Café Literário: Embarcação sem quilha


Depois da primeira vez que espiei a beldade, não parei mais de pensar nela. A linda havia acabado de se mudar de mala e cuia para o conjunto de quitinetes onde ficava a minha. Eram dois pavimentos com oito apartamentos pequenos, compostos, todos eles, por um quarto relativamente espaçoso, uma cozinha americana e banheiro. Essencial para solteiros, compatível para um casal sem filhos e extremamente apertado para três. Seu Juvenal, o proprietário, era um cinquentão bem apessoado, e não gostava muito de alugar seus “quartinhos”, como carinhosamente os chamava, para moças solteiras. Dizia que dava problemas. Por essa razão, colocara uma porrada de machos feios e esquisitos, sujeitos que cheiravam a cachorro molhado depois de ter enfrentado forte temporal. Dava medo topar com essas criaturas e encarar seus semblantes fechados na escassa iluminação do corredor sombrio.

Pois bem. A nova moradora foi alojada no final do corredor, praticamente quase em frente a minha porta. O meu cafofo era o de número quatro, a da recém-chegada o seis. No apê de número cinco, residiam dois irmãos mineiros, de Juiz de Fora e, nos demais espaços, uma galera de peões de obra que trabalhava em turnos os mais diversos na construção de um gigantesco shopping nas cercanias da cidade. Nunca me esquecerei do dia em que vi essa coisa fofa e o que senti logo depois da sua aparição prestigiosa. Desde então, para meu desassossego, a considerei como uma deusa. Dona de uns cabelos lisos e sedosos que lhe caiam em cascata como uma grande nuvem de seda até o bumbum. Os olhos brilhavam num azul claro, as maças do rosto sobressaiam salientes, enquanto a boca rasgada e sensual contrastava com o corte firme do queixo. Os seios, meu Deus do céu, os seios pareciam moldados nas proporções ideais. Nem grandes, nem pequenos. Cheios, contudo, o bastante, para lhe propiciar um porte elegante, como o de Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta da lendária cidade onde ocorreu a famosa Guerra de Tróia. Sem falar na cintura, fina e sólida, os quadris generosos e redondos, as coxas fortes, terminadas numas pernas longas e bem feitas. Na olhada inaugural que lhe enderecei, ela subia com mais de uma dezena de pacotes e igual quantidade de bolsas e malas. Trouxe um rapaz à tira colo, que, a princípio, pensei ser o namorado. Porém, pelas conversas que captei entre ambos, logo depois e, para minha satisfação e felicidade, o mancebo não passava apenas de um irmão que viera ajudar com a acomodação dos cacarecos. Horas depois de tudo aquietado, deixei de bisbilhotar o corredor, ora pelo olho mágico, ora com a porta entreaberta. Parti para uma ousadia mais profunda, uma aventura mais radical. Como todos os demais cômodos eram sistematicamente iguais, concluí que se tivesse um pouco de sorte teria sucesso vasculhando a sua intimidade e, quem sabe, até capturasse algo além do normal naquele pedaço de mau caminho que cruzara com o meu. Não deu outra.

Ao meter o olho e entrar na privacidade que o buraquinho da fechadura me propiciava, por pouco não perdi o juízo. Breves segundos me pegaram completamente petrificado e estatelado, a alma macerada pelo tresloucado desejo em franca explosão. Logo depois, contudo, uma tremedeira seguida de forte calafrio se apossou de todo meu corpo. Com o corredor às escuras, percebi que a luz que vinha de dentro da sala onde ela se encontrava estava acesa. A jovem havia acabado de sair do banho e, naquele exato momento, se desvencilhava da toalha, ficando inteiramente em pelo. Falava com alguém ao celular. A boca se entreabria mostrando dentes alvos. Enquanto algo no ar delineava seus olhos, tornando o azul claro mais forte e intenso. Com quem falaria? Algum paquera? Um namoradinho? Talvez uma amiga? Senti ciúmes, um ciúme bobo e sem razão, que me fez, de repente, roer as unhas em atitude de nervosismo incontido. Ela pegou uma das bolsas sobre a cama, e, de dentro, puxou uma calcinha preta minúscula, com um coraçãozinho vermelho colado na parte de trás. Vestiu devagar, sem largar o telefone. Parou na frente do espelho. Chacoalhou os cabelos. Por segundos saiu da minha mira de observação. Eu estava em estado desesperador. Afoito, tirei para fora da bermuda um membro duro e rígido, sequioso por um carinho. Um pau de aparência endiabrada que implorava resoluto, pour entrer em lice explodir numa satisfação jamais experimentada. Ela retornou a linha de observação.  Fui às nuvens. Pirei. Estava, de novo, completamente sem nada. Por algum motivo, tirara a calcinha que vestira e caminhava, de um canto para outro, como Papai do Céu lhe trouxera ao mundo. Iniciei, então, uma masturbação marota... Vadia, sem fundamento, oculta nos lôbregos sítios da minha alma em festa e, então...

Então uma mão fria me segurou pela gola da camiseta. 

– Que é isso, meu rapaz? Quer que coloque você e suas tralhas no meio da rua? Anda daqui. Avia-te! 

O senhorio chegara em silencio –, pé ante pé. Pegou minha insensatez e falta de compostura no flagra. Nunca antes eu havia sido surpreendido com a boca na botija, num comportamento reprochado, quase a explodir num gozo desenfreado, os nervos à flor da pele. De pica ereta, asfixiei a compulsão em meio à tremedeira que se apossara de mim. Dei meia volta, completamente hebetado e entrei correndo na minha peça onde me tranquei, suando em bicas, como um animal encurralado a fugir da morte eminente, adiando as aspirações de um cinco contra um para outra oportunidade. Grosso modo, me senti como o buraco de um cu aparvalhado recebendo o pescoço de uma avestruz menstruada. Voltei a olhar pelo olho mágico, o imenso corredor mergulhado, agora, em total penumbra. O velho não arredara. Ficara a espionar pelo vão da chave, à imitação do roteiro redentor que eu começara numa contemplação ociosa. Não sei o que fez enquanto se deleitava com a visão que lhe chegava vinda do interior daquelas quatro paredes. Achei melhor tomar um banho frio e tentar bater a minha punheta interrompida para uma saboneteira em forma de bunda de mulher e, assim, esquecer, de vez, o incidente. Entretanto, algo de inusitado aconteceu nesse interregno de tempo. Em razão disso, me vi obrigado a sair do chuveiro às pressas, movido pelos gritos de pavor da esposa do proprietário. Ela berrava, pedindo socorro, batendo de porta em porta. A cena que eu e a galera nos deparamos, aos escancararmos para o passadiço a nossa curiosidade, foi simplesmente hilária, patética e ridícula. 


O senhorio tinha os olhos esbugalhados, a boca aberta, como se pedisse socorro e tivesse vivido a ronde do horror. Seu corpo frágil emborcara de barriga para baixo, na porta da nova inquilina. Quando três rapazes conseguiram voltar com ele, à posição normal, a mulher do desarranjado desmaiou em face da vergonha que se formou em seu rosto em eriçado turbilhão, como num pélago de intensidade voraz. O velhote parecia saído precipitadamente de um tour de force prolongado, pelo fato de ter desabotoado os botões da calça e descido um pouco a ceroula. Suas genitálias jaziam murchas, encolhidas e secas, expostas aos destroços de uma excitação mal deflagrada. Misturadas a ela, igualmente esfaceladas, uma infinidade de bolinhas azuis adornavam o esquisito e surrado samba canção manchando o prêmio doloroso da sua audácia que acabou prisioneira de uma indisposição sem fome de seguir adiante.       

Aparecido Raimundo de Souza

Aparecido Raimundo de Souza, 60 anos, é jornalista.

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