As terras de Cora Coralina

Quem disse que não é possível voltar no tempo, errou. Semana passada voltei ao século XIX na Cidade de Goiás ou como é carinhosamente conhecida "Goiás Velho", berço da célebre poetisa brasileira Cora Coralina. Por aquelas bandas não tem esse negócio de "Centro antigo", lá é  realmente tudo antigo. As ruas de pedras, os casarões, as pontes, as luminárias à querosene, parece conservar o cheiro, os sons, os costumes de uma época. Com um olhar mais apurado foi possível ver as pessoas daquele tempo desfilar pelas ruas, os rapazes cortejando as moças de risos tímidos, os salões em noites de festas, as novenas, os velhinhos e os meninos nas praças.


A esquerda, Casa de Cora Coralina. Fotografia: Irineu Magalhães
O rio divide a cidade em duas, as velhas pontes de aroeira as une, e nos convida para um delicioso banho, um banho de primavera que vem dos montes, trazido pelas asas das borboletas que infestam os lírios em flor.

Já era próximo do meio-dia quando entrei  na casa de Cora Coralina; senti a poesia flutuar, parando às vezes na velha máquina de escrever, nos manuscritos poéticos, outras no jardim, na bica do porão, no assoalho barulhento de madeira. O mesmo assoalho fofoqueiro que para o nosso bem não denunciou a fuga de Ana Lins com o delegado de polícia. Foi então que entendi o porquê do pseudônimo "Cora", corar, enrubescer, Ana corada de amor.

Cora Coralina estava na janela olhando o rio passear por entre os seixos, ouvindo os rumores dos velhos casarões das ruas de pedras. Cora estava lá, sentimos o cheiro do doce  borbulhando no tacho, ouvimos suas lembranças. Goiás Velho: simplesmente fascinante.

Irineu Magalhães
irineumagalhaes@ymail.com

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