Um amigo para Veriato



Um dia lindo. O céu estava azul como em nenhum outro e o sol brilhava forte e quente. Seria ótimo pegar uma praia... Eram sete horas da manhã, e apesar disso, algumas pessoas já se preparavam para o passeio. Veriato olhou para seu uniforme e para a caixa de isopor no canto da sala. Era só enchê-la de cervejas... Mas teria plantão justo hoje! Lembrou-se dos curativos, injeções e aquele insuportável cheiro de remédio que todo hospital tem. Não tinha jeito mesmo.

Pôs seu uniforme branco com desdém, pegou a chave de seu fusquinha ama-relo e seguiu para o trabalho. Ia praguejando o caminho todo. Por que dentre tantas profissões escolheu logo ser enfermeiro? – É uma profissão muito bonita, seu avô era enfermeiro... – arremedou ele enquanto dirigia. Isso era o que a sua finada mãe lhe dizia. Que Deus a tenha!

No rádio tocava um pagode e ele aumentou o volume. Ia frequentemente a rodas de samba, tomar umas cervejas e tirar gosto com torresmos. Estava muito acima do peso, mas isso não era dificuldade para dançar. Sempre levava Tereza, sua mulata, para essas festas. Já Lúcia, sua noiva, ele acompanhava às missas. Ela não podia nem sonhar que ele tinha uma amante. Sempre fez o tipo bom moço para a família dela e esse tipo de descoberta acabaria com sua reputação.

E sua vida era só isso: Hospital de dois em dois dias, pagode, um trato no fusca, Tereza e Lúcia. Ah! E ainda tinha os churrascos nos jogos do Flamengo. Depen-dendo do nível das pessoas presentes no evento, ele escolhia entre a amante e a noiva para lhe fazer companhia.

Parou o carro em frente a um bar, próximo do hospital. Não tinha comido nada até agora e seu estômago roncava mais que o motor.

– E aí irmão! Me dá uma coxinha de frango e uma lata de cerveja! – pediu ele ao se apoiar no balcão. Acendeu um cigarro e tragou profundo. Fumava um maço por dia e o bigode que ele cultivava há alguns anos tinha os pêlos um pouco amarelados por conta disso.

– É para já! – disse o atendente esticando os pedidos para o enfermeiro. – Vai fazer muito calor hoje, não acha?

– Pois é... E eu estou de plantão... – disse ele de boca cheia. – Mas amanhã quando eu sair do serviço vou à praia. – disse bebendo em grandes goles.

Pegou o cigarro que ele havia depositado sobre o balcão e tragou até o filtro, jogando-o no chão após isso. Deu uma última golada na cerveja e chamou novamente o rapaz, que a essa altura já atendia a outro cliente. Pegou sua carteira e com uma cédula pagou pelo lanche. Conferiu o troco como de costume. Desta vez, havia muito mais do que o correto. O balconista havia se enganado.

– Está certinho, amigo? – perguntou o rapaz.

– Está sim. Até outra hora camarada! – disse ele pondo a grana no bolso e indo para o carro. – Se fosse com ele, teria feito o mesmo... – pensou.

No hospital passou nos quartos, conversou com alguns pacientes e trocou alguns esparadrapos. Seguiu para outra enfermaria, onde uma moça tomava conta de um senhor que tinha câncer nos pulmões, e estava mais para lá do que para cá. Usava uma blusa decotada e uma saia a um palmo dos joelhos, deixando à mostra seus pelos, cuidadosamente dourados. – Uma delícia... – pensou ele. Aproximou-se dela.

– Então, como ele passou à noite? – perguntou.

– Do mesmo jeito... – disse dando de ombros.

– Só você é que toma conta dele?

– Restou apenas eu. Como ele não tem filhos eu decidi cuidar dele. Sou sua vizinha e morri de pena quando ele adoeceu. Ele não tem mais ninguém nessa vida. Às vezes peço a Deus que o leve logo, assim ele deixa de sofrer e eu descanso um pouco. – disse a moça.

– Está cansada?

– Se estou! – disse ela levantando-se, esticando os braços. Puxou a saia para baixo, pois ela teimava em subir. Não se importava com os olhares de Veriato, que mais parecia um cachorro em frente a uma máquina de assar frango.

– Seu namorado deve se incomodar com essa situação...

– Ele nem liga. E já tem um tempo que a gente não se vê, sabe?

– Vem comigo, tenho um remédio ótimo para seu cansaço... – disse ele.

– Mas, e o Sr. Alcides?

– Está dormindo feito uma pedra, não vai nem notar sua falta! – murmurou ele ao se aproximar mais da moça. Temia que os outros pacientes ouvissem sua conversa. – Mas espere que eu vá até lá e depois me siga. O enfermeiro chefe não gosta que os acompanhantes entrem na nossa sala.

– Está bem... – disse ela sorrindo.

Veriato foi rapidamente. Deu uma olhada em tudo, para ver se havia mais alguém. Já havia levado dúzias de mulheres para lá, dos vinte aos cinqüenta e poucos anos, sem fazer distinção. A moça chegou e ele fechou a porta. Para ela não era nenhuma surpresa. Sabia exatamente o que ele queria dizer com “remédio ótimo”. Tomou-a fortemente e se beijaram com avidez. Treparam ali mesmo, como dois animais, sem ao menos tirar uma peça de roupa. Não podiam perder tempo. Em quinze minutos estavam cada um seu devido lugar e o enfermeiro não sabia nem o nome da mulher. Para quê saber?

A noite chegou e um hospital sempre fica mais triste a essa hora. Os passos de um lado para outro de pacientes, acompanhantes, médicos e enfermeiros deu lugar a um silêncio que metia medo. Às duas da manhã, o médico de plantão e Veriato foram chamados para atender Sr. Alcides, que estava tendo uma crise de falta de ar. Fizeram tudo quanto podiam, mas era tarde. O velhinho deu seu derradeiro suspiro e não havia mais nada a fazer. Nem família ele tinha para ser avisada. A mulher, de quem Veriato nem sabia o nome, no fundo estava se sentindo aliviada.

Agora precisava preparar o cadáver. E isso era uma das coisas que ele menos gostava. Algodão em todos os orifícios, um coisa ali e outra ali. Na verdade, não fez tudo que devia fazer, por preguiça.

– Por que você tinha que morrer a essa hora? – esbravejou Veriato. – Não podia ter esperado pelo menos até as seis horas?

Foi empurrando a maca até o elevador, reclamando o tempo todo. O necroté-rio ficava no subsolo e para levá-lo até lá não tinha outro jeito senão o aparelho. A porta se abriu e eles entraram. Apertou o botão diversas vezes para a porta se fechar, como se isso fosse apressar as coisas. Puxou o maço de cigarros e acendeu mais um, de dezenas que já tinha fumado hoje. No meio do caminho o elevador deu um solavanco e as luzes piscaram. Logo depois faltou força, e ele ficou às escuras.

– Mas que droga! Tinha que acabar a luz justamente agora? – disse ele com o cigarro no canto da boca, dando um soco na parede do elevador. Em um minuto a luz acendeu, mas o elevador não saiu do lugar. – Desce, merda! - reclamou Veriato apertando o botão novamente. – Mas será possível! – disse ele se escorando no canto oposto ao da maca. Olhou estupefato para ela, algo se mexia por baixo do lençol.

– Ah! – disse o velho se espreguiçando. – Quem foi que colocou essa merda no meu nariz? Foi você? Sabia que isso incomoda? – disse Alcides tirando o algodão de suas narinas.

– Mas o que é isso? Você está morto! – disse ele com os olhos arregalados.

– Boa essa! Agora adivinha o que vai dar na Sena amanhã. É claro que estou morto! – disse se sentando na maca. – Vem cá, tem mais desse algodão em mim?

– Você não pode falar, você está morto! – disse Veriato assustado como nunca. Começou a bater desesperado na porta, na esperança de que alguém o ouvisse.

– Meu filho, existem tantas coisas que não podem e mesmo assim acontecem... – disse o velhinho. – Por exemplo: você é noivo e mesmo assim traçou a gostosa da minha vizinha.

– Como sabe disso? – disse ele parando de bater na porta.

– Estou morto, mas não sou nenhum trouxa! – disse ele piscando um dos olhos. – Escuta filho, você não tem mais nenhum cigarro aí não?

– Senhor... – disse ele apontando o dedo para o velho.

– Alcides. Me chame de Alcides...

– Alcides, você não pode fumar, você está morto! Eu devo estar ficando maluco!

– Para começar, eu posso fumar sim, você é que não pode. Está vendo onde o cigarro me trouxe? Um câncer de pulmão fatal. Se eu fosse você, com... Acho que deve ter uns trinta e cinco anos... eu parava agora! E outra: você acha que está maluco por falar com um morto? Tem gente que fala com bicho! Tem coisa mais idiota que isso?

– É verdade. Mas não entendo como... – disse ele esticando um cigarro para o velho e acendendo com um fósforo.

– Não queira entender meu filho. Tem coisas que foram feitas para não serem entendidas. Outras, porém... Este fósforo que acabou de jogar no chão. Não seria melhor jogar no lixo? Um dia você terá filhos, e que mundo você quer deixar para eles? Um com uma montanha de fósforos usados?

– Você nem me conhece Alcides, do que está falando? – disse ele sentando ao chão. Já não se importava sobre quando iam abrir o elevador.

– Sim, mas não é preciso conhecer você para saber que fuma como um desgraçado e que só come besteira. Olhe o tamanho de sua pança! Daqui a uns dias não vai conseguir ver mais seu pinto! – disse o velho dando uma gargalhada.

– Isso não tem graça... – disse Veriato.

– Agora tem sim. Mas daqui a alguns anos... Você poderá infartar a qualquer momento. Se cuide meu filho! Você tem a vida toda pela frente. Veja meu caso: morri sem ter ninguém da família por perto. Não acha triste isso? Aquela mocinha não estava nem no quarto quando eu comecei a passar mal. Devia estar dando para outro enfermeiro...

– É... Eu não queria isso para mim não... – disse ele pensativo. – Mas como isso aconteceu?

– A vida que a gente tem é a vida que a gente leva. Desde moço eu só gostava de sacanagem. Bebia e fumava desde os catorze anos. Tinha várias mulheres e sempre me orgulhei disso. Acho que devo ter algum filho perdido por aí, inclusive... Mas isso não vem ao caso. Havia uma pequena que eu adorava! Ah Dulce! Certa vez ela engravidou. Fiquei desesperado, ainda não estava preparado para ter filhos. Pedi que ela tirasse e ela, apaixonada, abortou. Depois de encontros e desencontros, nos casamos. Mas ela nunca mais pôde ter filhos. Uma tristeza...

– Por que não adotaram?

– Não tivemos tempo. Ela morreu aos trinta e cinco anos e os médicos nunca descobriram o motivo. Nunca fui santo, mas depois disso fiquei pior ainda. Arrumei mais um monte de amantes. O pouco dinheiro que eu tinha gastei com elas. Tem mais um cigarro aí?

– Tome... – disse ele esticando outro. – E essa moça, não era sua filha mesmo?

– Não que eu saiba. Senão eu não tinha passado a mão nela, quando ela cuidava de mim, lá em casa. Gostosa à beça, não acha? Nunca me deu oportunidade... – suspirou ele.

– Eu é que sei!

– Pois é, não deveria. Por que não respeita sua noiva? Gostaria que ela estivesse trepando com qualquer um que ela encontrasse?

– Mas é claro que não!

– Então meu filho, é melhor mudar de atitude. Assim você dá liberdade para ela fazer o mesmo. Honestidade acima de tudo. Ser humilde é importante, mas ser honesto é fundamental. Se nós fizéssemos a nossa parte, o mundo seria bem melhor. Talvez até menos políticos corruptos tivéssemos...

– O que quer dizer com “fazer a nossa parte”? Eu já trabalho para cacete aqui nessa merda! Eu tenho que me dar bem de vez em quando! Isso é justo!

– Não basta. Pagar um prato de comida para um mendigo é um bom começo. Devolver o troco que nos deram errado também é uma boa... Não é apenas fazer o certo, é algo a mais... - disse ele soltando a fumaça pelas narinas. Fez uma cara feia e disparou: - Puta que pariu, mas que cigarro ruim este, hein?

– Ah! Você é que é um ingrato, velho safado! - esbravejou gesticulando. - E isso tudo aí é uma grande bobagem! A vida passa rápido e temos que aproveitá-la do melhor jeito que pudermos!

– Pode ser bobagem para mim que estou morto... – disse ele dando de ombros. – Mas para você, garanto que não é. Lá na frente, são justamente essas pequenas coisas que vão fazer a diferença. O que eu queria mesmo era uma segunda chance, aí eu faria tudo do jeito certo... – disse cabisbaixo e o enfermeiro percebeu uma lágrima pender de seu rosto.

Veriato não pode evitar, sentiu-se tocado com as palavras de Alcides. Ia dizer mais alguma coisa, mas um clarão surgiu à sua frente. Ouviu várias vozes, que se embaralhavam aos conselhos de Alcides. Não conseguiu entender nada. Eram alguns bombeiros que haviam aberto a porta. Parecia que já havia amanhecido. Retiraram o enfermeiro do elevador, um tanto cambaleante. Ele olhou para trás, e Alcides estava deitado, com um lençol cobrindo-o, exatamente do jeito como entraram ali...

George dos Santos Pacheco

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