Desafio Literário: Os lançamentos de Andrômaque e o caminho de Odisseu


ἥτις πόσιν μὲν Ἕκτορ' ἐξ Ἀχιλλέως
θανόντ' ἐσεῖδον, παῖδά θ' ὃν τίκτω πόσει
ῥιφθέντα πύργων Ἀστυάνακτ' ἀπ' ὀρθίων,
ἐπεὶ τὸ Τροίας εἷλον Ἕλληνεσ πέδον.

Quando coloquei meus pés na rua, ainda ventava o frio umedecido da madrugada. Não que este frio continuasse demais durante o dia, pois não o aconteceria, mas me equipei com o que pude das roupas do armário, tudo que me pudesse evitar algum tipo de diálogo mais prolongado durante a manhã. A semana ainda começava e eu veria mesmo correr os minutos daquele dia como veria uma faca de um assassino correr a minha própria garganta seca. Secavam também por algum tempo meus olhos durante boa parte da manhã, não sei responder exatamente o motivo, mas secavam como se nunca houvesse lacrimejado antes em vida, as pálpebras pareciam arranhar a retina qual repleta de grãos de areia; doía-me a fronte. No tom da manhã em que não se vê - não exatamente pela falta de luminescência do dia, mas exatamente pelo contrário: rajadas excessivas entorpecentes de sol - era mais comum escutar sons dos automóveis falhando ao ligar no frio da madrugada do que de fato qualquer alma viva falando ou emitindo som: agradava-me o silêncio, as retinas doídas e a fronte latejante já me eram o suficiente para o precipício matinal.
 
O caminho para trabalhar não mudava muito durante a semana, como as viagens são contínuas e em nossa região há poucas rodovias, costumava sempre acompanhar a mesma de sempre, apenas com alguns desvios diferentes. Naquele dia especificamente - era Janeiro, se não me engano: o calor era insuportável já às oito horas da manhã e as chuvas recorrentes por volta das cinco da tarde - me arranjara com o trabalho durante todo o dia. Bom, não exatamente o trabalho, pois me era necessário de fato exercer apenas durante a manhã e tarde, mas durante a noite eu me dirigiria a outra casa que ficava nas proximidades, dentro da cidade de V.. . Insinuava à mulher que era necessário o trabalho noturno já no começo da semana, pois a situação financeira que nos acompanhava não era de todo confortável: os preços haviam subido demais nos últimos anos, e as nossas profissões não eram altamente rentáveis. A mulher, em contrapartida, se mantinha nos períodos noturnos em casa a cuidar do filho, não muito velho, mas também já nada novo, exatamente naquele momento em que as crianças já correm, falam, mentem, trapaceiam e amam; acima de tudo. Da minha parte, não me ocorria qualquer tipo de problema com meus trabalhos noturnos, pois quem eu visitava era discreta e em ponto mais crucial, jamais se apaixonaria por mim, mesmo que quisesse ou que procurasse por isso: eu lhe pagaria para que não o fizesse, afinal, pagava por todo o resto da noite. Ajudava-me, ainda, que em certas ocasiões, tornava-se preciso passar a noite toda, até a manhã, para poder continuar com a empreitada na região logo cedo. Não me preocupava, de fato, qualquer tipo de reação da mulher, ou do filho, que talvez ainda não soubesse os problemas do relacionamento estável.
 
Durante o dia, o calor parecia me devorar qualquer vontade de trabalhar e me oferecer ainda o que me era de gosto maior, maior ainda que as aulas da noite: uma visita ao boteco ali próximo; e ainda, ao entardecer na região, posso dizer que o calor era ainda pior que o matinal. E é exatamente neste tipo de temperatura que a vontade da bebida assola cada vez mais o pensamento, pois eu mesmo sentia que não me era possível partir para tal empreitada, o trabalho pela manhã cedo e mesmo o encontro noturno seriam de fato prejudicados pela bebida; mas é ao entardecer, quando o horizonte se torna rubro, e os dedos rododátilos do sol nos toca, neste exato momento em que o cidadão que sai na rua e vê os carros enfurecidos se empilhando no asfalto quente da tarde e reconhece o tortuoso caminho da volta, neste mesmo momento é que as vozes do boteco, como as sereias, entram em domínio do homem que não tem seus ouvidos cobertos de cera ou nem mesmo está amarrado no mastro de seu navio; e lá é que será bem fadado a permanecer por algum tempo.
 
Permaneci.
 
Por quanto tempo exatamente eu mesmo não posso dizer, pois a bebida que se traga neste momento desliza a garganta desapercebida, e o indivíduo não consegue quantificar precisamente o número dos copos, das pessoas ou das horas. No término desta benfazeja de meu caminho, parti em bom tom, em prazer com a passagem e entorpecimento: dirigi-me aos trabalhos noturnos.

No entorpecimento da bebida, interessante como se apossa do indivíduo memórias longínquas de momentos muito nebulosos da vida, e não era de nada diferente o que ocorrera comigo na situação. Havia trabalhado alguns meses antes com a leitura da Andrômaque de Eurípides, o texto que adquirira a altos preços em um livro raro que encontrei virtualmente; e me interessava de fato a maquinaria da tragédia da produção de Eurípides, como se a própria exalasse perfumes. A aparência de Andrômaque, seu nome e sua situação tanto me atraíam que tudo se alojou em meu pensamento durante algum tempo, mas esvaneceu em poucas semanas, quando acabei meu trabalho com o prólogo da tragédia. Mas no momento em que finquei os pés no quarto, vi deitada na minha cama a própria Andrômaque. Não posso dizer que era a própria, mesmo porque sua aparência é deveras variante na cultura helênica, mas os meus olhos pousaram em seus cabelos negros frisados, seus olhos escuros como um noturno sombrio; sua pose na cama como os helenos costumavam em seus banquetes e o perfume docemente estuporante não me fez pensar em qualquer outra figura que não a princesa de Troia. Senti-me, então, Héctor, ao me deitar no tálamo com a princesa. Neste momento, porém, não posso me recordar exatamente das palavras que trocamos brevemente, enquanto ela se despia, o estado ébrio, o estupor do perfume, o quarto escurecido e a visão turva não me permitem a memória completa do acontecido, posso dizer apenas que estive em uma noite com Andrômaque, e dormi logo, sem demora, sob o efeito da bebida e do cansaço que me empurravam e pesavam meus ombros sobre o travesseiro do quarto; precisamente neste momento do sono em que pairou sobre mim um sonho, que, como todo sonho influenciado fortemente pela bebida, se mostrou absolutamente confuso, perturbado e turbulento. Não posso atestar com toda a certeza a ordem dos fatos que narrarei sobre este momento onírico, apenas é possível dizer que foi como eu os lembro e penso que assim pairaram sobre minha cabeça, deitada neste tálamo que já também não existe mais em minhas memórias.
 
Aparentemente, no mesmo momento em que pousei minha nuca no travesseiro, abri os olhos e meu quarto já se localizava no interior dos muros troianos. O tálamo, bem ornado e perfumado, era belo e bem longo, como se diversos espelhos aumentassem o tamanho do hexágono que era; meus eram olhos miravam o teto estrelado, tal a imagem do próprio céu em uma noite em campos ermos sem qualquer nebulosidade. Apesar de mirar o teto, parecia poder sentir todo o resto do cômodo e oniricamente, tudo se transformava em questão de alguns segundos: queimava-me um calor de um dia abafado e sentia como se não ventasse ou chovesse há muito tempo, o meu corpo parecia embebido em óleo, meu colarinho molhado de suor do calor não me incomodava, mas o bafo perturbava-me deitado na cama. Levantava-me rapidamente quando o teto do quarto se cobriu de chamas e gritos de mulheres ecoavam lá fora, não posso dizer como poderia escutar tudo se o quarto parecia tão longo e sombrio. Tipicamente, corria em direção ao final do quarto, mas o cômodo se estendia infinitamente, e minha caminhada já parecia sem fim quando de um espelho ao meu lado, que nada refletia, surgiu uma porta velha, a maçaneta dependurada e uma sineta. Segurei no fio da sineta, mas de chofre, antes de tocá-la, a porta se abriu e a cena de Troia em chamas cobriu a brancura dos olhos tal estivesse olhando diretamente para o sol. Caminhava para o parapeito de uma varanda que me lembrava muito a casa de meus pais, ainda quando era criança, e uma centena de corpos dilacerados cobriam a vista. O cheiro do perfume do quarto, porém, ainda me turvava outras sensações, e meu colarinho quente e úmido colava em meu pescoço. Em algum momento, tocou-me o rosto uma mulher, que imediatamente reconheci como a princesa troiana, em nada símile àquela com a qual eu dormira, seu cabelos negros agora lisos, olhos fundos e muito mais alta que a outra, uma altura absolutamente anormal para qualquer pessoa; os braços e pernas muito compridos, os dedos que chegavam a tocar os joelhos. Ao tocar-me, vi ao fundo por seu ombro o cavalo de madeira em chamas e, em seu topo, os cadáveres de Pátrocolo, Aquiles e Héctor empilhados fumegantes. Esta outra Andrômaque dizia em trímetros jâmbicos, cantava algumas vezes, e tudo que mencionava chegava aos meus ouvidos em melodiosa língua helena, que não posso dizer que compreenda completamente, todavia, em sonho, costumei outrora produzir diálogos poliglotas. Tomou-me a mão ao surgir uma escada espiral do parapeito que levava ao infinito, segui tropeçando nos mortos, gregos e troianos, jogados cobrindo o chão como o próprio piso. Seu rosto pontiagudo não me olhava, mas eu mal conseguia tirar meus olhos de seus cabelos negros e sua cintura fina como se pudesse fechar as mãos à sua volta; subimos a escada vagarosamente, e o ambiente belicoso ficava para trás, mas sentia o bafo e o calor das chamas ainda me queimando o colarinho; minha camiseta colava nas costas suadas, as palmas das mãos molhadas, enrugadas tal como tivesse chovido por horas ininterruptas, abraçavam a palma da outra, áspera e repleta de calos como se nunca tivesse visto água em vida. Subindo a escada, meus pés pareciam cada vez mais pesados e difíceis de retirá-los do chão, que me parecia coberto de algum tipo de cola, enquanto as solas descalças pisavam e grudavam no piso da escada de ferro cheio de ferrugens; é difícil dizer quanto subimos, o sentimento onírico dilata o tempo de maneira bizarra, e é absolutamente complicado definir a passagem temporal, ou mesmo como os acontecimentos se organizaram: um após o outro ou o outro após o um. Dizem que ao acordar é preciso relatar imediatamente o sonho sob pena de ele cair em esquecimento completo, não sei a veracidade disto, mas o sonho me pareceu de tal mensura real, apesar dos acontecimentos surreais, que não considero que alguém poderia esquecê-lo tão facilmente. Pousei o pé direito na cola do final da escada, um cômodo no alto da cidadela sacra de Troia, o chão espelhado me permitia vislumbrar o massacre que acontecia. As paredes escuras de pedra pareciam abafar ainda mais o ar quente do incêndio que massacrava toda a cidade intramuros, o fato do quarto apenas possuir uma janela muito pequena também não auxiliava para o frescor: era desta janela que se podia mirar além-muros, para as praias e as naus gregas vazias. Paramos ao lado da janela, a princesa troiana soltou minha mão e pousou seu olhar fundo em mim. Seu rosto, neste momento me parecia mudado: liso, sem olhos ou nariz, nem mesmo ouvidos, os cabelos também sumiram e apenas havia nesta forma um corte fundo, como que feito por uma navalha, que me parecia uma boca, mas não havia lábios lá. A porta do quarto, então - que é impossível dizer para onde dava naquela altura, ou mesmo se antes ela estava ali - arrebentou-se com um estrondo e a figura do rei de Miscenas trazia consigo um bebê enrolado em panos queimados; parou ao nosso lado enquanto a outra Andrômaque, se voltando àquela imagem, fazia escorrer lágrimas de seu rosto liso, caía de joelhos em minha frente e puxava minha camiseta como que implorasse em cântico algo que não compreendia. O Misceno arrancou os panos da criança e a lançou pela janela, fazendo-a despencar perdida nas chamas de Troia. A mulher que olhava pelo vidro no chão, abria seu rasgo na boca enquanto o filho era devorado pelo incêndio, partindo o homem pela mesma porta pela qual entrara; e ao sair, aquela Andrômaque se levantou em sua altura imensa e virou seu liso rosto para mim, abraçou-me enquanto pregava um punhal em minha lombar. Lançou-se da janela. Seu corpo descendia nas chamas, mas a visão turvou, e o sangue de minhas costas cobria o vidro do chão.
 
Acordei logo de manhã com o despertador tocando e o colarinho colado pelo suor em meu pescoço: suara demais. Meus olhos pareciam mais secos ainda que no dia anterior, a minha boca clamava por água e minhas pernas pareciam enfraquecidas como se de fato tivesse corrido pela escada onírica por horas; ademais, havia em meu estômago algum tipo de reviravolta alcóolica da noite anterior. A primeira Andrômaque ainda dormia quando me levantei, se virou no momento do toque do despertador, mas não se levantou, nem mesmo abriu os olhos para me olhar. Tomei um banho e parti, deixando o dinheiro como combinado durante a noite. Trabalhei como era esperado e parti para casa logo depois, já no começo da tarde, em um dia que era tão ou mais quente que o anterior. Na estrada já havia me esquecido do sonho, mas me lembrava de minha mulher me esperando para que pudesse fazer o café da tarde.
 
Quando cheguei em casa, depois de algumas horas de viagem, subi as escadas até o apartamento e abri a porta como de costume; havia um silêncio absolutamente comum para o momento em que o filho dormia e a mulher provavelmente estava deitada no sofá da sala. Alonguei meu pescoço no cômodo e a vi, deitada não no sofá, mas no tapete, em frente à estante de livros, segurando um garfo em uma mão e o evangelho em outra, desacordada e com o rosto repleto de lágrimas secas. Olhei-a por alguns instantes, descabelada e com as roupas amassadas repletas de marcas pelo rosto, vermelhas de tapas e alguns arranhões no braço; largando meus pertences, corri em sua direção e ela abriu seus olhos, me olhou e mais algumas lágrimas vazaram, sorriu, me abraçou, tremeu e gargalhou, disse-me que agora estaria tudo melhor e tudo se resolveria. Perguntei por ela, pelos acontecidos: sorriu mais uma vez. Perguntei pelo garoto. E seu sorriso, desenhado em seu rosto, permanecia. Não era possível acreditar em qualquer coisa do tipo, corri para o quarto do rapaz e, em sua cama, o véu do lençol cobria seu corpo, imóvel. Caminhei. Troia em chamas queimava. Lancei o véu e seu corpo, plácido, cadavérico. Marcas roxas em seu pescocinho. Troia em chamas ainda queimava.

Guilherme de Faria Rodrigues
guilhermefr.iel@gmail.com
 

guilhermefrodrigues.tumblr.com

Professor licenciado em letras no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, no ano 2012. Estuda grego clássico e latim, nas áreas de retórica clássica e dramaturgia.

3 comentários:

  1. Bem escrito e um excelente final. Tome cuidado somente para nao repetir em excesso palavras como "exatamente". Mas um belo texto, de fato. Saudacoes literarias.

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  2. Uma tragédia contemporânea. O autor (autora?) nos remete a uma atmosfera densa e particular, cheia de palavras novas que tive que buscar no dicionário. Muito bem escrita, foge dos padrões fáceis dos textos atuais. Saí da leitura suando em bicas. Não é uma leitura fácil, mas é flui com o pensamento do personagem principal. Literatura. Minha crítica é em relação ao começo da narrativa, que começa com uma manhã fria, mas logo depois a autora nos coloca sob um calor escaldante e ali permanece durante todo o texto. O calor, acredito, tem um aspecto chave e notável no texto. Gostei bastante do final, totalmente inesperado. Parabéns.

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  3. Também gostei do conto. Muito bem escrito, uma história bacana com um vocabulário muito bem selecionado, os recursos linguísticos utilizados foram bem escolhidos. Realmente, não é um texto muito fácil de ser lido, contudo, é bastante fluído e tenso, do início ao fim. Parabéns!

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