Café Literário: a barata, o rato e a palavra

 
Uma barata que desistira de beliscar o pudim devido ao risco da operação. No lugar onde ela estava tudo era só silêncio, trevas e insuficiência de ar; o seu mundo que a natureza lhe dera. E ela parecia não reclamar, vivia como todas as baratas e como todo mundo:vivendo. E viver não é viver? Quem diria o contrário? Quem explicaria o milagre da vida? Milagre para o bem e para o mal. As baratas também precisam viver, não é culpa delas, por isso que comem as comidas dos homens na calada da noite. Comem um quase nada, algo imperceptível, que não faria falta ao mais mendigo dos mortais. Eles não querem que elas vivam, posicionando-se, assim, contra a natureza, que lhes deu a vida tanto quanto aos homens. Mas estes se sentem superiores, fútil e infeliz soberba, ilusão de quem não conhece a vida, tampouco a si próprio. Barata não precisa trabalhar para viver. Já encontram o mundo pronto para si, enquanto que os seres humanos... Nunca fizeram guerras, tal insanidade jamais lhe passou pela cabeça. Alguém pegou um spray que comprara no supermercado, a um preço mais caro do que o de um quilo de feijão, e apertou o botão sobre um buraco no rodapé, fazendo com que o inseticida invadisse o lar da barata como um vendaval. Ela não teve outra saída a não ser sair, tão tonta quanto aqueles submetidos às câmeras de gás dos nazistas. Ele não quis esmagá-la com o sapato que já pisara em outras baratas. O nojo era maior, preferiu abaixar-se e cobri-la com um jato de spray. Ela ficou toda molhada, não de orgasmo, e em questão de segundos morreu. Uma salva de palmas. O homem olhou para trás e viu que seus familiares o saudavam pelo ato heróico de ter matado a barata. Um dia ele foi ao quintal com um espeto de churrasco à mão. Todo resoluto. Descobrira a toca do rato. Enfiou por diversas vezes o espeto de ferro até que sentiu que houvera atingido algo como carne. Carne de rato, que poderia ser de boi, de peixe, humana... O rato gritou em desespero, ele espetava mais, apesar do nojo que o fazia franzir o rosto a ponto de lhe aparecer marcas de expressão, as famosas olheiras. Mandou a mulher e os filhos se afastarem, não queria que eles vissem a cena nojenta, nem ele queria vê-la, mas futucava o rato com o espeto dentro, se o tirasse imaginava que o rato poderia fugir para seu mundo subterrâneo, ao qual ele não conhecia, embora fossem ambos formados de células, DNA, coração, pulmão, intestino, sangue, ânus, fezes... Tão semelhantes em essência, e tão diferentes na forma e nenhum dos dois sabia o porquê de todas essas coisas tão visíveis e tão sensíveis. Estavam praticamente no mesmo nível de compreensão do mundo. O homem estava matando o rato por que era mais forte e inteligente do que ele, mas se fosse um leão a matar o homem a notícia da tragédia humana ocuparia a primeira página de todos os jornais. Poucos anos depois de ter matado o rato, o homem morreu. Ninguém o matou, mas ele havia matado a barata e o rato. Não foi nenhuma vingança dos espíritos destes seres. Ele morreu simplesmente por que o homem morre. Já dizia uma das premissas do célebre silogismo: "Todos os homens são mortais". As palavras estão dentro de cada um, bem antes de terem surgido nas gramáticas, nos textos ficcionais, nas leis, nas execuções penais... Tirá-las de dentro assemelha-se a um processo de escavação profunda, às vezes encontra-se ouro, prata, esmeraldas, água ou simplesmente terra inútil, que não serve para plantar nada, que não serve para praticamente nada. O deserto está cheio de areia, por isso ninguém mora lá. As palavras precisam ser trabalhadas, sem o que nada valem, são não mais do que areia no deserto. A simples escavação não dá conta de tê-las como algo precioso. Há todo um complexo processo de valorizá-las, isto é o que conta, é o que as define como úteis ou inúteis. O mundo tem mais ou menos o mesmo número de palavras e de ondas no mar. Talvez até hoje ninguém tenha ainda feito esse cálculo. Mas não é difícil de se imaginar. O processo civilizatório se deu trancando-se portas e janelas. Quando uma civilização cria portas e janelas têm-se aí um sinal revelador de sangue. Um cheiro de sangue na história. Um rastro de sangue na história. Fechaduras e grades de uns contra outros. Se houvesse a partilha equitativa, tudo isso seria amenizado. Fechaduras, grades e armas cada vez mais sofisticadas e mortíferas para garantir a desigualdade. Leis, exércitos, burocratas... Terras fábricas, bancos... Religiões: está escrito desde sempre para sempre. Até as religiões passaram a ser uma propriedade privada a cargo dos poderosos. O processo civilizatório mudou muita coisa que a natureza criou em estado latente. Só não mudou as essências naturais, basta observar tal veracidade na história envolvendo o homem, a barata e o rato. A natureza observa o processo civilizatório do alto, tão superior quanto a morte o é em relação à vida. Avance, homem... avance, homem... diz a morte com um sorriso tão fácil de sorrir. Para ela tudo é fácil, nem precisa respirar. Sequer precisa existir. É por que é, e talvez não seja. Quanto ao homem, quanto esforço, milhares de anos para construir tão pouco, para chegar a tão pouco. A barata e o rato não construíram nada, não fizeram força nenhuma e são superiores ao homem, apesar deste ter maior superioridade em matá-los. Quando aquele homem que matou a barata e o rato estava em seu leito de morte, seus familiares e amigos o cercaram de sofrimento e comoção. No dia do enterro e por muito tempo ainda foi um ranger de dentes, como se tratasse de uma das pragas que Deus lançara ao Egito. Quando a barata e o rato morreram nada disso houve, a não ser a morte; no caso do homem, há muito mais do que a morte. A morte é um instante que não se pode medi-lo, mas a pré-morte e a pós-morte pode durar dias, meses, anos, prolongando dor, agonia, sofrimento. Nenhuma barata sofreu a morte da barata. Nenhum rato sofreu a morte do rato. Que vantagem sobre os homens. As palavras ordenaram o processo civilizatório. Fizeram-no seguir um caminho ao invés de outros. Elas são extremamente poderosas, por isso, talvez, Salomão tenha dito: “mais fere a má palavra do que a espada afiada”. Sendo rei, ele era dono da espada; sendo dono de Deus, era dono da palavra. Pesou a ambas, uma em cada mão, e logo sentiu a mão esquerda tombar, justamente a que tinha a palavra, enquanto a mão direita brandia a espada, buscando uma reação, mas já não adiantava nada: a palavra vencera. Na verdade, já era vencedora antes e desde o início vem sendo. A espada sempre esteve a serviço da palavra; trata-se de uma mera serviçal. A espada de tão estúpida busca estar sempre ostensiva, a palavra esconde-se na grandeza dos poucos que a têm. A espada é matéria, facilmente destruída e reconstruída pela palavra. Aos olhos do senso comum a espada sempre foi superior à palavra, isto tem facilitado a dominação através do processo civilizatório. Eles não conhecem a palavra, o que os faz serem facilmente domesticados por esta, que conta com a espada caso falhe a persuasão. Quem está de posse da palavra tem o poder, mas eles não entendem. O que eles veem é a espada, a palavra lhes é incompreensível e imperceptível. Quando a palavra se lhes apresenta quase como uma matéria, quase como a espada, fá-lo para enganá-los. E consegue sem muita dificuldade. A palavra tem o dom de iludir. Eis-me aqui, diz-lhes a palavra! Quando todos a observam e a escutam, a espada vem por detrás e corta todas as cabeças. A espada sem a palavra seria um punhado de ferro enquanto matéria-prima, jamais sob a forma de espada. A palavra foi quem deu à espada a forma de espada. Mas a palavra não se deu uma forma, ela é esperta o suficiente para não tê-lo feito. Ter forma é estar à disposição para ser atacado. A palavra não tem forma, ela cria formas, até em forma de palavras. Um texto qualquer é a palavra em forma de palavras. Mas ela não está no texto, apenas suas representações. É como a metáfora do corpo e da alma. A palavra é alma, algo desconhecido, mas também se apresenta sob a forma de corpo: um corpo de palavras. Este corpo seria morto se não fosse a palavra-alma a animá-lo. Mas onde está esta palavra-alma, quem é ela de fato? Ninguém sabe. No entanto, é fácil sentir-se o seu poder, para o bem e para o mal. Ele pensou que também tivesse alma como a palavra. Por que dentro do seu corpo parecia haver algo que não era corpo. Se não era corpo então era outra coisa, pela lógica da diferenciação. Dera-lhe o nome de alma. Olhou-se no espelho de vários ângulos e só viu corpo, nada de alma. Seria a alma o nada? Questionou-se pensando ter descoberto uma pista ou até mesmo a verdade. E o que seria o nada? Com esta pergunta jogou por terra a hipótese de a alma ser o nada. Pensou que o nada deveria ser bem maior de que a alma, pois não havia somente a sua alma no mundo, mas uma infinidade através do tempo que parecia-lhe infindo. Se uma coisa é maior que outra, a ponto de conter várias outras semelhantes, então ambas não podem ser a mesma coisa. Voltara ao ponto de partida e sentia-se tão cansado que resolvera dormir. Sonhou que estava caindo no abismo. Levantou-se suando frio e assustado, temeroso. Passada esta sensação, perguntou-se se o sonho pertencia à sua alma ou à sua mente. Cansou-se novamente e dormiu sem ter-se lembrado se tivera outro sonho naquela noite. Acordou decidido a ir matar o rato, pois vira no entardecer do dia anterior o buraco no qual ele se escondera. Depois que o matou, jogou gasolina no buraco do rato e  um fósforo aceso em cima. Arrependeu-se de tê-lo matado com o espeto, poderia tê-lo feito apenas com a gasolina ardente, assim provavelmente o veria sair correndo pelo quintal como uma chama acesa, da forma que um dia vira na televisão uma mulher religiosa, após atear fogo a suas longas vestimentas, uma por debaixo da outra. Algumas pessoas corriam-lhe atrás para apagá-la, mas ela as evitava. Uma espécie de Joana D’Arc às avessas, pois queria morrer na fogueira em um processo que ela mesma armara para si. Um espetáculo visto por milhões de espectadores em todo o mundo. Um alto nível de audiência no horário nobre. Comparável àquela menina vietnamita nua atingida por bombas napalm lançadas pelos americanos. As bombas sobre o Iraque, fogo e fumaça em grande profusão, mortas mulheres e crianças, um outro espetáculo civilizatório. A palavra aposentou a espada pois tem armas de alta destruição sobre as quais tem domínio absoluto. Continua viva a metáfora de Salomão: “mais fere a má palavra do que a espada afiada”. A má palavra é a ditadura de Saddam e a guerra de Bush, as bombas são consequências que não existiriam se não houvesse a palavra como causa.

Vinicius Bandera
 
Pós-doutorando em História Social (USP). Doutor em Sociologia (UFRJ). Autor do livro "Liberalismo e cientificismo: conflito de paradigmas na correção/proteção de menores na virada do século XIX para O XX" (Editora UFRJ, no prelo). Autor de 18 artigos publicados, 52 contos (4 publicados) e 2 romances (não publicados). Diretor, roteirista e editor de 4 longas-metragem em HD digital.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.