Desafio Literário: O pesadelo da Senhorita Alice


A chuva caia de modo incessante e beijava carinhosamente a janela daquela minúscula casa suja, em um cômodo úmido, o frio era mais cruel e mesmo os seres inanimados não conseguiam dormir naquela noite. Alice fazia parte desse grupo, se ela tivesse vias respiratórias, ela soltaria fumaça quando respirasse, e se conseguisse dormir, seria açoitada por seus pesadelos e sonhos maravilhosos, mas igualmente impossíveis, o que de certa forma, também se caracterizavam como pesadelos.
 

Enfim, com frio e insônia estava Alice, na escuridão, encaixotada, num espaço pequeno, compartilhando o frio com suas irmãs silenciosamente gritantes, todas entrelaçadas, competindo por seu próprio espaço, mas imóveis, seus braços, pernas, cabeças e fios de cabelo, dezenas delas enlaçadas de um modo tão profundo que parecia que formavam o mesmo corpo, mas não somente físico, já que pareciam compartilhar o mesmo pensamento, não precisando mover lábios para se comunicarem, tudo era subentendido em pleno ar, em pleno contato.
 

Onde elas estavam se assemelhava a um caixão, escuro, claustrofóbico e com o cheiro pútrido da morte, só que ao contrário dos humanos, elas não recebiam a dádiva de estarem mortas para serem enterradas... Lentamente, a luz foi adentrando dentro daquela caixa, já que a tampa foi aberta, fazendo um barulho irritante e que se propagava de modo assustador para as residentes da caixa.
 

Alice olhou para os minúsculos grãos de poeira que eram refletidas pela luz externa, e na visão de um ser tão pequeno como ela, a poeira se assemelhava com estrelas cadentes, só que a nossa protagonista não fez nenhum pedido, estava cansada de ser ignorada por estrelas idiotas e esperanças infantis. Todas ali gemeram internamente, lamentaram o mau presságio que aquela luz trazia consigo. Elas viviam enclausuradas naquela escuridão mórbida, mas não enxergavam naquela luz, a chance do paraíso, e sim as porta do abismo do Tártaro, de um abismo profundo e vivo, faminto e torturante.
 

A luz cegante brilhou contra seus olhos de vidro, e a irritação que ela sentiu, ninguém percebeu, pois sua expressão permanecia angelical e perfeita, como sempre. Uma mão grande e áspera surgiu contra a luz e com uma falta de delicadeza quase assassina, escolheu Alice para ser sua próxima vítima e a pegou com brusquidão. Suas irmãs protestaram, suplicaram, xingaram, e a seguraram pelos braços, pernas, cabelos, em qualquer parte de seu corpo em que podiam, mas nada daquele esforço fraterno impediu que Ele a arrancasse dali, ignorando os protestos silenciosos e investidas frágeis por parte das bonecas.
 

Alice tremia de frio, mas sua pele morbidamente pálida foi logo coberta por um tecido delicado, um vestido que cabia perfeitamente em suas curvas sutis e quase infantis. Seu cabelo dourado, antes emaranhado de nós, agora estava penteado e sedoso, percorrendo suas costas miúdas, sendo decorado com laços, que combinavam com os de seu sapato, mas ela pouco se importava em como estava vestida, nunca importava. Toda aquela elegância era falsa, para esconder a nudez de uma alma sofrida e atormentada por seu dono.
 

Seu dono sorriu, mostrando seus dentes amarelados pela bebida e tortos como os de um tubarão. Ele pegou finas e temidas linhas prateadas, que brilharam sob a luz da lâmpada, prontas para enforcar seu pescoço, cortar seus pulsos e queimar em seus tornozelos. E em poucos segundos depois, ela estava pronta e de frente a um espelho. O espelho a refletia divinamente, tudo ali a fazia parecer uma fada, seu cabelo arrumado, seus olhos cinzentos, sua pele clara e sua vestimenta pura, mas tudo que a mesma enxergava era um reflexo distorcido, o Cisne Negro dentro do Cisne Branco, algo mais profundo que a superficialidade, como os olhos opacos vazios, o rosto esquelético e pele fantasmagórica. Enxergava o que ninguém se atentava a ver: a verdade.
 

E assim, sem nenhum aviso prévio, o seu frágil corpo foi tragado por uma mão gigantesca, a mão de seu dono, do seu senhor, de seu deus caprichoso e controlador, para que a próxima sessão de tortura começasse. Alice avistou o palco e sentiu vontade de se debater e de gritar, mas de nada adiantaria, só acabaria se machucando mais... O holofote foi focado na boneca, e toda a atenção era reservada na marionete de no máximo trinta centímetros de altura, já que o show das famosas marionetes circenses começara.
 

Ao som de uma música de fundo, o primeiro puxão de uma das cordas metálicas quase dilacerou o pulso da boneca, e então veio o segundo, o terceiro, o quarto e assim por diante, fazendo com que ela encenasse uma dança ininterrupta, lancinante e flagelante.
 

Alice olhou para o lado e viu a sua companheira de palco. Ela também dançava assim como Alice, mas ao contrário dela, a outra sorria e se divertia, como se as cordas metálicas a dessem prazer, alguma dose de um veneno que mata e relaxa ao mesmo tempo, como uma faca de dois gumes. Giselle não era mais uma irmã, ela se perdera, as cordas metálicas a dominaram por completo, a corromperam, a apodreceram por dentro, e gradativamente ela foi aceitando a dominação com carinho, doando seu corpo e sua alma para o uso de um demônio.
 

Apesar de terrível, não era tão raro essas dominações completas, e com o passar do tempo algumas de suas irmãs definhavam psicologicamente e acabavam naquele estado lastimável, vendo naquele pesadelo, um sonho utópico, não vendo as gotas de sangue que pingavam de seus pulsos e sim, os risos vazios de uma plateia hipócrita. Alice se proibiu de sentir pena, e lutou por isso, mas era inevitável não ter dó daquela que antes a dava apoio, que chorava junto e que agora ria histericamente e encarava os espectadores como se estivesse na frente de deuses, que eles fossem a sua razão de viver...
 

Talvez, até a própria Alice terminaria daquele jeito lastimoso, mendigando sentimentos, mesmo que fosse os mais falsos, desprezíveis e vil, qualquer coisa servia. E com temor, Alice não conseguiu refrear sua fértil imaginação e se visualizou louca e perdida como Giselle e isso a fez estremecer. Enquanto encarava o que antes era sua irmã, perdida em seus devaneios, seu dono puxou a corda, fazendo com que ela soltasse um silencioso grunhido de dor, lembrando-a de que no fim das contas, ela também era como Giselle, uma boneca manipulável.
 

A cada puxão, por mais sutil que fosse, fazia gotas de sangue invisíveis brotarem de sua pele de porcelana, mas o publico não via, na verdade, o público vibrava como se estivessem alienados pela sua dor, fascinados com a tortura pública na qual ela era submetida. A vontade de chorar era crescente e sufocante, e por mais que desejasse, não conseguia derramar em gotas, o mar que havia dentro de si, afinal de contas, ela era uma boneca, vazia, oca, e incapaz de chorar.
 

Seus angustiantes olhos de vidro brilhavam de dor e ela queria poder fechá-los para não ver aquela apresentação que era obrigada a fazer, mas nem isso ela podia, seu dono contratava até isso, mas isso não a surpreendia. Ela fazia o que Ele queria, não era escolha, era conformismo, não havia revolta, era só desistência, cansaço de tentar se libertar daquelas cordas metálicas, aquilo, por mais dolorido que fosse, já fazia parte de sua realidade.
 

As cicatrizes já eram parte de sua alma chicoteada e sabia que ainda receberia ainda mais marcas, cada vez mais profundas e dolorosas. Alice já se acostumou com o fato de que era um instrumento, servia só para isso, apenas um fantoche na mão de uma criança birrenta. Com uma das ordens das cordas, a boca da boneca se abriu e uma voz falou em seu lugar...
 

E com pesar, ela concluiu que até isso roubaram dela, sua voz, sua opinião, sua personalidade e alma. Hoje em especial, ela nunca tinha se sentido tão vã, seus pensamentos pareciam ecoar por todo o seu corpo ridiculamente oco. Os risos dos espectadores davam dor de cabeça á boneca, mas ela continuava sorrindo, mesmo que fosse um sorriso falso, triste e quebrado, assim como sua dona.
Mas no fim, ela se manteria ali, desde que existia, era manipulada, usada, guardada, empoeirada, mas o que ela poderia fazer? Ela era apenas mais uma artista circense e poderia ser facilmente substituída por uma de suas irmãs, que eram tão idênticas e vazias como ela. De súbito o holofote se apagou, os espectadores se dispersaram animados, a cortina vermelha se abaixou e o silencio reinou.


Alice foi carregada sem carinho algum, a roupa pomposa e os laços de sua cabeça foram tiradas com violência, como se tudo aquilo que havia acontecido há pouco não significava nada e como um brinquedo enjoativo, ela foi jogada dentro da caixa novamente, juntamente de suas irmãs que a encararam com seus olhos de vidro, mas cheios de compaixão, sussurrando palavras de conforto, entrelaçando membros, num abraço fraternal, voltando assim, a formarem um só corpo novamente, compartilhando as feridas abertas e pensamentos em uníssono, cada uma temendo e esperando pela próxima vez em que seriam manipuladas novamente, até o próximo pesadelo.  

Luana Angela Lopes
lucamina@globo.com

Bem, meu nome é Luana  e eu tenho 16 anos, e desde meus 4 anos eu já me maravilhava pela leitura tão estimulada e apreciada em minha família, e quando aprendi a ler, eu fui uma dessas crianças que lia tudo em voz alta, desde placas de trânsito, classificados e até outdoors, tudo que tivesse alguma palavra, lá estava eu, encantada com o mundo novo que se estendia a minha frente, e assim, mergulhei meus olhos em livros e mais livros, falindo meus cofrinhos e pedidos de aniversários. Não tardou até que minha imaginação fértil começasse a criar as próprias personagens e universos, e comecei a escrever, o que se tornou outro vício para mim,vicio que esgotava tintas de canecas e enchia cadernos, documentos do Word ou folhas avulsas para que um dia, quem sabe, publicar meu próprio livro.

8 comentários:

  1. Caraca, bicho... totalmente inesperado... Muito bom, e que história! Bem escrita, com ótimo vocabulário, e essa metáfora da manipulação das bonecas, caramba, muito bom, muito bom mesmo. Parabéns!

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  2. Maravilhoso,eu nunca pensaria que era uma boneca...estou impressionada com a escrita, estou sem palavras...Parabéns! Maravilhoso! Magnífico!

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  3. Adorei o conto! Parabéns Tsukiko Sato! =)

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  4. Conto maravilhoso! Sua escrita é muito boa. Parabéns

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  5. Conto incrível! Sua escrita está impecável e a história é maravilhosa!

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