Bill e o sumiço do autorrádio

Depois do meu “não-muito-bem-sucedido” encontro com a Kátia, estava eu lá, novamente, no meu trampo. E eu sou tão burrinho, mas tão burrinho mesmo, que nem fui capaz de pedir o telefone dela. Durante todo o final de semana não tivemos contato algum, de modo que a única ocasião possível de um reencontro era no ônibus. Esperei ansiosamente por ela, naquela segunda-feira cinzenta. A filha da puta não apareceu, mas também, o que eu queria? Depois dos eventos ocorridos na sexta, acho que até eu não queria topar comigo mesmo.

Estava, então, distraído e fulo da vida, entregando o troco para um passageiro, quando uma moça de cabelos lisos, na altura do ombro, com algumas luzes, parou em frente a mim, sorrindo. Parecia me conhecer.

– Bom dia! – disse ela, muito simpática. Eu...acho que conheço essa voz...

– Bom dia... – respondi intrigado, e ela percebeu.

– Lúcia. – disse mulher, como se me desse uma pista para que eu me recordasse dela. O sorriso não se desfazia de forma alguma de seu rosto corado e de aparência macia.

– Lúcia! – repeti perplexo ao mesmo tempo em que a olhava de cima a baixo. Estiquei a mão para tocar a sua e ela atendeu.

– E aí? Tudo bem? – perguntou-me com os olhos cintilantes. Deu-me o dinheiro da passagem e atravessou a roleta.

– Agora eu estou muito bem... – respondi pausadamente, só para não perder a oportunidade. Para ficar claro o motivo de minha perplexidade, devo explicar que estudamos juntos no primeiro ano do ensino médio. Lúcia era uma menina totalmente sem expressão, magrela feito uma bicicleta – pense em uma mulher franzina. Não, ela não estava gorda agora. Estava muitíssimo gostosa. Seu corpo era esguio, mas repleto de curvas, um corpo desenhado por horas de academia, disso eu tinha certeza. Como ela estava atraente agora...

– Você não muda nunca, não é mesmo? – disse com um leve tom de deboche, com um de seus melhores sorrisos. Mal sabia ela que, ela sim, tinha mudado, e para melhor. Aliás, corrijo-me: ela sabia muito bem que havia mudado. E fez questão de que eu percebesse isso. Se ela continuasse aquela menina franzina, ia fingir que nem me conhecia. As mulheres gostam de ser admiradas, sobretudo, por outras mulheres, por mais incrível que isso possa parecer. E nesse caso, a mudança era gritante, e ela queria que todos soubessem disso.

– E você? O que anda fazendo da vida? – perguntei enquanto tentava observar alguns detalhes. Usava uma calça de ginástica azul turquesa, bem colada ao corpo, e uma camisa branca, com o emblema da faculdade.

– Estou fazendo Educação Física. Estou curtindo, acho que tem tudo a ver comigo...

– É... eu também acho... – concluí, pensativo.

– Como? – perguntou ela, franzindo o cenho.

– Acho que Educação Física tem tudo a ver com você. “Eu também tenho tudo a ver com você, gatinha...”

– Ah, obrigada! – disse tombando a cabecinha de lado. “Que gracinha...”

– Tem visto o pessoal? – perguntei para esticar a conversa. Na verdade esse era o verde que eu estava jogando para colher maduro.

– Nunca mais eu vi alguém da turma. E você? – perguntou curiosa. Seu tom de voz era pouco rouco, e eu achava isso um tremendo charme. Adorei quando ela disse “E você?” com aquela vozinha...

–O Túlio eu vejo de vez em quando. Esses dias ele falou de uma festa que estavam querendo organizar. Não quer deixar seu telefone, se eu souber de qualquer coisa, eu te ligo. – Olha aí a malandragem do Bill!

– Poxa, boa ideia! Me dá o seu também! – disse empolgada. Ela havia mordido a isca...

Trocamos telefone antes que ela descesse – eu não ia cometer o mesmo erro novamente. Antes de desembarcar, ela disse ter sido um prazer me rever e insistiu para que eu ligasse. “Gatinha, o prazer será todo meu!”

No dia seguinte eu fiquei na expectativa de que aquela beldade retornasse, ela contudo, não veio. Tudo bem, dessa vez, eu tinha um número de telefone. Para minha surpresa, quem  apareceu foi a Kátia, gostosa que só ela.

– Bom dia, Bill! – cumprimentou-me, toda serelepe.

– Bom dia, sumida! – respondi fazendo manha.

– Ah! Ontem eu não trabalhei, fui levar minha mãe ao médico...

– Mas... tudo bem? – perguntei, fingindo interesse.

– Agora está tudo bem, graças a Deus. E aí? Vai fazer o que hoje? É que eu não vi o final daquele filme nacional e eu estou louca para saber como termina... – disse ela cerrando parcialmente os olhos, daquele jeito safado que só ela sabia fazer. Meu garoto acordou na hora.

– Gata, eu já comprei até as entradas...

– No mesmo horário?

– No mesmo horário.

– Vou ficar te esperando... – disse ela ao dar o sinal. – Beijo!

– Não vi precisar esperar muito... – pensei, ao retribuir o beijo que ela me mandou.

Saí do trabalho correndo. Dessa vez, nada de Bombas Jamaicanas. Tomei um banho rápido, cantando “September” do Earth, Wind and Fire – eu achava essa música muito maneira – pus alfazema, aquela beca, e parti para o encontro acelerando na Jacutinga.

Ela estava mais linda do que antes, usava um vestidinho solto, de viscose, com tema de flores. Ótimo para as mãos entrarem sem dificuldade. Parei o carro, abri a porta para ela, cumprindo todo aquele ritual, e quando entrei no carro ela me surpreendeu com um “beijaço”.

– Toca pro cinema que a sessão já vai começar... – ela disse com um sorriso libidinoso. Eu não pensei duas vezes.

Eu nem percebi o tempo passar até chegar ao motel, por quais ruas eu havia passado, eu só pensava nela. Quando cheguei e pedi a suíte, o homem entregou a chave e não era a 13, para minha sorte. Suíte 7. Gosto do sete: é bonito, soa bem, tem tudo a ver comigo.

Coloquei o carro na garagem e ao olhar para a vaga do lado, percebi que o outro veículo me era familiar. A “charanga” era do Fernando, um amigo também cobrador de ônibus. Quase não nos víamos porque fazíamos horários alternados: eu pela manhã, e ele à noite. Vê só... o Fernando, com aquela cara de sonso, por aqui! Mas antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa que não fosse a “sessão do cinema”, Kátia baixou o vestido, deixando seus seios à mostra. Beijei-os avidamente, mas de súbito ela saiu do carro dando gargalhadas. Eu fui atrás – ela parecia fazer um joguinho de gato e rato, e eu queria brincar. Alcancei-a rapidamente e terminei de tirar seu vestido. Ela arrancou minha camisa com força e permanecemos sobre o capô da Brasília em deliciosas preliminares. Beijávamos nossos corpos por completo, e seus suspiros me excitavam. Ela já estava ofegante, quando me chamou para entrar. Foi então que tive um estalo...

– Espere-me lá, eu volto rápido... – disse beijando-a.

– O que aconteceu? Está passando mal de novo? – perguntou com ar preocupado.

– Não! Lá dentro eu te explico... – respondi sorrindo.

– Vê se não apronta, hein? – advertiu-me sorrindo e entrou.

Caminhei sorrateiramente, totalmente nu até o carro do Fernando: eu queria pregar-lhe uma peça! As janelas estava abertas, e fiquei alguns segundos pensando no que fazer. Avistei o rádio. Dei uma pequena puxada e percebi que não estava bem encaixado: seria fácil retirá-lo. A ideia era muito simples. Eu surrupiaria o rádio e depois o devolvia a seu dono, só para ver a cara dele! Consegui soltá-lo sem arrebentar nenhum fio, e voltei anda mais soturno pelo mesmo caminho. Deixei o rádio na Jacutinga, o que a Kátia ia pensar se o visse? Não entenderia nada e eu ia ficar com fama de ladrão!

Entrei no quarto e encontrei Kátia em cima da cama, fazendo várias performances de dança – um tanto toscas, é verdade – e juntei me a ela, que me agarrou com força, fazendo-me dançar com ela. Aquilo era muito excitante...

– Descobri o que seu nome significa...

– Não diga... – comentou mordiscando minha orelha.  A mulher parecia estar com uma sede incrível.

– É uma deusa da mitologia fenícia, “Kátia – a deusa da luxúria e do amor” – sussurrei em seu ouvido. Que cara de pau! Meu garoto chegava a doer.

– Nossa, que delícia! – comentou com ar de sorriso e agarrando minha bunda com força, puxando-me para ela. Eu conhecia caras que se a mulher colocasse a mão em suas bundas era o fim do mundo. Eu não estava nem aí, contanto que ela ficasse tão empolgada quanto eu. – O que você estava fazendo lá fora, hein, seu cachorrão?

– É que o carro do lado é de um amigo meu, só fui confirmar...

– Não me deixe sozinha de novo, por favor... - disse ela fazendo manha.

***

Aquela noite foi maravilhosa: amamo-nos, dormimos abraçados, amamo-nos novamente. Tudo tinha corrido maravilhosamente bem, e só pelo fato de eu não ter tido dor de barriga já era bom começo. E dessa vez, não esqueci de pegar seu telefone.

Levei-a pela manhãzinha para casa e corri para pegar o uniforme. Eu não poderia me atrasar. Aliás, eu nunca me atrasei. Arrumei-me e fui para a rodoviária urbana para assumir o horário e, para minha surpresa, o Fernando estava lá. Surpresa porque o horário dele era à noite. Espere aí... eu disse à noite?

Me aproximei, havia outros cobradores e motoristas em sua volta, com cara de perplexidade.

– Fala, Fernando, tudo bem? – perguntei receoso.

– Tudo bem nada, Bill. Eu estava falando agora mesmo com o pessoal: minha mulher foi ao shopping, ontem à noite, e você acredita que roubaram o rádio do carro? E o safado é profissional: não arrebentou um só fio!

– Puta que pariu... – disse reticentemente. Eu nem me liguei nisso ontem. O Fernando trabalha à noite, logo, não poderia estar com ela no motel. Ou seja, tomou uma bolada nas costas. Mas que merda! Porque eu fui me meter nessa história?

– Mas eu vou lá no shopping, agora! – continuava o meu amigo corno. – Eles vão ter de dar conta do rádio. Ah se vão!

– Deixa isso para lá, Fernando... por causa de um rádio? – tentei intervir.

– E você acha pouco? Ontem foi o rádio, amanhã levam o carro! E ainda poderiam ter feito algum mal à minha mulher... – concluiu pensativo. Mal sabia ele que estavam sim, machucando a Neide. E ela estava gostando.

Enfim, o cara estava decidido. Ele ia mesmo no shopping e isso ia dar merda. Eu é que não ia contar para ele a verdade sobre o sumiço do autorrádio e avisar sobre os galhos que ele estava levando. Quem devia fazer isso era a mulher dele. Mas... eu podia ajudá-lo a descobrir por si mesmo...

Pensei em jogar o rádio fora, afinal de contas, eu não era ladrão. Minha noite havia sido espetacular, mas meu amigo nem sabia que a dele havia sido a primeira das piores.

Nunca mais eu pego um autorrádio para sacanear alguém.

George dos Santos Pacheco

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