Desafio Literário: Casa das Lembranças


O barulho de mil cacos de vidro se quebrando em pequenos pedaços era tudo o que se  ouvia na escuridão. O som incessante, estridente e desesperador de tudo se perdendo pelo chão. Ele não fazia ideia do que era que perdia sua forma em milhares de pedacinhos, ou qual sua origem. Não sabia nem dizer onde ele próprio estava.

Percebeu que havia uma fraca luz iluminando o chão à sua frente. Seus pés descalços eram condutores para o frio que subia do seu calcanhar até o alto de sua coluna, fazendo os pelos de sua nuca se eriçarem. Alguma coisa dizia para que fizesse alguma coisa, que não ficasse parado ali olhando para o corpo inerte. Levou essa mensagem até o cérebro, como se estivesse tendo uma pequena conversa consigo mesmo. Ele tinha que andar, não havia muita escolha. Tinha que colocar um pé na frente do outro e se mover adiante, sempre adiante. Então assim o fez.

A cada passo que dava, o caminho se tornava mais visível, mas não menos assustador. O barulho continuava martelando sua cabeça, fazendo-o chorar em silêncio. O som que o acompanhava era o que mais odiava, o que lhe causava arrepios de tortura. O vidro se quebrando fazia sua mente se partir e se espalhar pelo tempo em fragmentos tão dispersos e dolorosos que eram impossíveis de se recuperar.

De repente, uma porta. Uma maçaneta redonda ao alcance da sua mão direita. A madeira estava pintada de verde musgo – só este fato já seria suficiente para fazer seus pés darem meia volta. Havia ainda uma mancha vermelha na base da porta que lhe causou uma dor quase física. Essa dor se alojara no lugar mais fundo de sua mente, onde nem mesmo seus nervos alcançavam, então ignorou a sensação e respirou fundo. Ao desviar o olhar para sobre o ombro percebeu que não havia mais por onde voltar. Não havia caminho percorrido. Era só ali.

Ele estava sozinho em lugar nenhum.

Nico engoliu a bile que se acumulara na garganta e fez a única coisa que podia naquela situação: girou a maçaneta. Sua mão ficou pegajosa e escura, ele precisou fazer uma força que achava que não tinha, mas a porta acabou cedendo.

O cômodo era escuro e cheirava à fumaça. Folhas de papel queimadas, panos queimados, comida queimada. Seu estômago se revirou com violência. Uma memória recente lhe assaltou os pensamentos... Sua mãe sempre deixava a comida queimar e seu cérebro associava o cheiro ao que acontecia enquanto ela não estava no fogão, mexendo na panela. O que acontecia quando seu pai chegava em casa exalando álcool pelos poros. Quando ela tentava revidar usando os jarros de condimentos espalhados pela cozinha ao alcance de sua mão, ou os enfeites de porcelana que ganhavam de presente da família.

O vidro se quebrando em pequenos pedaços de memória...

Não queria entrar, mas teve a impressão de que não o deixariam sair pela porta novamente, então seguiu em frente. Havia uma bancada de mármore no centro. Uma faca de cozinha repousava sobre uma tábua de cortar. Ignorou a visão e observou o chão por onde pisava. O som de cacos de vidro aumentava a cada passo.

Havia outra porta e outra maçaneta ao alcance de sua mão esquerda. Porém, antes de chegar até ela, algo foi arremessado de dentro e a madeira tremeu com o impacto. Tomado pelo choque, Nico escorregou, enrolou-se nas próprias pernas e caiu. Do chão frio, viu a madeira se mexer e a origem do som dos cacos que caim atrás da porta.

Alguém chorava.

Suas mãos estavam sujas e suadas, mas ele não se importou ao levá-las aos ouvidos para abafar o barulho antes de se equilibrar sobre os pés novamente. Andou o mais depressa que pode sem correr. Para longe da porta, dos sons, do cheiro...

Passou por outros cômodos no caminho. Alguns abertos e expostos. Um piano de brinquedo quebrado no centro de um deles, uma boneca de pano rasgada no outro. No terceiro, o marco da porta estava destruído e a madeira estava tombada no chão. Lá dentro – seus olhos não se continham em espiar – com metade de corpo sob a porta arrombada, estava um animal que ele não conseguiu identificar à distância.

Horrorizado, tirou as mãos dos ouvidos e esfregou os olhos. Eles estavam molhados e Nico não soube dizer quando havia começado realmente a chorar. Se seu pai o visse naquele momento, ele tinha certeza, ficaria tão zangado que provavelmente perderia o controle.

Perder o controle, aliás, era o que ele mais fazia.

Nico tentou sufocar o choro dentro de si, mas foi em vão. Os soluços saiam alto e desgovernados. Tentou ainda correr para longe, mas por todo o caminho havia mais portas e mais lembranças que lhe atacavam como lobos famintos. Dilascerando seu coração e sua mente, rasgando cada centímetro de seu ser que ainda insistia em sobreviver.

Quando resolveu parar para tomar fôlego, as portas haviam sumido. O chão debaixo da sola de seus pés estava áspero, arenoso. Ainda estava escuro, ainda podia ouvir alguém chorando. Talvez fosse ele mesmo, não soube dizer.

Observou seus dedos machucados. As mãos cheias de graxa e fedendo a àlcool, os cacos de vidro espalhados ao redor de si, finalmente visívei,s e seu choro ecoando por toda a eternidade.

Parado no cômodo junto de Nico estava um garoto de cabelos pretos e roupas estranhas. Ele não piscava nem sorria, mas Nico sabia o que ele estava fazendo. Sabia o que ele conseguia fazer e entendeu quase que imediatamente que não adiantava se esconder. Seus maiores temores estavam – e sempre estiveram – presentes para te assombrar. Na sua mente, ou na realidade.

- Onde eu estou? – gemeu em voz baixa.

- Você não sabe? – a voz do garoto era grossa e gutural de uma maneira nada natural.

Nico tremeu. Estava frio, ele se sentia desolado, com o coração gelado e sozinho. Terrivelmente sozinho.

- Não sabe o nome desse lugar? – o menino ergueu as sobrancelhas e continuou. – Você está...

E só então a umidade chegou aos seus pés. Seus joelhos estavam encharcados, as gotas da janela aberta molhando todo o cobertor. A ventania congelava seus ossos, fazia seu queixo bater involuntariamente. Abriu os olhos. Sua respiração formava uma gélida e densa fumaça de calor ao deixar seu corpo, como se sua alma estivesse saindo por todos os seus orifícios.

Não teve tempo de pensar. Os trovões da tempestade invadiam seu quarto. Ele estava finalmente em casa, em sua casa de verdade, e a campainha estava tocando.

Fechou a janela e observou a chuva grossa e feroz por alguns segundos. Ele um dia pensou que não houvesse nada mais violento que a própria natureza, mas sabia que estava terrivelmente enganado. Depois de tantos anos de experiência, ele não se considerava mais uma criança. Não acreditava mais em sonhos.

Desceu as escadas sacudindo os pés nús para se secar. Suas costas também estavam molhadas e pegajosas, porém, ele tinha certeza, isso não era consequencia da água da chuva que entrara pela janela aberta e encharcara sua cama.

Estava tarde, esse detalhe era evidente mesmo sem saber das horas. A campainha tocava sem parar. Ficou na ponta dos pés e espiou através do olho-mágico. Ninguém fazia isso, todo mundo achava aquele vidrinho oval e quase imperceptível um acessório inútil, mas seu corpo tremia tanto que não teve nem coragem de abrir a porta. O olho-mágico veio bem a calhar.

Havia um garoto de pé do lado de fora. Seus cabelos eram tão escuros que ele parecia estar usando algum tipo de capacete, ou capuz. Suas botas estavam molhadas da chuva, mas todo o resto parecia intacto. Em suas mãos havia um pequeno chumaço de folhetos azuis-escuros. Nico não conseguiu ver nenhum traço de guarda-chuva perto do menino, não soube informar como ele não estava simplesmente ensopado.

Prendeu a respiração atrás da porta e olhou para os próprios pés para se certificar de que eles ainda estavam no chão. Lembrou-se da técnica de se beliscar para ver se ainda estava sonhando, mas resolveu olhar pelo buraquinho ocular novamente só para ter certeza de que não havia imaginado o garoto.
Não, ele ainda estava lá. E fitava-o diretamente no olho direito através do olho-mágico.

Nico estava de olhos bem abertos, mas pensou ainda estar vagando pelas lembranças em sua mente. Levou a mão à boca e se encolheu atrás da madeira, escorregando lentamente até o chão. Seus joelhos se dobravam involuntariamente, como se tivessem subitamente perdido a capacidade de sustentar seu corpo frágil e franzino. O menino estava lá, ele sabia, e era o mesmo que vira com os olhos fechados. O barulho da tempestade abafava seus soluços.

Em seu estado de choque, demorou um bocado a perceber que haviam enfiado, através do vão entre a porta e o chão, um panfleto azul-marinho. Teve um medo tão grande de pegá-lo que até se afastou do papel. Mas, afinal, o que um papel poderia lhe fazer? Depois de todas as coisas que havia testemunhado?

Enganado, ele estava extremamente enganado e desejou não ter pego o panfleto no momento em que o fez. Nele havia, em letras curvadas de cor laranja, um convite para conhecer o mais novo parque temático de diversões da região. No centro, a foto de uma casa e uma legenda que indicava ser a atração principal do lugar.

Pesadelo onde sua realidade pode não ser um presente. Esse era o nome da casa dos horrores.

E a foto, Nico reconheceu sem precisar olhar duas vezes, era sua casa de verdade, seu lar, o lugar em que se encontrava naquele instante.

Ali estava sua mais triste realidade, o presente. Nicolas estava vivendo no pesadelo.

Lorena de Carvalho Oliveira                                   
lorenadco@gmail.com                  

http://www.marcadocomletras.com

Lorena Miyuki. Mineira de 26 anos, analista internacional por formação, professora por profissão e escritora por paixão. Participa de concursos literários, comunidades de desafios e grupos de discussão em diversos sites. Se diz especialista em cultura alternativa, queer e fantástica. Participou com uma publicação na coletânea A Fantástica Literatura Queer. Trabalha na inserção de literatura colorida na vida das pessoas.

Um comentário:

  1. Excelente! Texto muito bem escrito, vocabulário bacana e uma história interessante. Conseguiu manter a tensão do conto do início ao fim, o que considero muito importante em textos desse gênero. Parabéns!

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