A inveja de Sônia


Via o mundo de sua cadeira de rodas. Estava com um cobertor dobrado sobre suas pernas, para aquecê-las. Estavam imóveis. A luz do sol não era suficiente. Ao seu redor caminhavam os enfermeiros e alguns pacientes, que também estavam alienados. Privados de sua capacidade intelectual. Havia a grama verde, os lírios, os beijos... Tudo para quebrar a frieza de um manicômio. Não. Assim como o sol não era suficiente, todo o verde e as flores, o som do pequeno riacho que cruzava a instituição, misturado com o canto de canários, e o cheiro de mato molhado, pelo sereno, que impregnava suas narinas, não era suficiente.

Alice conheceu Sônia no colegial. A primeira era um pouco acanhada, enquanto que a outra sempre foi mais desinibida, segura de si. Eram as garotas mais belas da escola, cobiçadas por todos os rapazes. Em pouco tempo se tornaram grandes amigas. Saiam juntas, dormiam uma na casa da outra, choravam suas mágoas, mentiam juntas, davam pitaco sobre os namorados... Dividiam alegrias e tristezas... Estudavam agora na mesma faculdade, mas em cursos distintos. Eram inseparáveis.

Até que um dia tudo mudou. Alice conheceu na faculdade um rapaz que lhe encantou. Floriano era um belo rapaz, alto, moreno, dos cabelos castanhos, os olhos ligeiramente claros. Eram felizes. Cultivaram um grande amor, sincero e romântico. Mas aos olhos de Sônia, algo estava errado. Aconselhava a amiga sobre o mancebo, não confiava nele.

– Escute meu conselho Alice, eu sei o que estou falando... – disse Sônia cabisbaixa, enquanto lavava a louça.

– Eu não entendo essa sua implicância com o Floriano. Eu nunca tive motivos para desconfiar dele. – disse Alice rodando um pequeno copo sobre a mesa.

– Pois eu vou provar para você que ele é uma boa bisca. Se estou falando é porque sei. Diversas vezes já o peguei me examinando com os olhos. Fiquei sem graça, mas não falei nada na hora... – disse ela balançando a mão toda ensaboada para a amiga. Parecia um pouco nervosa, com os lábios vacilantes.

– Você está brincando comigo! Você? Logo você? – disse Alice.

– Ora, e porque não eu? – disse ela voltando-se para Alice, enquanto a torneira vertia água. – Acaso não sou eu uma mulher bonita?

– Não, eu não disse isso. É claro que é bonita, o caso é que não acredito que ele faria isso, assim com você, minha melhor amiga. Será que ele não acharia que logo ia chegar aos meus ouvidos?

– Eles são todos uns safados, isso sim... Ele fez isso acreditando na impunidade.

– Pois eu vou falar com ele! – disse ela levantando-se. – Ele não pode fazer isso, não pode!

– Venha, de cá um abraço... – disse Sônia abraçando-a. Seu olhar era um misto de prazer e raiva. Estava dando certo. Sua amiga confiava mais nela do que em Floriano e sabia disso.

Alice estava diferente. Não tinha a mesma alegria. Vivia calada, como que pensativa. Ficou remoendo as palavras da amiga por dias. Imaginava as aventuras de seu namorado. Observava-o na faculdade. Realmente ele parecia um cafajeste. Tinha ares misteriosos, como se escondesse algo. Sônia podia ter razão...

Na saída da aula Floriano aproximou-se para beijá-la.

– Quer que eu te leve para casa? – disse ele se aproximando para dar-lhe um beijo.

– Não precisa, deixe que eu me viro. – disse ela esquivando-se, com o olhar sério.

– A Sônia está de carro? Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele. Não conseguia entender o comportamento da namorada.

– Precisamos conversar...

– Ora, então conversemos! – disse ele se aproximando novamente para beijá-la, sendo outra vez recusado. – Não estou te entendendo... – disse ele seriamente.

– Quero que seja sincero. O que sente por Sônia? – perguntou ela com lágrimas nos olhos.

– O que eu sinto por Sônia? Nada! – disse ele num sorriso.
– Tem certeza?

– Absoluta! Onde você está querendo chegar com essa conversa?

– Ela me contou tudo. Disse-me que você esteve olhando-a. Alguma vez desejou ela?

– Você está maluca? Sempre a olhei como olho para qualquer pessoa. Nunca me passou pela cabeça sair com ela. E se quer saber, sempre achei que ela tinha um parafuso a menos...

– Então como explica esse seu mistério nos últimos tempos? Pode falar, eu a-guento. Mas saiba que nunca mais me verá! – disse ela aos prantos. Não havia acreditado em nada do que ele tinha falado.

– Eu não queria te dizer agora. Estava esperando o momento certo, mas você me obriga a isso... – disse ele cabisbaixo, remexendo em um de seus bolsos. – Nós já namoramos há mais de um ano. Eu tenho meu emprego, você também... Penso que comecei a viver quando te conheci. Não me lembro mais como eu era antes disso. Posso apenas dizer que hoje sou melhor. E por isso não quero mais deixar de ter você ao meu lado... – disse ele de joelhos, abrindo uma pequena caixinha com as mãos. – Casa comigo? Te farei a mulher mais feliz do mundo!

– Eu não acredito! – disse ela chorando mais ainda.

– Eu queria te pedir em casamento no seu aniversário, mas você antecipou as coisas...

– Mas é claro que eu aceito! Eu te amo! – disse ela abraçando-o, debulhando-se em lágrimas.

– Eu também te amo! – disse ele tomando-a fortemente em seus braços. A noite fria não parecia atingi-los. Beijavam-se calorosamente.

Foram interrompidos por Sônia que se aproximava. Os dois ali se beijando. Isso era um martírio para ela. Sentia o sangue ferver, seu rosto corou levemente.

– Boa noite... – disse ela se aproximando com o semblante caído. Seu olhar estava enigmático como o de um gato.

– Boa noite... – disseram eles entre risos.

– Vai para casa agora? – perguntou ela.

– Não sei... – disse Alice olhando para o namorado. – Vamos a algum lugar?

– Como eu te disse, estava programando isso para outro dia. A gente comemora amanhã, está bem? – disse Floriano segurando o queixo da moça e beijando-a.

– Perdi alguma coisa? – perguntou Sônia com um sorriso sem graça.

– Você acredita que ele me pediu em casamento? – disse Alice abraçada ao namorado.

– Pediu é? Que bom... Bem, se vai para casa... É que estou morta de cansaço...

– Ah, está bem. Até amanhã querido... – disse ela beijando o rapaz e acompanhando a amiga que já caminhava. Floriano ao se despedir de Alice, fez sinal com os dedos, para que ficasse de olho em Sônia.

Caminharam em silêncio até o carro. Apenas o sibilar do vento nas árvores, o barulho dos bichos noturnos e som de alguns carros o interrompia. Entraram no carro e Sônia deu a partida. Alice a olhava desconfiada, e resolveu falar, mas a motorista falou primeiro.

– Quer dizer que vão se casar? E o que ele disse sobre o que te falei? – disse ela com a voz lúgubre.

– Ele negou tudo. Aliás, eu já esperava que ele negasse. Vamos ser sinceras: Você está apaixonada por ele? Nós nunca mentimos uma para outra, por que essa seria a primeira vez?

– Eu apaixonada por ele? Nunca ouvi tamanha asneira!

– Então como explica isso? Ele nunca te olhou do jeito que você disse. Por que queria nos separar? Admita! Você é apaixonada por ele! – disse ela seriamente.
– Você é mesmo uma idiota! – disse Sônia, sem desgrudar os olhos da direção. Estava acelerando cada vez mais o carro. – Nos conhecemos há tanto tempo... Você nunca me deu valor!

– Do que está falando? – disse Alice segurando-se no banco do carro. Começava a sentir medo. Nunca havia visto sua amiga daquele jeito.

– Agora não sabe do que estou falando, não é mesmo? Lembra-se do nosso pacto? Eu sempre fui mais que uma amiga para você e como você me paga? Me descartando como qualquer coisa! – disse ela fungando o nariz, limpando-o com o braço. Seus olhos estavam marejados.

– Não é por que eu vou me casar que eu vou abandoná-la. Seremos amigas até a morte! – disse ela tentando acalmá-la.

– Você não entende, não pode casar com ele. O seu lugar é comigo, para sempre! Ele não te merece! Onde é que ele estava quando seu pai morreu? Você não sabe! Mas eu estava contigo, te confortando. Aliás, tenho estado contigo em todos os momentos importantes da sua vida!

– Eu também te amo amiga e sempre estaremos juntas...

– Cale a boca! Você me ama apenas como uma amiga, não é disso que estou falando. Eu te amo como mulher. E você é minha, somente minha! – disse  olhando para Alice, chorando copiosamente. Estava totalmente descontrolada chegando a perder o controle do carro.

– Ah, meu Deus! – murmurou Alice pondo as mãos na cabeça, quando o carro saiu da pista. – Você está confundindo as coisas, é melhor parar o carro...

– Não vou parar o carro coisa nenhuma! Você é que nunca me deu valor... – reclamou debruçando sobre o volante, chorando de soluçar, deixando o carro fazer ziguezague na pista.

– Pare com isso! Eu quero sair do carro! – disse ela puxando a alavanca da maçaneta.

– Ah, mas você vai sair... – disse ela sarcasticamente, limpando os olhos. – Não temos mais o que conversar, está tudo acabado entre nós.

– Por que está fazendo isso comigo?

– Cale a boca sua vadia! Se eu não posso te ter, ninguém mais terá! – disse ela levando o carro para a outra pista, indo na direção de um caminhão, que buzinava incessantemente.

– Por favor! Não faça isso! Eu te suplico! – disse Alice segurando os braços de Sônia, para que ela parasse o carro. Os faróis do caminhão estavam cada vez mais próximos.

– Eu te amo! Eu te amo... – disse Sônia num sorriso assustadoramente perturbado.

 Não houve tempo de o caminhão desviar e elas bateram em cheio, indo o carro parar a metros do lugar do acidente. O socorro não demorou a vir, mas era tarde, Alice morreu na hora. O carro ficou completamente destruído. Sônia foi resgatada, ficando meses em coma. Fraturou algumas vértebras, lesionando também a medula espinhal. Não podia mais andar.

Não falava coisa com coisa. Chamava por Alice, falava em um tal pacto e em amor. Acabou sendo internada em um hospício e ficou o resto de seus dias por lá. Ninguém a visitava. Tudo isso por causa de um amor doentio. O amor de Alice não lhe foi suficiente, assim como agora o sol, o verde, as flores, o pequeno riacho, e os pássaros não lhe eram suficientes. Nada mais lhe importava agora...

George dos Santos Pacheco

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