John Murray e a Cidade Maldita


As luzes da cidade, trêmulas e fracas já se faziam ver à distância, apesar do nevoeiro que a cobria. Uma névoa displicente e fora do comum, afinal, anoitecera apenas há uma hora. John cavalgava há dias pelo deserto, dormindo em abrigos formados pelas rochas vermelhas, aquecido por fogueiras. Já podia sentir o cheiro doce das mulheres e o sabor forte do uísque... Uma cidade enfim. Um lugar decente para dormir.

Uma placa indicava uma tal de Cursed City, com letras estranhas e disformes. Nunca ouvira falar dela. O pistoleiro estava a caminho de Los Angeles, onde esperava embarcar em uma linha regular da Ocean Pacific. A máquina com destino a capital constava de um carrega-mento de ouro, fortemente vigiado, além de vagões de passageiros. A pedra dourada que jamais perde seu valor. Bastavam apenas alguns tijolos para John considerar-se um milionário. Esse era o sonho de qualquer vagabundo naquelas paragens, mas era demasiado perigoso para um homem só. Além da vigilância, poderia haver outros pistoleiros interessados naquela fortuna. Muitos haviam tentado e morreram. Mas a morte, a pior das hipóteses, não era motivo de medo para John. Nada era. As autoridades o conheciam como John Murray, o homem sem medo e em muitas cidades e vilas existiam cartazes espalhados, oferecendo uma boa recompensa em dinheiro pela sua cabeça, e por esse motivo, outros mercenários estavam em seu encalço. O ouro garantiria seu sumiço por uns tempos, ou até que eles o esquecessem.

O pistoleiro já estava bem próximo da entrada da cidade. John tinha estatura mediana, os olhos fundos, irônicos e belicosos, a barba por fazer e cabelos nos ombros. Usava camisa de botões, e calças jeans surradas, assim como o, sobretudo negro de feltro que o cobria, e o cha-péu de couro. Em sua cinta estavam dois Colt calibre 45, seu revólver favorito. Dificilmente ele errava algum alvo com suas meninas.

O silêncio era pungente, quebrado apenas pelo som do vento atravessando as folhagens. Estava absorto em seus pensamentos, nas mulheres, nas bebidas, em seu ouro, quando se deteve ao perceber um vulto negro, parecendo fervilhar, aumentando de tamanho rapidamente, em meio a um som estridente e que se aproximava em velocidade. O vulto negro era um enxame de morcegos que o derrubaram do cavalo, que fugiu a galope, assustado.

– Merda! – esbravejou John, ao bater de costas no chão. Os morcegos haviam se afastado, assim como Saturno, seu cavalo. Pareciam fugir de algo, mas do quê, afinal? Agora, teria de conseguir outro. Levantou-se, bateu o pó, e continuou o caminho a pé, não havia outro jeito mesmo.

Sacou suas armas, puxando o cão, ao perceber algo igualmente estranho. Corpos e mais corpos, devorados por ratos, uns completamente dilacerados, outros inteiros, parecendo apenas dormir. Homens, mulheres e crianças. Dezenas deles. Verdadeiramente, algo muito estranho estava acontecendo em Cursed City.

Caminhava observando aqueles corpos, atento ao mais ínfimo ruído. Pode ouvir então uma gargalhada escarnecedora, sarcástica, que aumentava de intensidade cada vez mais. Uma figura estranha começou a se projetar na escuridão, e a névoa já não era suficiente para escon-dê-lo. Um homem desfigurado, de pé, tendo cabeça e braços pendentes de forma bizarra, levantou a face exibindo um olhar demoníaco e em seu rosto não havia nem sinal de pele alguma.

– Ei, forasteiro! Conhece o caminho do inferno? – perguntou a criatura, quando já se lançava sobre John, com os dentes e unhas afiadas.

– Não sei o caminho, mas se quiser um atalho... – respondeu o pistoleiro ao estourar a cabeça do monstro, com uma cuspida de suas meninas, jogando uma lama preta e fétida no ar.

Girou sobre sues calcanhares, empunhando as armas e procurando por mais uma criatura. Silêncio total. A cidade estava inteiramente deserta, as construções em sua maioria feitas de madeira, estavam destruídas e sem iluminação, os vidros das janelas quebrados e parecia não haver vida ali há muito tempo. Apenas por um lugar. Gargalhadas inebriadas vinham do Salo-on, misturadas ao som da música e todo tipo de impropérios. Pelo menos um lugar ali parecia normal. Guardou suas armas e dirigiu-se para o bar, com a boca salivando por bebida, seu cor-po sendo tomado pela luxúria e voluptuosidade evocadas pelas vozes das mulheres, que já po-dia ouvir.

Entrou no bar apreensivo, porém. Os últimos acontecimentos o deixaram alerta, com aquela estranha sensação de perigo eminente. Os homens nem o notaram, alguns com damas no colo, outros apenas bebendo; outros ainda, discutiam durante o carteado. Durante a confu-são na mesa do jogo, ouviu o nome Billy Monstrengo. Quem afinal poderia ser conhecido por uma alcunha dessas? Percebeu um homem circulando no salão com uma enorme corcunda, e o rosto aparentemente deformado, passando por entre algumas mulheres que dançavam e mos-travam bem mais carne do que as dançarinas das terras do norte. John se aproximou do balcão.

– Uísque... – pediu ele, sendo atendido em pouco tempo. As mulheres abraçaram-no, rindo, beijando-lhe o pescoço e entre elas mesmas. O pistoleiro levou o copo à boca, a bebida era grossa e seu sabor e cheiro fortes amargaram sua língua e teve rapidamente de cuspir. O copo estava repleto de sangue podre, o balcão dominado por vermes que rastejavam pela ma-deira. Não havia luz alguma no bar e os homens e mulheres eram como a criatura que matara na entrada de Cursed City. Sentia o hálito funesto das mulheres que gemiam e agarravam-no com força, e os homens se aproximavam brigando entre si como cães em busca da carniça.

John livrou-se rapidamente das mulheres, antes atraentes, mas agora, com o aspecto demoníaco, os olhos inteiramente negros, a pele coberta de chagas pútridas e recuando, sacou suas armas. Estava sendo cercado por todos os lados. Afastava-se para a porta e na ameaça de um ataque, abriu fogo sobre as criaturas, que se despedaçavam facilmente, com gritos horren-dos.

Conseguiu abrir um clarão entre os monstros e correu para a porta e uma das criaturas saltou sobre suas costas, com a habilidade de uma aranha. O pistoleiro tentava livrar-se dela de todas as formas e ela tencionava morder-lhe o pescoço com dentes afiadíssimos.

Saíram do saloon aos tropeços e John jogou as costas contra a peça de madeira que sustentava o telhado da varanda na entrada, desvencilhando-se finalmente, não sem antes ter o peito rasgado pelas unhas negras do monstro, gritando de dor. Virou-se na direção da criatura e explodiu sua cabeça com um disparo de sua menina.

Correu ofegante pela rua principal, procurando um abrigo. A cidade estava infestada daquelas criaturas, e amenos que não quisesse se tornar a próxima refeição delas, tinha que escon-der-se o mais rápido possível. Foi até um dos prédios do vilarejo e forçou a porta. Estava tran-cada. Atirou na fechadura e abriu-a, deparando-se com um salão bem iluminado e pessoas ajoe-lhadas, como numa assembléia, tendo um homem de pé no centro delas. A edificação parecia não terminada, mas era um ótimo lugar para abrigar-se. O horror foi generalizado, mulheres e crianças gritaram ao ver aquele homem rude apontando as armas em sua direção.

- Baixe essas armas, meu filho! - preveniu o homem de manto negro e clerigman. Era um senhor moreno, com os ralos cabelos inteiramente brancos.

- Criaturas do inferno! - esbravejou John, puxando o cão para trás. Enquanto isso, al-guns homens tornaram a fechar a porta, improvisando uma barreira com um dos bancos de madeira, e outros se aproximavam para desarmá-lo.

- Mais respeito na casa do Senhor! - repreendeu o velho ao se aproximar. O pistoleiro estava assustado, apreensivo, ofegante e confuso. Suas vistas escureceram, seus braços pesaram e baixou as armas contra a vontade, caindo em seguida.

Quando abriu os olhos, com um esforço titânico, estava deitado ao colo de uma bela moça, que cuidava de sua ferida no peito com extremo zelo. A dor era lancinante, queimava como brasa, deixando-o num estado de torpor, sentindo seus membros inteiramente relaxados.

- Você é um anjo? - sussurrou para a moça. Sua pele era pálida, macia e suave, e possuía um leve cheiro de alfazema. Seus olhos eram cinzentos e amendoados, que irradiavam uma paz intensa e seus cabelos finos e loiros, num tom quase ferrugem, completavam o cenário angeli-cal.

- Não, sou uma simples enfermeira... - disse num sorriso sereno, enquanto molhava um pano, fazendo compressa sobre a ferida.

- Argh! O que é isso? - reclamou ele.

- Água benta. Fique tranquilo, você vai ficar bem... - respondeu.

- Não. Eu já estou bem. - disse levantando-se rapidamente, com certa brutalidade, mas curvou-se sentindo uma forte pontada no peito. Estava tonto, mas conteve-se. Olhou com es-tupor para a ferida, ela estava quase que cicatrizada. Lembrou-se então dos corpos no caminho, dos morcegos em fuga e das criaturas... - Alguém pode me fazer o favor de explicar o que está acontecendo?

- É o Apocalipse, meu filho, o fim dos tempos! - respondeu o padre, que estava o tempo todo ao seu lado. A assembléia mantinha-se em razoável silêncio, a maioria das pessoas sussur-rava suas preces, as crianças choramingavam e os homens o olhavam com desconfiança.

- Não o compreendo, vigário... - disse sem olhá-lo, pegando seu chapéu com a enfermeira.

- Certo dia, um bando de arruaceiros que se intitulavam Garotos Perdidos, entraram na cidade arrastando com seus cavalos uma jovem índia Apache, abandonando à beira da morte. Uma multidão se reuniu para ajudar, mas não havia tempo para salvá-la. Já sentindo a ânsia da morte, amaldiçoou a cidade e os pistoleiros e nessa mesma noite as criaturas surgiram. Uma noite sem fim... Os que tentam sair, morrem aqueles que não, tornam-se um deles. Não damos conta de enterrar todos os corpos...

- Então, serei como eles? - disse olhando para a ferida cicatrizada.

- Não sabemos, nunca aconteceu algo parecido aqui... - respondeu o religioso.

- Mas poderemos sair daqui durante o dia! Ou essas criaturas podem caminhar sob o sol? - redargüiu John, tomando novo fôlego.

- Não há mais sol, nem dia por aqui, forasteiro... - resmungou um dos homens.

- Desde então fugimos para a igreja, onde eles não podem entrar. - continuou explanan-do o padre, como se nunca houvesse parado antes. - Alguns homens saíram em busca de víve-res, uns retornaram, outros não. Sinto, meu filho, que se não for pelos demônios lá fora, morre-remos de fome aqui dentro... - acrescentou com pesar.

- Mas precisamos fazer algo! Não podemos aceitar a morte dessa forma. Eu sou apenas mais um pecador, mas e estas mulheres e crianças? Não temos o direito de fechar os olhos di-ante do sofrimento desses inocentes...

- O máximo que podemos fazer é orar... - murmurou uma beata, debulhando-se em lágrimas. Aliás, quase todos choravam, exceto pelos homens, que se mantinham firmes e suspei-tosos.

- E acham o quê? Que Cristo descerá daquela cruz para nos salvar? - esbravejou apon-tando para o grande crucifixo na parede. - De nada adiantará orar se não tomarmos uma atitude concreta...

- Até que para um fora-da-lei, John, você é bastante religioso... - observou o padre, ao caminhar por trás do homem.

- Não lhe devo satisfação alguma de minhas convicções religiosas... Donde me conhece? - interpelou franzindo o cenho, após um curto silêncio.

- Ora John, o xerife espalhou cartazes com sua foto por todos os lugares... Todos o co-nhecem.

- E onde está o xerife?

- Morreu, assim como o médico, o barbeiro, o banqueiro e tantos outros... - respondeu a enfermeira, quase num sussurro.

- E acontecerá o mesmo com você, seu patife desgraçado! - disse um velho na assem-bléia.

- Escute aqui... Ei! Onde estão minhas armas? Onde estão minhas armas?! - vociferou John ao passar a mão no coldre, quando já tomava a direção do homem.

- Achamos melhor... - tentou explicar o padre.

- Dêem-me as armas agora! - esbravejou agarrando o pescoço da enfermeira, sufocando-a. Seus olhos saltaram das órbitas, suas conjuntivas tornaram-se vermelhas, e ameaçava desfale-cer.

- Entregue-as. - determinou o padre seriamente. - Afinal, ele não ganharia nada matando alguém aqui... - completou com desdém.

Um homem carrancudo, com um grande bigode e olhos insignificantes pôs os revólveres no chão e empurrou-os com o pé, à revelia. John soltou a mulher, que caíra ao chão, tossin-do, engasgando com o ar que lhe havia sido tirado, e que agora retornava com plena força aos pulmões. O pistoleiro examinou as armas. Nada errado. Uma tinha apenas três projéteis, e a outra dois. Tirou os cinco dólares que havia em cada tambor, completou com balas que guar-dava em sua cinta e guardou as armas nos coldres.

- Nunca mais mexam com minhas meninas... - resmungou ele.

- O que pretende fazer? - perguntou o padre, enquanto ajudava a enfermeira, ainda ate-morizado pela violência do criminoso.

- Preciso sair dessa cidade, e é isso que vou fazer. Alguém vem comigo? - perguntou ele, respondido pelo silêncio. Não têm ao menos uma arma ou munição?!

- Só há homens de bem aqui, forasteiro... - resmoneou o velhote das armas.

- Eu já estou cheio de você, imbecil! É bom ficar calado se quiser que eu estoure seus miolos! - esbravejou sacando a arma e colando o cano entre seus olhos. - É muito fácil ficar aqui dentro, protegido... Porque não faz alguma coisa? Está borrado de medo, não é? - acrescentou, puxando o cão do revólver.

- Pelo amor de Deus! Não profane este solo sagrado! - interveio o padre rapidamente. As crianças gritavam desesperadas, enquanto confortavam-se com suas mães e irmãs, também desesperadas.

- Tua fé te salvou... - disse ele com um sorriso sarcástico baixando sua menina.

- Aquelas criaturas não podem ser mortas com armas deste mundo, meu filho... - obser-vou o clérigo com desesperança, sentando-se no altar e afundando o rosto nas mãos.

- A menos que... - disse a enfermeira, já recomposta.

- A menos que o quê? - disse o homem se aproximando com avidez.

- A água benta quase cicatrizou a ferida feita pelo monstro, e talvez por isso não se torne um deles. Pode ser que ela tenha algum efeito sobre as criaturas...

- Tem razão... - disse o padre pensativo. - Mas não têm água suficiente para banhar todas elas.

- Mas posso banhar meus projéteis. Vamos, dê-me uma vasilha, rápido! - pediu à moça.

- Isto é um sacrilégio! - retrucou o padre, levantando-se de um salto.

- Pode ser a nossa salvação padre... - disse John tirando as balas das armas e pondo no pequeno artefato de alumínio, enquanto a enfermeira derramava a mesma água com que cuida-va da ferida do pistoleiro. Ele recarregou os revólveres, guardou-os e seguiu para a grande por-ta.

- Obrigado, meu filho, e boa sorte... - disse o velho angustiadamente, juntando as mãos em prece.

- Não me agradeça. - disse enquanto caminhava. - Não faço isso pelo senhor, nem por nenhuma de suas ovelhas. Faço isto por mim...

- Espere! - disse a enfermeira correndo ao seu encontro.. - Tome. Vai precisar disso mui-to mais do que eu... - completou, tirando seu crucifixo dourado do pescoço e entregando ao homem.

- Olhe, eu não queria ter te machucado... - desculpou-se cabisbaixo. é melhor você ficar com isso, eu já estou condenado mesmo. - acrescentou dando de ombros.

- Eu insisto! - disse ela, encarando-o por um momento, e afastando-se logo em seguida, com a garganta ainda marcada pelas mãos de John.

- Venha comigo... - disse ele segurando a pequena cruz entre as mãos.

- Não posso... Ainda tenho muito que fazer aqui. Sinto muito... - respondeu languidamente.

John olhou a cruz novamente, e tornou a seguir para a porta. Alguns homens afastaram o banco que servia de obstáculo, e deixaram-no sair rapidamente. Não se sentiam nem um pou-co à vontade na companhia de um assassino, e sua saída fora feita sem reticência.

Aparentemente uma noite tranqüila. A lua estava cheia e uma leve brisa acariciava-lhe o rosto, tão suave quanto à mão da enfermeira que cuidava dele. Um anjo, definitivamente. Se tivesse uma vida, se pudesse ter alguém com quem se preocupar, esse alguém seria como ela. Quisera que fosse ela.

Bastou dar um passo para as criaturas surgirem como uma matilha. Uma horda de cadá-veres em decomposição acelerada, com os olhos inteiramente negros e brilhantes, suas bocas escancaradas, malignas, denunciavam grandes dentes pontiagudos e famintos. John não possuía munição suficiente e era preciso correr para chegar à fronteira da cidade antes que o emboscas-sem.

Sacou suas armas e atirou-se numa fuga desesperada entre os monstros que caíam diante dos disparos, gemendo de forma macabra, desaparecendo em uma névoa negra, como espectros sinistros. Porém, quanto mais ele conseguia abater, mais surgiam em seu encalço. Cães bizarros e ferozes surgiam de lugares inesperados, e suas meninas explodiram todos que pude-ram, mas sua munição acabou antes do esperado, a apenas alguns metros da placa de Cursed City. Correu o máximo que pôde até ser derrubado por enorme cão negro, maior que todos os outros, que exalava um odor semelhante ao das minas de carvão, com o dorso inteiramente rasgado, com suas costelas expostas de forma macabra. O animal tentava mordê-lo ferozmente, mas defendendo-se, John segurou suas mandíbulas e com todas as forças que lhe restavam, abriu-as até rasgarem por completo.

O morto-vivo ficou momentaneamente inerte, mas pouco a pouco se recompunha, e o pistoleiro continuou a correr sobre corpos em avançado estado de putrefação, alguns com os rostos profundamente marcados pelo terror. Os prédios daquela cidade maldita já estavam dis-tantes assim como os monstros que desapareciam na cerração sinistra. Olhou para trás, o pesa-delo parecia enfim terminado. Surgia então um gemido terrível e lúgubre que crescia com es-pantosa velocidade, parecendo vir das entranhas da cidade. Uma criatura de quase três metros aproximava-se rapidamente, fazendo vibrar o chão com suas passadas, arremessando aqueles monstros semimortos para o ar. Tinha cabelos compridos, avermelhados, como uma imensa juba; seus grandes olhos eram inteiramente vermelhos, com uma expressão diabólica que John nunca imaginou que fosse ver, e que ficaria gravado para sempre na memória do homem sem medo. A criatura não se parecia com um humano, definitivamente, apesar de caminhar sobre suas duas pernas.

Era uma fera furiosa, salivando de faminta que estava, sedenta por sangue fresco, e que se aproximava cada vez mais. John estava tetanizado com sua visão. Sentiu um arrepio gélido percorrer sua espinha no momento em que a criatura agachava-se diante dele, rugindo aterrado-ramente. Em seguida, segurou-o pela cabeça e o atirou para cima, como um felino que brincava com sua presa. O pistoleiro caiu sobre alguns corpos, contorcendo-se de uma dor lancinante que parecia atravessar-lhe como uma espada afiada. O mesmo destino que lhe roubara os projé-teis há pouco, reservara-lhe uma grata surpresa. Encontrou uma Winchester presa firmemente nas mãos de um cadáver, alguém que almejava sair da cidade. Havia uma chance então! Empunhou-a bravamente e abriu fogo sobre a criatura, todavia, o chumbo não a feria de forma alguma. A criatura continuou avançando, e rugindo agarrou o pistoleiro pelos ombros, abrindo a enorme boca para devorá-lo, exalando um hálito profundamente pestilento. Apesar de tudo, John estava pronto. Vivera uma vida errada, roubando e matando sem culpa. Era justo que morresse daquele jeito e embora apavorado como uma criança no escuro, aceitava com resignação.

A criatura o sacudia freneticamente e ele cerrou os olhos, aguardando o instante em que ia ter a cabeça separada do corpo pelos grandes dentes da fera. O momento que antecede a morte é tão intenso e fugaz que ele mal percebeu quando o crucifixo saltou de seu peito em meio à confusão, brilhando nos olhos do monstro, que o soltou imediatamente, cobrindo a face, convulsionando-se em movimentos epiléticos. Surgiu então algo semelhante a diminutos insetos que devoraram a criatura em questão de segundos, desaparecendo numa névoa negra. John arrastou-se ainda atemorizado com o espetáculo aterrador que se descortinava à sua fren-te. Teve tempo suficiente para correr o máximo que podia, até não agüentar mais e desabar no chão ofegante. Mal pode perceber que já estava fora do nevoeiro. Nada de criaturas, mortos-vivos, cães bizarros, morcegos e cadáveres. Apenas um grande sol vermelho que despontava no horizonte, e isso indicava que não estava mais nos domínios de Cursed City. Levantou-se e se-guiu em direção ao deserto, sem olhar para trás. Estava desarmado, ferido e a pé. Contudo, na-da mais era impossível depois do que vivera. Decidiu que jamais alguém saberia sobre aquela cidade maldita, onde poucos sobrevivem, onde o mal impera, onde alma alguma tem valor.

Levou a mão ao pescoço e segurou fortemente a cruz de prata, lembrando-se imediatamente da enfermeira na igreja.

- No meio do caos, um anjo, como nunca achei que iria encontrar. Como nunca achei que merecesse... - balbuciou ele. - Um anjo realmente... O homem sem escrúpulos e sem medo fora salvo por anjo.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

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