O bom homem


Certo dia, ao sair de casa para o trabalho, deparei-me com ele sentado à calçada, praticamente em frente ao meu portão. Estava sujo, com fome e frio. Decrépito.  Eu estava bem vestido, terno e gravata, sapato engraxado e maleta nas mãos. Possuía um bom emprego, mulher, filhos e uma casa. Assustando-me com o que vira, parei e fitei-o. Ele me encarou com os olhos úmidos e suplicantes, no entanto, sua boca não emitiu som algum. A minha também não, mas, subitamente, senti meu corpo e alma serem tomados por uma compaixão que raras vezes me assalta.

Retornei à minha casa – não podia seguir em frente sem fazer nada, ao menos um prato de comida eu podia e deveria lhe dar. Preparei-o rapidamente, com alguma coisa que possuía nas panelas ainda mornas sobre o fogão. Saí, ofereci o prato e observei-o. De igual maneira, ele me observou, movendo os olhos lacrimosos e inexpressivos de mim para o prato, e tornando a olhar para a comida, fartou-se do alimento. Afinal, não sabia quando seria a próxima vez. Dei dois tapinhas em sua cabeça e ele sorriu abanando o rabo. Despedi-me do cão e parti para meu trabalho com o doce sabor do dever cumprido.

Se humanizamos demais os animais, ou se invisibilizamos aqueles para os quais a vida recusou a dignidade, é porque o animal em nós rosna mais alto. A humanidade depende do nível adequado de razão e instinto. Este último, por ser mais denso, exige uma quantidade maior do primeiro, para um perfeito equilíbrio. Só assim, o homem pode tornar-se, de fato, humano.

George dos Santos Pacheco

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