonho inalcançável, porque além do salário ser baixo, o valor da passagem foi descontado no próprio. Os japoneses eram obrigados a viver nas fazendas e consumir os produtos do armazém do fazendeiro, por isso, não conseguiriam enriquecer tão rapidamente, como almejavam. Entretanto, os imigrantes fizeram um sistema de parceria com fazendeiros locais, e em 1911, muitos japoneses conseguiram comprar seus primeiros pedaços de terras, e assim, as colônias tornaram-se fixa e existem até hoje.

- Eu sempre gostei, mas nunca me atentei para a história. Mas é muito interessante. Quais as contribuições da cultura nipônica para o Brasil?

- Ah são muitas. As mais conhecidas e difundidas no Brasil foram culinária e mangás.

- E animes.

- No Japão, qualquer tipo de desenho animado é considerado anime. Aqui no Brasil, só são considerados animes as animações japonesas. Mas, não deixa de ser uma contribuição. 

- Sério? Passaram a minha cara à ferro. Mas os mangás são quadrinhos em japonês mesmo né?! 

- Sim. O mangá é muito valorizado, não só pelos adolescentes, mas pelos adultos também. Não imagino o Japão sem mangá. Você sabe o contexto histórico do mangá?

- Não, mas gostaria de saber.

- O termo mangá se originou com o trabalho do artista Katsushika Hokusai, que criou o Hokusai Manga, uma série de livros com ilustrações em 15 volumes. O Hokusai Manga consistia em representações dos movimentos do corpo humano e movimentos musculares, além de narrativas e cômicas retratando a vida cotidiana. Na verdade, o cotidiano das pessoas é representado até hoje nos quadrinhos. Enfim, o mangá só ganhou espaço na cultura em meados do século XIX, quando ocorreu a Restauração Meiji, ou seja, os senhores feudais perderam a autonomia e o Japão voltou a ser comandado por um único imperador. Que abriu as portas para ocidente, possibilitando a importação de material artístico europeu. Mas vale ressaltar, que apesar de ter sofrido influências europeias, os traços ilustrativos presentes nos mangás, são japoneses.

- Fiu fiu. Quanto conhecimento! Estou muito surpresa.

- É obrigação que os japoneses e seus descendentes tenham conhecimento sobre a história do seu país e dos seus antepassados. Aliás, deveria ser obrigação de todos os habitantes terem conhecimento do seu país de origem.

 - Verdade. Eu mesma nem sei direito o que aconteceu no Brasil. Mas continuando “no Japão”. Na sua tradição também existem ritos de passagem?

- Sim. Nós homens quando adquirimos a maior idade, temos que entrar pelados numa água gelada, tipo um rio. 

- Por quê?

- Eu não sei bem o motivo desse ritual, eu vou passar por isso ano que vem.

- Acho que você não quer passar por isso, é mico demais.

- Eu não acho que seja mico. É divertido. Mas, eu quero passar por isso, porque é importante, faz parte da nossa tradição.

- E os jovens seguem a risca as tradições?

- Sim, todos seguem. Porque seria um desrespeito com nossos antepassados, eles seguiram, então temos a obrigação de fazer o mesmo. E ao contrário dos brasileiros, nós valorizamos os idosos, eles são poços de sabedoria. 

- Eu admiro isso na cultura de vocês, seria tão bom se aqui os velhos fossem valorizados. Se bem que, às vezes, eles são um “pé no saco”. Tem dias que o senhor Lelê está insuportável.

- Pare para conversar com ele, escute as suas histórias, com certeza você vai absorver algo para seu cotidiano.

- Quem sabe. Mas conta aí outros pontos que se diferem da nossa cultura.

- Nós gostamos de trabalhar. Porque nós fazemos o que nos agrada. O homem começa a trabalhar desde jovem, pois assim, vai adquirindo experiência e responsabilidade, para um dia abrir seu próprio negócio e saber conduzi-lo. Meu pai está orgulhoso de mim e eu estou feliz por isso.

- Por isso, você quis trabalhar na mercearia.

- É, isso foi um dos motivos. 

- Um dos? E qual foi o outro?

- Não vem ao caso agora. Mas continuando, existem outras diferenças, uma delas é a hora da refeição. Nós sentimos prazer em comer, degustamos a comida pelo seu aspecto e sabor. Por isso, não comemos e bebemos ao mesmo tempo. A bebida tira o gosto da comida.

- Eu não me imagino comendo um hambúrguer sem refrigerante. Eu ficaria entalada.

- Mas você come depressa né?!

- Sim, ninguém demora mais de 5 minutos para comer um hambúrguer.
Risos.

- Aí está a chave. Como apreciamos o que comemos então, isso acontece vagarosamente e não corremos o risco de ficarmos entalados.

- Uau! Essa conversa hoje foi demais, aprendi muitas coisas sobre o Japão, eu sempre gostei por causa dos animes e tal, mas eu não tinha ideia da sua história ou dos seus costumes. Pra mim, era só comer com hashi e pronto. Mas infelizmente, temos que trabalhar e não podemos ficar conversando.

- Ah, não faça essa carinha de triste. Você vai ver, vamos nos divertir muito hoje. E senhor Lelê não gosta de conversinhas porque ele fica de fora, mas hoje vamos dar espaço para incluí-lo. E vamos ouvir o que ele tem a dizer.

- Ah que animador, só que não.

A tarde foi tranquila, não teve muito movimento. Hideki perguntou muitas coisas ao senhor Lelê e ele contou muitas histórias da sua vida. Pam ficou surpresa porque ela se divertiu. Senhor Lelê tem muitas histórias, umas engraçadas, outras românticas. Ela nunca tinha presenciado aquele clima humorado e harmônico na mercearia, seu chefe quase sempre estava estressado, mas o que ele precisava mesmo era de atenção. No fim do expediente, Pam ficou pensando no seu dia de trabalho e em Hideki, aquele garoto mexia com seus sentimentos, ele era do tipo de pessoa que levava consigo uma alegria, uma energia positiva, ela sentia-se bem com ele. No dia seguinte, após o expediente de trabalho.

- Hideki, amanhã é sábado, a mercearia fecha 12 horas. Eu estive pensando e amanhã de tarde poderíamos jogar basquete, o que você acha?

- Eu acho que vai ser muito divertido. 

No sábado após o almoço, Hideki teve que ir à casa de sua tia levar uma encomenda e na volta, passou em frente a uma loja de bijuterias e viu uma correntinha de prata com o pingente do símbolo do amor em japonês. Nem pensou duas vezes e comprou para Pam. Às 15 horas foi para quadra, como o combinado. Chegando lá, foi surpreendido.

- Desculpe o atraso, eu tive que ir à casa de minha tia levar umas coisas.

- Tudo bem, você nem está tão atrasado, foram apenas 5 minutos a mais. Na lojinha daqui do condomínio, eu encontrei essa munhequeira do Death Note e comprei para você. Eu sei que você gosta.

- Oh obrigado. Eu pretendia entregar depois, mas esse é o momento certo. Eu comprei para você quando estava voltando da casa de minha tia.

- O que é isso?

- Abra e veja.

- Oh que lindo! Mas esse símbolo é o que? Digo, o que significa?

- Pam, desde o dia que te vi ali naquela lanchonete, eu gostei de você. Quando conversamos, eu fico te olhando todo o tempo, porque acho fascinante o seu jeito de falar, de andar, enfim eu gosto de você. E por isso, eu comprei a corrente com o símbolo do amor para te dar de presente. Você aceita ser minha namorada?

- Ah Hideki-kun, eu sempre tive um fascínio por garotos altos e pela cultura nipônica, então quando te conheci, fiquei logo encantada. E quanto a ser namorada, bem só se eu tivesse muito louca para não aceitar o pedido. Claro que aceito! 

Hideki sorriu e beijou Pam. Senhor e senhora Watanabe adoraram conhecer Pâmela, eles a acharam energética, tinham certeza que ela faria o seu filho feliz. Nas férias de fim de ano, a família Watanabe levou Pam para conhecer o Japão, ela ficou maravilhada com aquele país tão bonito e tão rico. Cada minuto era precioso, pois aprendia mais sobre aquela cultura, que tanto lhe chamava atenção. Ela só ficou um pouco triste, porque não contemplou a beleza extraordinária das flores Sakura. Pam e Hideki estavam felizes, eram considerados um casal “kawaii”.


Luana Araújo

Meu nome é Luana Araújo, tenho 24 anos e eu escrevo contos. ‘Uma otome em minha vida’ é um conto que traz as relações culturais entre Brasil e Japão.

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