Segunda-feira


Ouviu alguém chamando lá fora, mas nem se importou. Continuou deitado em sua cama, se confortando com o calor agradável das manhãs sob as cobertas. Alguns raios de luz vindos de uma fresta entre as cortinas mal fechadas pousavam sobre ele. Lá fora, o sol era escaldante, mas Deodato não se incomodava em seu quarto. Aliás, não se incomodava com muitas coisas, há muito tempo. O lixo se acumulava nos cantos e a louça transbordava na pia, ainda com restos de alimentos, estragados, que atraíam ratos e baratas. Deodato não estava nem aí para isso.

Outra vez lhe chamaram, agora com mais vivacidade. Mas que diabos queriam com ele? Deodato não falava com ninguém, não tinha amigos, nem namoradas. Ninguém o visitava nem lhe mandava flores, nem cartas. Ele sempre achou essas coisas uma bobagem...

Faltava ânimo para tudo, mas enfim, se levantou. Espreguiçou-se, bocejou e esfregou os olhos. Sentiu suas pernas pesadas e caminhou arrastando-as. Foi até a sala e afastou um pouco as cortinas com a ponta dos dedos. Estranho... Não havia ninguém por ali. Talvez estivesse ouvindo coisas.

Em um campo de terra em frente de casa havia algumas crianças brincando, e isso o fez lembrar como era feliz quando menino. Há muito tempo aconteceu algo, que ele já não conseguia lembrar, ou não queria. Uma espécie de esquecimento forçado. Ele não fora sempre assim. Olhou em seu redor e observou: a casa era velha, com móveis velhos, e paredes cheias de manchas, que não viam tinta há anos. No alto e atrás das portas havia teias e mais teias de aranha, que aliás eram as únicas que trabalhavam por ali. Deodato perdera o emprego há anos e nunca procurou outro. Nunca se esforçou para isso, e se esquivou inclusive. Comia o que havia para comer, e o aluguel já nem lhe era cobrado. Afinal, ele não pagava mesmo. Vivia ali de favor, e pouco se sabia sobre ele.

Seus pensamentos foram interrompidos quando ouviu um burburinho em frente de casa, e se aproximou lentamente. Falavam algo ininteligível, como se fosse outra língua e Deodato assustou-se com isso. O que podia estar acontecendo ali?

Repentinamente bateram com força na porta, fazendo poeira que ali havia ficar suspensa e ele recuou assustado. Bateram então outra vez, com mais força. Pareciam estar querendo entrar ali a todo custo.

– Quem é? O que quer? – perguntou ele com a voz rouca, mas nada lhe responderam.

Deram uma terceira pancada que arrebentou a fechadura, e alguns homens continuaram forçando-a até que ela abrisse por completo, rangendo de tão emperrada. Junto com eles entrou a luz do sol, tão forte que ofuscou as vistas de Deodato.

– Quem são vocês? Não podem entrar aqui assim! – disse ele com dificuldade, com se estivesse com os lábios dormentes. Os homens não lhe deram ouvidos e continuaram entrando, passando por ele. Procuravam por algo em todos os cômodos, e tinham pressa. Deodato seguiu-os cautelosamente, apoiando-se nas paredes. O que podiam querer? Ele não tinha nada de precioso ou de valor ali.

Foi atingindo por luzes giroscópicas que vinham de fora, junto com um som de sirenes, e isso o deixou aliviado. Talvez alguém tivesse chamado a polícia para ele... No caminho cruzou com alguns homens que pareciam não se importar com sua presença. Tinham um olhar desolado e já não corriam mais. O que quer que procurassem não foi encontrado, pelo visto. Chegou a seu quarto e viu outros que pareciam emocionados, cobrindo o rosto com as mãos, e isso o deixou mais intrigado ainda. Olhou então para sua cama. Havia alguém lá, deitado de lado, imóvel, sob uma grossa coberta que ia até os ombros, as mãos juntas embaixo do rosto.

– Dá para alguém me explicar o que está acontecendo aqui? – disse Deodato. Como não lhe responderam, decidiu se aproximar do homem em sua cama e teve um sobressalto. Seu rosto lhe era familiar, mas suas expressões estavam envelhecidas deveras, o rosto cheio de rugas e foi difícil reconhecê-lo. Foi como olhar no espelho e ver o futuro. Mas o futuro se fazia presente e ele desesperou-se, tarde demais. Estava morto.

Os homens botaram-no dentro de um saco preto e carregaram até a ambulância. Deodato não conseguia entender o que havia acontecido. Estava imensamente confuso. Isso era impossível! - pensou ele com as mãos na cabeça. Há pouco tempo era jovem e belo, e agora não passava de um corpo murcho, enrugado, inerte, sem vida...

Não teve amigos, nem namoradas. Não casou, não teve filhos... Viveu sua vida meio morto, e morreu como se não houvesse vivido. Deram-lhe diversas oportunidades, chamaram-lhe várias vezes, mas ele não quis ouvir. Preferiu sepultar-se em sua casa, como num grande mausoléu. Faltou-lhe ânimo, e um mínimo de esforço, e a preguiça corroeu como ferrugem toda e qualquer esperança de uma vida feliz.

E seu nome será esquecido em pouco tempo. Ninguém chorará sua morte, da mesma forma que ele jamais celebrou sua vida.

– Então é verdade... Ela passa rápido mesmo... – pensou. Seus olhos estavam embotados de lágrimas.

Deodato sentou-se à beira da cama, enterrou o rosto entre as mãos, e chorou. Como nunca imaginou que fosse fazer e como provavelmente passaria a eternidade.

George dos Santos Pacheco

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