Crime bárbaro na Rua Mariza Lopes


Fazia muito calor naquele dia. As nuvens carregadas favoreciam o clima abafado que só a cidade do Rio de Janeiro pode ter. Não demoraria a cair uma boa pancada de chuva, como nos dias anteriores.

Uma equipe da polícia havia sido designada para um possível caso de homicídio, denunciada por telefone. Aquiles Balmant fazia parte dela. A equipe era chefiada pelo próprio delegado da 18º DP, Dr. Otacílio Rivera. Havia diversas roupas espalhadas pelos corredores da casa, de homem e de mulher, o que indicava uma possível relação amorosa naquele prédio, que acabara tragicamente. Alguém escutou tiros na rua. O delegado subiu as escadas acompanhado de Aquiles, um agente recém-promovido a detetive pelo Secretário de Segurança, por bravura. O cheiro de sangue incomodava. Três corpos estavam estendidos no quarto: um homem ao chão, vestido de terno e gravata, com um tiro no ouvido; outros dois, uma mulher sobre um homem em uma cama de casal bastante ensanguentada. Aquiles examinou rapidamente o quarto sob o umbral. Havia um tiro no teto também.

– O que acha amigo? – perguntou Rivera, com as mãos na cintura, sem olhá-lo.

– Não sei... – respondeu Aquiles entrando com cuidado no quarto. – Este no chão...

– É o vereador. Essa aí é a mulher dele, resta saber quem é o segundo homem...

– O amante... – murmurou Aquiles para si mesmo, como se estivesse sozinho. – Crime passional. O homem chegou em casa e encontrou sua mulher na cama com outro. Talvez desconfiasse de algo, talvez não.

– É o que parece, não? – disse o delegado entrando no quarto também, seguido de outros policiais.

– É, mas... porque eles dois não se levantaram quando o vereador chegou? Não o perceberam?

– No calor da emoção, meu amigo, é difícil perceber qualquer coisa... – disse o outro policial se aproximando dos corpos sobre a cama. – Mulher bonita...

– E esse tiro no teto? – perguntou Aquiles. – Foi quando o homem caiu com a arma?

– Parece que sim... – disse Otacílio observando a marca no teto. – Rapazes, quero que procurem os vizinhos. Perguntem se viram alguma coisa, se ouviram os tiros, perguntem tudo. Sempre se pode saber algo indiretamente. Aquiles, está com a Polaroide aí?

– Estou sim... – disse o detetive tirando a máquina do bolso, surpreendentemente pequena para a época.

Tiraram algumas fotos, enquanto o pessoal técnico procurava digitais e recolhiam as armas em sacos plásticos. O caso foi arquivado algum tempo depois, os policiais encontraram cartas anônimas na maleta do vereador Raulino Soares de Freitas, também Presidente da Câmara da cidade. Crime passional. Era tudo que Aquiles lembrava do caso, quando folheava o jornal de ontem displicentemente em seu apartamento, pela manhã. Uma matéria falava sobre os dois meses da morte do vereador. O detetive levantou de um salto. Era uma falha! E eles caíram direitinho... Mas, enfim, uma falha. E isso só podia ser trabalho de uma pessoa.

Arrumou-se rapidamente e seguiu para a Delegacia. Pela manhã, pegava o contra fluxo do trânsito e isso facilitava sua chegada ao trabalho. Entrou no prédio, cumprimentou alguns amigos rapidamente e dirigiu-se à sala do homem, com o jornal embaixo do braço. Bateu à porta e entrou, ele tinha liberdade para isso.

– Otacílio?

– Pode falar Aquiles! Aconteceu alguma coisa? – respondeu o delegado, levantando-se rapidamente de sua mesa, o rosto ainda inchado de dormir. Otacílio era um homem bem aparentado e jovem. Tinha trinta anos, o que não lhe fazia um mal delegado. Pelo contrário, talvez para se firmar na profissão, e afastar possíveis boatos de inexperiência, trabalhava com mais afinco, era conhecido por ser extremamente rígido. Fazia o estilo galã, com gel no cabelo e bigode bem cuidado.

– Primeiramente, bom dia... – disse Aquiles ofegante, ao apertar a mão do amigo.

– Bom dia... Desembuche homem! Está me preocupando! – esbravejou antes de sentar-se novamente.

– Uma bomba... uma bomba... Leu o Tribuna da Tarde de ontem?

– Eu sei lá! Não me lembro nem se almocei ontem...

– Folheei pela manhã este. Saiu uma matéria sobre os dois meses de morte do ex-presidente da Câmara dos Vereadores. Dê uma olhada... – disse ele jogando o noticiário sobre a mesa.

– Ah! Sim, eu me lembro... O que tem a ver?

– Não viu nada demais nessa foto aí da matéria? – disse Aquiles com um esboço de sorriso, o sorriso de quem descobre um segredo.

– O que pode haver demais em uma foto na qual ele assina alguns documentos na Câmara? – perguntou com incredulidade.

– Vai ter de reabrir o caso... – disse o detetive após levantar-se e caminhar em círculos na sala.

– Está maluco! Porque eu haveria de abrir um caso desses? Veja Aquiles, você é muito respeitado em nosso meio, mas este caso já foi resolvido. O homem matou o irmão e a mulher e depois se suicidou. Crime passional e ponto. Não há porque reabrir o caso... – disse o delegado passando um pente no bigode.

– Encontrei uma falha nas investigações e acredito que foi um crime encomendado. – insistiu Aquiles.

– Encomendado? Você só pode estar de brincadeira! E quem encomendou?

– O Ceifador. – respondeu prontamente.

– O Ceifador? – repetiu o delegado em tom de mofa, numa sonora gargalhada. – Esse cara é uma lenda, ele não existe. – completou, acendendo seu cigarro com um isqueiro automático.

– Já tivemos evidências que sim, e você sabe disso.

– Mas nunca foram comprovadas.

– Mas agora podemos comprovar, e pegar ele. Você pode pedir que nos tragam as fotos do caso?

– Posso sim, mas eu preciso de um bom motivo para isso... – disse Rivera com desdém.

– Raulino matou-se com um tiro no ouvido, certo?

– Certo.

– Em qual ouvido?

– Ora, em qual ouvido... que importância tem isso? – perguntou ele com impaciência, se remexendo em sua cadeira.

– Em que ouvido, delegado?

– Não me lembro bem, acho que foi o esquerdo. Sim, foi o esquerdo.

– Exatamente. E com qual mão ele assina o documento?

– Com... – disse o delegado, parando para conferir a foto no jornal. – a direita...

– Percebe o erro que cometemos?

– Ele podia ser ambidestro... – argumentou o delegado.

– Ok, ele podia ser ambidestro. A ambidestria, porém, é estimulada em atividades que requeiram boa habilidade em ambas as mãos, como a execução de instrumentos musicais e muitos ambidestros optam por executar algumas tarefas com uma das mãos. Ora, assinar é uma tarefa que exige motricidade fina, da mesma forma que o uso de uma arma de fogo. Se ele assinava com a direita, ele também atirava com ela.

– Puta que pariu, mas que merda! – esbravejou o delegado socando a mesa, ficando vermelho de raiva. – Acha então que foi este... Ceifador? – completou, após se conter por um momento.

– Encontrada a falha, sabemos que foi um assassinato. E sua lenda surgiu porque ele nunca deixava um fio solto, ou esse fio solto era tão imperceptível que ninguém notava. Até agora, é claro... – disse com sarcasmo.

– Você tinha que massagear seu ego, não é mesmo? Continue... – observou ele amassando o resto do cigarro no cinzeiro.

– Pois bem, o modus operandi é adequado ao Ceifador.

– Alguém que ninguém jamais viu... – disse o delegado, como se estivesse pensando alto.

– Exceto o mandante do crime – que na verdade pode até não tê-lo visto, usando de um intermediário, e a vítima.

– Está bem, e o que você sugere? – perguntou Otacílio impacientemente, entrelaçando os dedos sobre a mesa.

– Temos três caminhos... – sugeriu Aquiles gesticulando. – ou encontramos o mandante, ou encontramos o intermediário, ou...

– Ou o quê seu doido? A vítima não pode dizer nada, está morta. A menos que...

– A menos que eu me torne uma. Assim terei a oportunidade de encontrá-lo, emboscá-lo e prendê-lo. Não necessariamente nessa mesma ordem.

– Bicho, você bebeu hoje? Isso é uma loucura! Quer encomendar a própria morte? Isso é muito arriscado! – disse Otacílio levantando-se rapidamente e apontando o dedo em riste para Aquiles.

– Estamos aqui para isso, não é delegado? Dessa forma conseguiremos os dois: o intermediário – se houver, e o assassino. Se for bem organizado, tem tudo para dar certo.

– Está bem. Suponhamos que eu aceite essa loucura que você está me propondo. Como você encomendaria a própria morte com o Ceifador?

– Temos que partir do começo. A morte de Raulino Soares. Se ele não se matou, conforme acreditávamos, quem poderia querer sua morte?

– Não poderia ser crime passional, visto que sua mulher morreu também...

– Ora, e daí? Um amante inconformado poderia matar os dois, não é?

– Acha então que ela tinha um amante? Ou... ele?! – perguntou o delegado no momento em que se sentou novamente, olhando firmemente para o detetive.

– Não, não era isso que eu tinha em mente, apesar de ser uma opção de investigação. Acho que quem procuramos está na Câmara. Se o presidente morre, quem assume?

– Dr. Humberto Contreira, o vice-presidente, logicamente...

– Exatamente. Se ele queria assumir a presidência, Raulino era um empecilho.

– Mas para isso bastava apenas ele encontrar um “podre” dele e “jogar no ventilador”, depois batalhar para que ele fosse afastado. Além do mais, o que ele ganharia sendo presidente da câmara? Poder Político?

– Realmente, ele não ganharia muito sendo presidente. Mas o que ganharia alguém que nem é vereador?

– Não entendo aonde quer chegar... – perguntou Otacílio com o olhar perdido.

– Veja bem: com a morte de Raulino, duas pessoas são diretamente beneficiadas no meio político, na câmara de vereadores para ser mais preciso...

– Dr. Humberto Contreira...

– E o suplente de Raulino...

– Leôncio Moreira?

– E quem mais? Não foi ele quem assumiu a vaga de Raulino?

– Sim, então sugere que o investiguemos?

– Não acredito que tenha sido ele que encomendou a morte do vereador...

– Porra! Não estou entendendo o que você está querendo... – esbravejou ele dando um soco na mesa e procurando outro cigarro na carteira.

– Doutor, se acalme. Eu ainda estava desenvolvendo meu raciocínio. Quando eu disse que não foi ele quem encomendou, queria dizer que foi alguém a suas ordens. E em minha opinião é alguém muito próximo: seu segurança. Cargo de confiança entende?

– Entendo... – respondeu pensativo. – O que vai fazer?

– Com a sua permissão, vou procura-lo e encomendar a morte de Aquiles Balmant. Direi que sei que ele conhece o Ceifador, e quero que ele faça o serviço.

– Ele pode pegar o dinheiro e fazer o serviço ele mesmo...

– Não, porque vou pagar em duas vezes, e vou exigir uma prova de que tenha sido ele mesmo quem tenha feito o serviço, uma espécie de garantia de qualidade...

– Não vai dar certo Aquiles... você vai morrer, cara. Acha que vai perceber quando o homem vier matá-lo?

– A grande diferença é que eu vou estar esperando, não vou ser pego em emboscada. E no momento certo, terei o apoio de vocês...

– Como assim no momento certo? Porra! Lá vem você com essas suas ideias mirabolantes... – esbravejou ele empurrando os papéis que tinha sobre a mesa e levantando-se.

– É melhor por enquanto que esse assunto fique entre nós. Vai por mim. – disse ele levantando-se também, com a maior tranquilidade do mundo.

– Hei! Hei! Aonde você pensa que vai? Eu te proíbo de fazer isso. Está me ouvindo? Está me ouvindo? – gritou o delegado e logo depois se conteve, pronunciando as palavras quase num sussurro.

– Doutor, me dê uma alternativa melhor. – disse Aquiles voltando-se para ele e cruzando os braços.

– Montaremos uma equipe, vigiamos o vereador e seu segurança e os prendemos. – balbuciou ele com dificuldade.

– E prenderemos com que alegação? A essa altura o Ceifador já foi pago e teremos sorte se estiver no mesmo endereço. Uma equipe agora só atrapalharia. Precisamos agir como ele, à emboscada, e para que isso tenha realmente efeito, o melhor que temos a fazer é mantermos segredo. Vou preparar minha investigação, procurar os endereços e seguir o homem. Não podemos perder mais tempo. O informo de cada passo.

– Tome cuidado. – disse Otacílio após suspirar.

– Fique tranquilo, vai dar tudo certo, se Deus quiser... – disse o detetive esticando a mão para um aperto e foi prontamente respondido.

– Se Deus quiser...

***

Nos dias que se seguiram, o expediente na Delegacia foi de uma normalidade quase incômoda, raramente isso acontecia. Os crimes sempre ocorriam quando menos se esperava, mas estes dois dias foram quase de trabalhos burocráticos, por completo. Aquiles não punha os pés na repartição, sob a alegação de trabalho de campo e o delegado não se importava com isso, acreditava piamente em cada palavra do amigo; ainda não tinha conhecido ninguém mais empenhado no trabalho do que ele. Esperava apenas o contato do detetive, o que, aliás, demorava a acontecer.

Estava enfurnado em sua sala bolorenta, analisando processos, e degustando seu Carlton em meio a velhos móveis de madeira barata. Ele não queria saber de processo algum, apenas da investigação sobre o Ceifador, e isso fazia mais difícil manter a atenção. Havia um ninho de pombos no beiral do telhado, deixando o batente das janelas completamente emporcalhado de fezes. Um mero arrulhar incomodava mais ainda o delegado, que fazia de tudo para não se desconcentrar. Quando os pombos resolveram fazer silêncio, alguém bateu à porta.

– Entre!

– Com licença, doutor... – disse um dos agentes. – Um recado de Aquiles... – completou ele entrando lentamente na sala.

– Aquiles? – disse o homem levantando-se, soltando uma boa baforada de fumaça.

– Ele pediu que eu o levasse a esse bar, na Mem de Sá... – disse entregando um pequeno cartão.

– Há quanto tempo ele te deu esse recado? – perguntou o homem colocando o terno.

– Não tem dez minutos que ele telefonou.

­– Então vamos.

Saíram da sala rapidamente e logo atingiram a rua. Otacílio preferiu seguir em seu carro, isso tornava a situação o mais informal possível. O agente dirigia para ele em alta velocidade, mas com segurança. Havia ruas que o delegado nem sabia que existiam. O trânsito pesado do Rio de Janeiro obrigava os motoristas a conhecerem estes atalhos, tão providenciais.

A Mem de Sá ficava na Lapa, um dos redutos boêmios mais famosos da cidade. Também era um antro de prostituição infestado de mendigos. O cheiro de amônia e fezes inundavam os narizes dos transeuntes; algumas ruas eram desaconselháveis de serem acessadas a certas horas. Os prédios antigos e as árvores que desfolhavam constantemente tornavam o ambiente mais sujo e sombrio.

Entraram em um bar cheio de bêbados, que gargalhavam ao som chiado de "Retratos e Canções", emitido por um rádio velho que tinha palha de aço na ponta da antena. A parede era decorada de azulejos antigos amarelados de gordura e poeira, e pombos ciscavam na calçada. Ora, quem diria. Essa praga nem era brasileira. Durante a colonização, trouxeram nos navios como uma decoração europeia, para que as terras tupiniquins ficassem mais parecidas com o Velho Mundo.

– Vou pedir café, o senhor vai querer? – perguntou o agente, após se acomodarem em uma mesa de ferro.

– Por favor! – respondeu o delegado após puxar um cigarro da carteira. O agente buscou a bebida em copos de vidro, com pequenas colheres e ofereceu um ao chefe, que rapidamente o pegou.

– Onde está Aquiles? – perguntou ele enquanto mexia o café.

– Ele disse para esperarmos até as onze. Caso ele não chegasse, ele disse para irmos até o Mundo Novo, um hotel aqui pertinho.

– Droga! Está quase na hora! – disse o delegado bebendo o café de um gole só, ignorando sua temperatura.

– O senhor parece nervoso...

– Não se preocupe... qual o seu nome mesmo?

– Alencar. Osvaldo Alencar.

– Desculpe, eu não sei o nome de todos os agentes... – disse ele dando mais uma tragada no cigarro, tossindo logo em seguida.

– A gente às vezes não sabe de muita coisa, não é doutor?

– Exato! E nem precisamos saber para viver... – disse ele dando uma outra tragada, com a mão trêmula.

– O senhor está tremendo! Está sentindo alguma coisa?

– Um pouco empanzinado, acho que deve ser esse cheiro de gordura... – respondeu tossindo mais uma vez, dessa vez, com mais força. Continuou tossindo até vomitar, chamando a atenção dos bêbados, que por quase nada se incomodavam. Alencar socorreu-o rapidamente, passando seu braço sob seus ombros e tirando-o do bar. Estava muito mais trêmulo do que antes e suava frio.

– Venha comigo senhor, precisamos ir para o hotel rapidamente!

– Ajude-me, por favor... – murmurou Otacílio, tendo engulhos.

– Acalme-se doutor, tudo dará certo... – disse o agente colocando-o no banco de trás do carro. Tomou a direção novamente e arrancou para o hotel, sempre em velocidade.

– Obrigado Alencar, não tenho como te agradecer...

– Não me chame assim. Quase ninguém o faz hoje em dia...

– Como é? – perguntou o delegado, vomitando outra vez.

– Não me chame de Alencar. Esse homem morreu há muito tempo, desde que mataram sua mulher e seu filho. Era um besta sonhador, que acreditava no bem, na felicidade. Isso tudo é uma mentirada das grandes. Esse homem que você disse o nome, não tinha coragem de matar um cachorro doente, mas o cheiro das flores vicia, e ele passou a fazer isso sempre...

– Quem é você? Quem é você?

– Eu sou sua morte, e vim te buscar... Matar é um vício, sabe?. Me faz esquecer as lágrimas que derramei, por um filho que nunca embalei; o sorriso de uma mulher que eu nunca mais vou beijar... – disse fungando o nariz, limpando o rosto com as costas do braço. – Não me chame de Alencar, atendo por outro nome agora...

– Ceifador... – disse o delegado tossindo e salivando muito. Fez menção de pegar o revolver, mas não o encontrou.

– Então me conhece? Está procurando isso aqui, por acaso? – disse ele balançando a arma com a mão direita, jogando-a em seguida no assoalho. – Peguei de você quando o pus no carro. Sabe, você deveria parar de beber, isso faz um mal danado... – disse ele entrando na garagem do hotel.

– Desgraçado! – gritou Otacílio tentando alcançá-lo, mas a dor no abdômen era mais forte. Contorceu-se violentamente e um fio de sangue escorreu pelo nariz.

– Merda! O que fez comigo?

– Aldicarbe. Rápido e barato. Seus pulmões, fígado e rins vão derreter em mais ou menos vinte minutos. – disse ao abrir a porta traseira e tirar o delegado com violência do carro, colocando-o na direção. Deu-lhe um soco na boca e isso fez com que ele se contorcesse ainda mais; tentava falar, mas tinha muita dificuldade.

– Como descobriu?

– Segredo de dois, só matando um...

– Ele vai te pegar, seu desgraçado... – disse com o sangue subindo-lhe à garganta.

– Errado. Eu vou pegar ele. E não prometo que não vai doer. Vai doer, e muito. Quem vocês pensam que são para pensar em me deter? Ingênuos! Agora pare de falar, você não tem muito tempo de vida. Porque não ora para seu Deus? Se me der licença, tenho muito trabalho a fazer. Foi bom ter te conhecido...

– Desgraçado! – gritou Otacílio já sem forças dentro do carro.

Alencar deixou o delegado contorcendo-se de dor, à beira da morte na garagem de um hotel barato, e saiu como se nada tivesse acontecido. E não havia nada que alguém pudesse fazer para salvá-lo e nem para impedir que ele alcançasse Aquiles. Se há uma coisa certa na vida, é que para morrer basta estar vivo e a morte, chega para todos.
George dos Santos Pacheco

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