A passageira de Caronte (Quem matou Ana?)

Enfim, cinco horas da tarde. Quanto esperou por isso! O trabalho era cansativo em uma metalúrgica. Agora, todos saíam felizes, ansiosos para estarem com as suas famílias e descansarem. Norton não. Ele nem era casado. Já afirmar se ele tinha filhos ou não, aí já é outra história.

Ele era almoxarife. Ganhava bem, mas seu sonho era ter um negócio próprio, um mercado talvez. Trocou o uniforme, pôs bastante perfume. Qualquer um que o visse perceberia que estava apaixonado. Seus olhos brilhavam. Caminhou por entre seus colegas sem conversar, pois estava com pressa. Ia encontrar-se com sua namorada, em seu trabalho. Tudo começara há uns seis meses atrás, quando foi lá a primeira vez, com uns amigos. Havia ido só para se divertir, mas os olhos de Paloma, parecendo perdidos, distantes, o hipnotizaram. E depois, tem a bebida e todo aquele clima libidinoso, tudo conspirando. Apaixonou-se à primeira noite. Subiram para o quarto, mas Norton não era como os outros. Amaram-se, mas ele tratava-a com um carinho que Ana nunca havia experimentado. Esse era seu nome verdadeiro, o que revelou na noite seguinte.

– Seu tempo acabou... – disse ela levantando-se da cama. Norton estava deitado, nu, fumando um cigarro, com as mãos cruzadas por trás da cabeça.

– Fique mais um pouco... – disse ele.

– Tempo é dinheiro meu bem. – disse ela com a voz gutural.

– Eu pago pelo seu tempo.

Ela olhou-o por algum tempo em silêncio e deitou-se ao seu lado. O almoxarife deu um tapinha em seu peito, chamando-a para deitar a cabeça ali, o que ela relutantemente aceitou.

– Não vai me querer outra vez? – perguntou ela estupefata.

– Não. Quero apenas ficar aqui conversando um pouco. – disse ele apagando o cigarro no cinzeiro que havia ao lado.

– O meu trabalho não é esse. Vá procurar uma psicóloga. – disse tentando se levantar.

– Fique aqui queridinha. Por que a pressa? – disse ele segurando-a.

– Eu vim foi para trabalhar, não foi para ficar conversando com você.

– Eu já disse que vou te pagar! Há quanto tempo está nessa vida?


– E por que quer saber? – perguntou ela desconfiada.

– Por nada! Apenas quero saber... – disse ele acariciando seu braço que estava sobre sua barriga.

– Deve ter uns dois anos.

– Dois anos? E quanto anos você tem mocinha? – disse ele. Sua pergunta não era sem sentido. Paloma era extremamente jovem, tinha um rostinho angelical e um corpo pequeno e esguio, embora fosse cheio de volúpia.

– Mas o que é isso? Você é polícia? – perguntou ela levantando a cabeça do peito dele.

– Mas você é desconfiada mesmo, hein? Estou só conversando com você!

– Eu... eu tenho vinte anos. Na verdade, vou fazer vinte anos ainda.

– Começou cedo, hein? Por quê? – disse ele coçando seu cavanhaque.

– Ora, por que... Eu sei lá por que! Minha família passava algumas dificuldades, lá na roça. Meu pai bebia e batia em mim e em minha mãe, quase todos os dias. Por que eu ia ficar ali? Decidi fugir assim que fosse possível. Fugi e acabei vindo para cá.

– Seu nome não é Paloma... – especulou ele.

– Por que está fazendo tantas perguntas?

– Ora, gostei de você mocinha. Você é uma graça! – disse ele segurando o queixo dela e se aproximando para beijá-la.

– Epa! Beijos não estão incluídos no pacote, então, por favor, não me beije. – disse ela levantando-se da cama e pondo as peças de roupa. Os beijos eram uma lenda entre as mulheres da vida. Pelo menos Paloma parecia não gostar de beijos. Diziam que isso era medo de se apaixonar. Norton não pensou duas vezes. Levantou e correu ao encontro dela, abraçando-a fortemente e beijando-a, à revelia. Paloma acabou aceitando e beijando-o também.

– Então, qual é o seu nome? – perguntou ele abraçado a ela ainda.

– Não devia ter me beijado... – disse ela se esquivando, terminando de colocar suas roupas, que não eram muitas.

– Ora, mas você também queria! Não vai me dizer seu nome? – disse ele com um largo sorriso.

– Chega de perguntas! – disse ela num sorriso enigmático ao abrir a porta, ficando com ela entreaberta. – Se quiser saber, venha aqui amanhã e pague pelo meu tempo... - disse ela jogando um beijo com as mãos.

Então ela também havia gostado do beijo... Isso para Norton tinha sido maravilhoso. Desceu do quarto e voltou para a mesa com seus amigos. Sorria como ninguém.

– Demorou à beça, hein cara? – disse Leon, que estava com uma moça sobre o colo. – E então?

– Talvez um pouco, mas vejo que ficou em boa companhia! – disse tomando a bebida de um copo que já estava na mesa. Olhou ao redor para ver se encontrava Paloma, mas não a viu. Decidiu fazer como ela havia pedido. Voltaria amanhã para saber seu nome.

Voltou no dia seguinte, no outro, no outro também e em quase todos os dias durante esses seis meses. De tanto ir ali encontrar-se com Paloma, que a essa altura ele chamava apenas de Ana, ou Aninha, ela já não lhe cobrava mais os programas. Estavam apaixonados. Apesar disso, ele não se importava com seu trabalho. Queria apenas ela para si, fosse como fosse. A desejava ardentemente, como a nenhuma outra mulher...

Todos já sabiam de seu namoro e isso acabou virando motivo de pilhéria entre seus amigos. Como assim, namorar uma prostituta? Isso não faz sentido. Existem muitas moças de bem, de família, por aí. Por que justamente uma mulher da zona? Elas só existem para a diversão... Norton, você é um tolo!

Ele nem se importava, mas achou que podia melhorar a situação. Precisava apenas tirar a mulher dessa vida. Ninguém faria mais troça com ele, e ela se tornaria uma mulher de respeito e ninguém poderia falar nada. Não demorou a propor isso.

– Como assim casar?

– Você vem comigo, eu lhe dou uma casa e uma vida digna. Não vai mais precisar ficar pela madrugada, deitando-se com esses caras nojentos... – disse ele nervoso, fumando um cigarro após o outro.

– Não se esqueça que foi assim que eu lhe conheci...

– Não, não me esqueço. Mas agora quero casar com você, ter filhos. Não quer ter filhos?

– Sim, é claro que quero! Mas não entende, você me pegou de surpresa...

– Quer um tempo para pensar? Eu lhe dou um tempo para pensar...

Estava ansioso pela resposta de Ana. Saiu do trabalho, todo perfumado e foi procurá-la na boate. Ficou por ali bebendo como sempre, esperou uma folga de Aninha e subiu para o quarto com ela. Beberam um vinho barato, fumaram e se amaram. Depois do êxtase, deitaram-se um ao lado do outro, e ficaram a conversar sobre coisas comuns.

– Então? Pensou sobre minha proposta? – disse ele entre uma tragada e outra.

– Você vai ficar me perguntando por isso a toda hora? Assim que eu tiver uma resposta lhe direi, não se preocupe... Mais tarde conversamos no hotel... – disse ela vestindo-se.

Norton desceu e ficou conversando com o rapaz que servia as bebidas, assis-tindo a um show de strip-tease. Tinha gente de todos os tipos ali. Homens, mulheres, caminhoneiros, marinheiros... Buscavam um pouco de diversão, um amor que não tinham sem pagar por ele. Estavam felizes, bebendo, se amando, aplaudindo, dando gargalhadas. Era uma orquestra triste de sons e luzes...

O movimento foi ficando cada vez mais fraco, até que lá pelas três da manhã, havia umas poucas pessoas. O almoxarife aguardou que sua noiva trocasse de roupa e saíram de mãos dadas. Foram para o hotel Afrodite, que ficava próximo à boate. Era lá que a moça passava o resto de suas noites, geralmente acompanhada de Norton. Pela manhã ia para um curso que fazia. Ana também não queria ficar no cabaré para sempre. Cumprimentaram o senhor da portaria e foram para sua quitinete. Norton sentia uma leve tontura. Talvez tivesse bebido além da conta.

Tomaram um banho juntos, como sempre, deitaram-se e amaram-se mais uma vez, como sempre. O pequeno apartamento ficava à altura dos postes, o que o deixava às claras mesmo com suas luzes apagadas. 

O almoxarife adormeceu sem saber a que horas. Parecia entorpecido por uma coisa qualquer. Lembrava-se apenas do rosto de sua amada a beijar-lhe e do sabor do vinho em sua boca. Acordou com o sol ofuscando seus olhos e sentindo um frio intenso. Parecia que a cama estava completamente molhada. Olhou para o lado e encon-trou Ana deitada sobre uma enorme poça de sangue, que vinha até ele. Seu corpo também estava todo molhado, por isso sentia tanto frio. A mulher tinha os olhos abertos, fixos, sem brilho algum. Sua garganta estava cortada de um lado a outro. Entre eles dois havia uma faca que, assustado, Norton pegou.

– Não é possível! Não é possível! – disse ele com lágrimas nos olhos, sentado à cama, olhando para a mulher morta. Teve medo, e atirou a faca para um canto qualquer do quarto. Levantou-se de súbito e ficou andando de um lado para outro. Isso não podia ter acontecido à sua Ana! Foi até a cabeceira da cama, pegou a garrafa de vinho, e um dos copos. Cheirou-os. Apenas cheiro de vinho, como era de se esperar. Assustou-se com batidas fortes na porta.

– É a polícia! Saia daí com as mãos para cima! – disseram do outro lado da porta.

O que Norton faria agora? Não tinha tido tempo nem de se limpar daquele sangue. Foi até a janela da frente. Tinha umas duas viaturas lá embaixo. Os policiais estavam na porta. Não podia deixar que o vissem assim. Não foi ele quem fez isso, mas não sabia como alguém poderia ter feito.

Pôs rapidamente sua roupa. Os policiais gritavam mais e mais e ameaçavam derrubar a porta. Foi até a janela de trás. Não havia ninguém no beco para onde a janela dava. Era sua única saída. Levantou-a tentando fazer o mínimo de barulho possível. Cerca de um metro e meio abaixo da janela havia um parapeito onde ele podia se esgueirar até o cano da calha de chuva, o qual ele poderia usar como escada. Tinha que ser rápido, os policiais logo arrombariam a porta e encontrariam as marcas de sangue na janela. Desceu, mas a uns dois metros do chão o cano cedeu e ele caiu. Com certeza ouviram o som de sua queda, afinal, lá de baixo pôde ouvir o momento em que os policiais entraram na quitinete.

Correu o mais rápido que podia, tinha que se esconder. Precisava descobrir quem tinha cometido aquela barbaridade. Ou era ela quem iria pagar o pato. Mas afinal, quem poderia ter matado Ana?

Entrou no primeiro bar que encontrou. Estava com as mãos e a camisa sujas de sangue. Nada mal para quem havia acordado com uma mulher morta em sua cama. Não havia ninguém ainda no bar, e isso era bom. Passou pelo balconista, um senhor de meia idade, feito um furacão.

– Por favor, me ajude! – disse Norton desesperado.

–Mas o que aconteceu rapaz? – disse o homem olhando-o de cima a baixo. – Mas você está todo sujo de sangue!

– Onde fica o banheiro, por favor! – disse ele procurando o local.

– Fica ali nos fundos, mas é bom ir me dizendo o que aconteceu... Se os Homens entrarem por aquela porta eu não vou segurar nada não, hein? Vou logo dizer que você está aqui. Eu já paguei o que devia à justiça, não quero mais confusão para o meu lado...

– Uma desgraça! Uma desgraça! – disse o almoxarife, lavando as mãos trêmulas na pia. A água rosada escorria entre seus dedos e pelo ralo, deixando uma estranha sensação de alívio.

– É melhor o senhor sair do meu bar... – disse o velho.

– Não! Por favor, me ajude! Dormi com a minha namorada e quando acordei a encontrei morta, com o pescoço cortado, com uma enorme poça de sangue sob nós dois...

– Você não está mentindo para mim não, não é? – perguntou o senhor, descon-fiado.

– Não! Por Deus! Não sei quem pode ter feito isso... O senhor não tem um aparelho de barbear aí? – disse Norton examinando o rosto no espelho quebrado do banheiro. Nele estavam as marcas de uma noite mal dormida e alguns copos de vinho.

– Tenho, mas...

– A polícia entrou no nosso quarto, agora devem estar me procurando...

– Eles te viram? Como foi que te deixaram escapar? – disse ele trazendo o aparelho.

– Eu fugi antes que entrassem... Não teria uma camisa, um boné ou um óculos?

– Isso aqui é um bar meu amigo, não é uma butique não... – reclamou o velho.

– Desculpe senhor, é que estou desesperado! – disse ele tirando o cavanhaque. O aparelho agarrava diversas vezes, pois os pelos estavam grandes demais.

– Espere... Acho que alguém chama no balcão... – disse o velho encostando a porta do banheiro.

– Por favor, não diga que estou aqui... – disse o almoxarife, quase numa súplica.

O homem não respondeu. Saiu e ficou algum tempo lá fora, atendendo a alguém. Enquanto isso Norton fazia a barba, apressadamente, pensando em como sair da merda em que se meteu.

Era preciso organizar seu raciocínio. Para começar, quem matou Ana? Estavam só eles dois no quarto... Quem fez isso teve que entrar lá, no meio da madrugada. Será que eles haviam se esquecido de trancar a porta? Não, isso não era possível... Neste caso o senhor da portaria poderia talvez ter alguma informação importante... Mas que motivo teria alguém para matar Ana? Mata-se por vingança, por dinheiro e por amor...

O homem do bar abriu a porta de súbito, assustando o rapaz. Trazia uma camisa preta, um tanto surrada, e um boné azul escuro, com algumas coisas escritas em inglês, que ele não sabia o que significavam.

– Tome aí. Não sei por que, mas simpatizei com você... – disse ele estendendo a roupa para Norton.

– Muito obrigado meu amigo! – disse o rapaz, num raro sorriso depois do incidente. Tirou a camisa suja e jogou no canto.

– Juízo, hein, rapaz? Tu não tem cara de bandido não. Passarinho que acompanha morcego, dorme de cabeça para baixo...

– Fica tranqüilo, vou tentar salvar minha pele agora... – disse ele saindo furti-vamente do bar. Olhou para os lados quando chegou à calçada e virou-se para trás. – Mais uma vez, muito obrigado...

Saiu de lá evitando olhar as pessoas. O boné praticamente encobria seus olhos, o que não tornava difícil a tarefa. Tinha que voltar ao hotel, precisava conversar com o porteiro. Havia alguém no prédio que queria o mal de Ana. Isso se não havia sido ele próprio. Era preciso ficar atento, a polícia com certeza ainda estava por lá.

Passou na calçada em frente ao prédio. Alguns curiosos estavam por lá, observando o movimento dos militares e especulando o acontecido. “Cortaram o pescoço dela, do mesmo jeito que se faz com uma galinha”, “Tem gente falando que ela era piranha, devia estar devendo alguém...”, “Ouvi um policial dizer que o homem que a matou pulou a janela do quarto andar, mas ninguém o achou ainda”.

Alguns absurdos. O fato é que eles já sabiam que ele tinha fugido pela janela, como ele mesmo calculara. Ficou ali algum tempo, esperando que os policiais fossem embora. Aproveitou para fazer um lanche, fazia um tempo que não comia. 

Não demorou muito para que os peritos retirassem o corpo de Ana. Oh Ana! Por que isso tinha que acontecer a você? – pensava ele. Depois da retirada do corpo, ainda demorou uma meia hora para que o restante dos policiais e peritos deixasse o prédio. Norton atravessou a rua e aproximou-se do prédio. A cada passo seu coração parecia bater mais forte, sentindo também um frio na barriga.

– Boa tarde... – disse ele seriamente para o porteiro, um homem de expressão rude e atitudes grosseiras.

– Boa tarde. O que deseja? Quer um quarto?

– Na verdade eu preciso que você me dê a relação dos hóspedes de ontem para hoje. – pediu ele com ar grave. Já havia planejado tudo.

– Mas quem o senhor é? Tudo que eu tinha para dizer eu já disse... – disse ele virando as costas para Norton.

– Eu sou policial amigo, sou do serviço de inteligência. Agora, é melhor colaborar, senão a fiscalização vai ficar sabendo que o senhor não tem alvará para funcionar.

O homem voltou-se rapidamente para o almoxarife. Tinha a cara mais fechada ainda. Parecia a ponto de dar-lhe um soco, mas o rapaz manteve-se firme.

– Vocês são todos uns filhos da mãe! – disse ele pegando uma relação, a qual Norton examinou atentamente. Não eram muitos nomes, não seria muito difícil.

– Mas esse aqui é... – disse ele, parando antes de terminar a frase. – O senhor foi muito útil. Tenha um bom dia... – disse ele saindo, deixando a folha sobre o balcão.

– Tenha um bom dia... – arremedou ele. - Por que você não vai à merda? – disse num sussurro.

Já suspeitava quem tinha sido o canalha que havia feito isso. Mas antes precisava de uma coisa que estava em seu apartamento. Achou melhor ir caminhando, não era muito longe e se fosse de ônibus ia ficar muito exposto e sem chances de fugir se fosse necessário.

Passou em frente a uma loja de eletrodomésticos. Havia televisões por todos os lados e algumas pessoas em frente assistindo a uma notícia de um plantão jornalístico.

“Um homem foi preso suspeito de estar envolvido no assassinato de uma prostituta, que foi encontrada morta em um quarto de hotel na Praça Mauá, hoje pela manhã. Os policiais encontraram uma camisa embebida em sangue no banheiro de seu bar, nas proximidades do hotel. O homem já tinha antecedentes criminais...”.

– Droga! O dono do bar! – pensou ele. Continuou sua caminhada, seria um estirão. De certa forma ganharia tempo com a prisão do velho.

Aproximou-se de seu prédio, e subiu as escadas. Não havia nenhum vizinho nos corredores. Melhor assim. Entrou em seu apartamento. Tudo parecia normal. Foi até seu quarto e pegou um revólver, calibre trinta e oito que morava dentro de uma gaveta em seu guarda roupa. Aproveitou e pôs uma jaqueta preta, e tirou o boné que o desconhecido havia lhe dado. Verificou se a arma estava carregada e a pôs na cintura. Ele ia lhe pagar caro...

Saiu de seu apartamento, mas quando ia descer as escadas ouviu os passos pesados, de quem usa coturnos. Os policiais estavam ali! Tinha que dar um jeito de sair, não podia por tudo a perder agora. Não agora que estava perto de acertar o desgraçado que tinha tirado a vida de sua amada. Bateu na porta do vizinho que a abriu um pouco assustado.

– O que foi Tim? – disse o rapaz de uns dezoito anos, com a cara assustada.

– Preciso sair daqui.

– Ora, mas você acabou de chegar!

– Isso não é hora para brincadeiras. Tem mais alguém em casa? – disse ele andando pela casa, um tanto nervoso.

– Não, só estou eu. Mas o que você aprontou dessa vez?

– Depois eu te explico. Só preciso que você me dê cobertura para que eu saia daqui...

– Norton Martins! Sabemos que está aí! – gritaram no apartamento ao lado, esmurrando a porta.

– Cara, estão gritando teu nome aí fora! – disse o rapaz.

– É a polícia! É que eu entrei numa fria. Se eles baterem na porta, enrole bastante, para dar tempo de eu sair pela janela.

– Está maluco cara? Isso aí é alto para caramba!

– Eu já pulei de lugar mais alto. Agora faça o que eu te disse. – disse ele saindo pela janela.

Mal Norton havia chegado a rua, alguns policiais se aproximavam. Não iam cometer o mesmo erro de horas atrás.

– Parado aí! – gritaram. Tim correu e alcançou um homem que pretendia sair com sua moto.

– Passa a moto para cá! – disse ele com a arma em mãos. O homem nem questionou. Saltou e deixou a moto com ele, que logo montou e arrancou com ela. Os policiais quando perceberam que ele não ia parar efetuaram alguns disparos que zuniam perto do almoxarife, sem acertá-lo.

Norton foi o mais rápido que pode. Avançou sinais fechados, passou por cima de calçadas. Eles não podiam alcançá-lo. Não tinha medo. Estava cego de raiva. Chegou à boate, que funcionava em parte. Já estava quase anoitecendo.

Entrou na boate, soltando fogo pelas ventas, como se diz no interior. Já tinha o revólver na mão e andava apontando ele para quem aparecesse em sua frente.

– Onde está ele? – perguntou Norton, segurando uma das mulheres pelo braço.

– Ele quem? – perguntou amedrontada.

– O Rubão. Diga logo onde está ele! – esbravejou ele.

– Está no escritório, ali atrás... – disse a moça, apontando para o lugar.

Ele soltou-a e foi na direção da saleta. Era onde Rubão fazia sua contabilidade. Ele era o cafetão que explorava as meninas. Com certeza não aceitava o casamento dele com Ana.

– Que engraçado... Você não estava aqui, ontem. Por que será? – perguntou ele, encostando o revólver na cabeça dele.

– Pensei que seria preso antes de imaginar que havia sido eu... – disse ele ainda sentado. Era um sujeito magro, com um bigode desgrenhado, e a careca tapada pelos cabelos que ele puxava de um lado para o outro. Tinha um dente de ouro logo na frente.

– Levanta e vem conversar comigo feito um homem! – vociferou ele. – Você é muito burro mesmo! Se hospedou com seu próprio nome!

– É... Confesso que não pensei nisso... – disse ele levantando-se e virando para Norton que mantinha a arma apontada para a cabeça dele. Houve, porém um som de metal caindo ao chão que distraiu o almoxarife e Rubão aproveitou-se disso para derrubá-lo e tomar seu revólver.

– Diga-me apenas o porquê seu desgraçado! – disse ele ao chão, com os olhos marejados.

– Você às vezes é infantil Norton... – disse ele sorrindo. – Acha que ia deixar você levar a minha melhor garota? Eu precisava dar um jeito nisso. Já que eu tenho a chave do quarto dela, preparei tudo. Coloquei um remedinho na bebida que vocês tomaram aqui, só para ficarem com mais sono. Me hospedei no hotel e cortei a garganta dela. Se você tivesse sido preso na hora, jamais teria descoberto que fui eu. Agora vou alegar legítima defesa. Vê como é fácil? – disse ele puxando o cão do revólver.

– Parado aí! Solte a arma! – gritaram. Eram os policiais que tinham seguido Norton. Rubão não teve chance, e soltou a arma. Havia confessado tudo na presença dos homens da lei. Tudo estava acabado.

O dono do bar foi solto, não teve nenhum lançamento em sua ficha e Rubão foi preso e está até hoje cumprindo pena. Norton passou meses sofrendo a falta de Ana. A paixão tinha dessas coisas... É que ele não sabia que as paixões vão, mas os amores permanecem...

George dos Santos Pacheco

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