Sete horas para o fim do mundo

 
A noite havia sido agradável, sem nada de especial que mereça ser registrado, entretanto. O dia amanheceu um pouco nublado, mas Friburgo fica extremamente bela nos dias cinzas, entretanto, sua beleza ficaria esmaecida pelas surpresas que este dia nublado reservava e que   mudariam o mundo para sempre. Não foram as nuvens, contudo, que abalaram as pessoas, nem a previsão de chuvas fortes para o feriado, e nem mesmo os escândalos da política.

Levantei com dificuldade, minha perna direita estava dormente, e o chão frio, como se molhado estivesse. Procurei minhas sandálias de borracha em vão, provavelmente Saturno, meu Golden Retriever, estaria se divertindo com elas em algum canto da casa.

Fui ao banheiro, lavei meu rosto e preparei meu desjejum. Eu tinha o costume de tomar meu café da manhã assistindo TV. Sentei-me à mesa e liguei o aparelho utilizando o controle remoto, mesmo distante apenas um metro dela. Dei apenas uma mordida no pão, as notícias eram impactantes o suficiente  para acabar com o apetite de qualquer um. Estava sendo retransmitida uma coletiva de imprensa de cientistas da Agência Espacial Americana. Um homem grisalho, de poucos rugas e bigode branco, anunciava o fim do mundo com a tranquilidade que o Presidente do Banco Central anunciava o aumento da taxa de juros.

- Há neste momento, se deslocando em direção à Terra, um asteroide do tamanho do estado do Arizona, com velocidade entre 800 a 1000 km/s. - explicou o cientista , com a tradução simultânea do âncora da emissora brasileira. - Não houve tempo hábil de nossos telescópios localizarem o objeto, pois ele está na mesma direção do Sol, o que confundiu os aparelhos. Os perdemos em pouco tempo pelas interferências que sofreram, devido ao forte campo magnético do corpo celeste.... Estima-se, devido ao último registro realizado, que o impacto ocorrerá em torno de sete horas... - concluiu o homem e então o jornalista apareceu na bancada. O sinal da TV era fraco e intermitente - E assim, encerramos nossas transmissões. Que Deus tenha piedade de nós... - disse ele friamente, e o canal saiu do ar, assim como todos os outros em que eu buscava mais informações. Não era possível! O mundo não poderia acabar assim, não tão de repente.

Eu não sabia em que pensar, em quem pensar, o que fazer... Larguei o café e fui até o computador procurar mais alguma coisa na internet. Talvez tivessem postado algo no Facebook. Sem sinal. Que merda! O que eu ia fazer? O que calendário maia....Anunciava o o fim dos tempos para 2012. 21 de dezembro. E todos fizeram troça com os índios mexicanos... Faltavam 4 dias para o Natal e eu pretendia passar a data com meus pais, no interior. O feriado havia sido antecipado e eu precisava correr se quisesse chegar lá a tempo. É evidente que eu não ia trabalhar hoje: se em um dia comum eu não queria muita coisa com a hora do Brasil, imagine hoje. Eram exatamente oito e trinta e quatro da manhã, o fim estava marcado para aproximadamente três e trinta da tarde, o horário em que Cristo expirou. Baita coincidência.

Fui até a garagem, mas era impossível sair com o carro, o engarrafamento era titânico, assim com a quantidade de pessoas andando a esmo, desorientados. Havia lixo, muito lixo espalhado pelas ruas, carros emborcados pelo caminho, alguns, incendiados. Passar o fim do mundo com meus pais estava fora de cogitação. Peguei o celular para avisá-los, mas não havia sinal algum. Num impulso, atirei-o longe, despedaçando-o em diversas partes.

Encontrei Saturno no quintal – eu não fazia ideia de como ele teria ido parar lá, já que minha casa passa a noite trancada. Corria de um lado a outro, pulando e latindo como um louco. Estava totalmente alucinado, como se sob efeito de algum remédio pesado. Quando me viu, avançou sobre mim e, pensando que fosse me morder, me esquivei. Não me reconheceu. Tentei acalmá-lo, mas ele saiu em disparada para o meio da multidão. Seria impossível reencontrá-lo...

Comecei a caminhar, estava ainda de pijama, não havia necessidade nem tempo para trocar de roupa. E eu ainda estava nos limites da decência, havia muita gente nua pelas ruas, gente fazendo sexo: casais, surubas... orgias podiam ser vistas por todos os lados, à luz do dia. Outras pessoas discutiam, choravam, brigavam e matavam por muito pouco. Aproveitaram o fim do mundo para eliminar antigos rivais. Eu não tinha inimigos – eu acho – mas poderia fazer um em segundos, os nervos estavam à flor da pele.

09:23

Decidi ir para a casa de minha namorada, a Vilma. Oh! Como ela deveria estar preocupada comigo! Neste momento, as nuvens desfaziam-se com facilidade, deixando descoberto o céu do Apocalipse. Havia, ao lado do sol, uma grande bola lilás, que crescia com espantosa velocidade e, as pessoas, tornavam-se cada vez mais agressivas. Aquilo tudo me assustou e comecei a correr, assim como muitos outros, uma confusão generalizada. O incrível era que, mesmo diante daquela confusão, em duas ou três casas, e alguns bares, havia gente fazendo churrasco, bebendo e se divertindo. Das duas, uma: ou não acreditavam no fim do mundo, ou queriam passá-lo daquele jeito.

Enquanto corria, pude ver ainda muito mais. As igrejas estavam lotadas de gente tentando garantir, aos 48 minutos do 2° tempo, seu passaporte para o céu. Mas engana-se quem acredita que tratava-se dos mesmos fiéis. Não. Mais da metade era de pessoas que nunca haviam pisado em um templo.

10:17

Cheguei ao apartamento de Vilma ofegante, ela morava no sexto andar, e os elevadores não funcionavam, não havia energia. Bati à porta (minha chave tinha ficado em casa) e ela se abriu, após quase um minuto – que me pareceu horas. Vilma apareceu ali, completamente nua e ofegante. Seus pelos pubianos estavam depilados em forma de um triângulo invertido. Era uma loira baixinha e esguia, suas bochechas estavam rubras. Pareceu não me notar. Virou-me às costas e seguiu.

- Mas o que é isso, amor? - perguntei seguindo-a.

- Não viu que o mundo vai acabar? - perguntou secamente.

- Vi, por isso que vim para cá... - respondi, meio confuso.

- Pois vá embora! Não queremos você aqui.

- Não queremos? Como assim? - perguntei, no momento em que chegava ao seu quarto. Deitada na cama, estava outra mulher, também nua. Sua pele era branquíssima, seus cabelos negros, cortados em chanel, o traseiro um pouco maior que o de minha namorada. Era Beth, sua melhor amiga e vizinha.

- Mas... mas... o que é isso?! - perguntei atônito.

- Nos apaixonamos. Na verdade, acho que sempre fomos apaixonadas, mas nunca havíamos nos dado conta disso... - disse Beth, sem nenhum pudor, ao sentar-se na cama. Vilma sentou-se ao seu lado e abraçou-a.

- Mas nos amamos! - argumentei com Vilma.

- Isso foi ontem. Hoje é outro dia, e o amanhã não existe mais... - respondeu-me, encarando minha rival e beijando-a.

- Eu vou te matar, sua filha da puta! - esbravejei, indo em direção a elas. Senti o sangue subir com velocidade às minhas têmporas.

- Sim, mate-a! Mas acabe comigo também, pois não suportaria viver meus últimos momentos sem ela... - disse Beth emocionada. Parei por alguns segundos, meditando. Aquilo tudo era fantástico demais para estar acontecendo.

- Adeus, e até nunca mais...  - disse ao girar nos calcanhares, saindo do apartamento. Ainda pude ouvir um suspiro de alívio e beijos sonoros que eram o prelúdio de eternas preliminares.

11:06

Alcancei o andar inferior e ouvi o estampido de tiros – três, mais precisamente – e estúpido, fui atrás do som. Vinham do fim do corredor; uma porta estava entreaberta, de onde se podia avistar uma ponta de claridade. Antes de alcançá-la, ouvi outro tiro, e o som de algo pesado caindo ao chão. Abri-a lentamente, o silêncio imperava. O cheiro de temperos e boa comida, recém produzida, invadiu minhas narinas. A casa estava bem arrumada, não havia nada fora do lugar. Caminhei em direção ao cheiro, aproximava-se a hora do almoço e eu já estava com muita fome. A cena que vi a seguir produziu-me engulhos, meu apetite fora embora instantaneamente. Em uma mesa colocada há pouco tempo, havia uma mulher e uma criança sentados, os corpos caídos por cima dos pratos de comida, ainda quente. Ao fundo, um homem ao chão, com um revólver em uma das mãos. Este com um tiro na boca, os outros dois, na cabeça. O sangue já molhava parte da mesa e o chão. Corri o mais depressa que pude, eu não queria ficar ali  nem mais um segundo.. Confesso que me senti tentado em pegar aquela arma e atentar contra minha própria vida, mas não sei porque não fiz isso.

11:51

Continuei caminhando pela cidade, a bola lilás já ocupava quase completamente a abóbada celeste e o sol não era mais visível. Além de toda a balbúrdia que já mencionei, (todo aquele engarrafamento, a multidão de pessoas, gente brigando, se matando, trepando e pondo chifres nas cabeças alheias), todos os supermercados e lojas de eletrônicos no caminho estavam sendo saqueados. As pessoas saíam de lá carregando tudo que podiam, abrindo passagem com ombradas. A maioria quase não falava, não conversavam, emitiam gritos e grunhidos de dar pavor. Pareciam ter voltado à época da barbárie, do caos, dos primórdios da civilização. Enxuguei minhas lágrimas e deixei de correr. Nada mais importava, e a pressa não era mais necessária. Afinal, correr para onde? Porquê?

12:28 era a posição que os ponteiros marcavam em meu relógio. Estava parado. Talvez a hora já estivesse muito mais avançada, e agora, o tempo, definitivamente, não existia mais. Os pássaros, contudo, estavam muito mais perdidos do que nós humanos sem relógio. Voavam em todas as direções, como se não soubessem mais onde era o norte. Alguns caíam mortos, pois as colisões eram inevitáveis. Agora, somente uma pequena linha ao horizonte era azul, e o céu, antes lilás vivo, ganhava cada vez mais um tom mais claro. Cheguei a uma grande praça, bem no centro da cidade. Estava lotada de pessoas que se abraçavam e choravam. Alguns, incrivelmente cantavam, mas a maioria somente olhava para o céu lilás, aguardando o impacto, a destruição e o fim.

Também fiquei ali olhando para o céu, tão absorto na expectativa do fim, que me senti fora do tempo, como se horas e minutos não existissem mais. Foi quando senti alguém segurar minha mão, mas demorei alguns segundos para perceber, e virar-me em sua direção. Era uma morena, de cabelos encaracolados, um pouco mais baixa que eu.

Segurei sua mão firmemente, o fim deveria estar próximo, como alguns homens anunciavam sobre os bancos das praças, com bíblias embaixo do braço. Então, mesmo não havendo uma nuvem sequer no céu, soaram trovões fortíssimos, como eu nunca havia presenciado antes. A mulher me abraçou e, em seguida, nos beijamos. Não sei se era por conta das últimas emoções, ser era pela minha fragilidade, mas aquele foi o melhor beijo da minha curta vida.

Mesmo sem o auxílio de algo que calculasse o tempo, como relógios ou o astro rei – era muito difícil saber ao certo – pareceu-me que a hora prevista chegar, mas nada aconteceu. O céu começava  a se tornar azul novamente, embora Mariane – este era o nome da morena – insistisse que ele se mantinha lilás. As pessoas começavam a se dispersar, pouco a pouco, e a tensão, a se desfazer. Eu e Mariane sentamos em um banco, não tínhamos para onde ir. Conversamos muito e encontramos muita coisa em comum: ela também ia para o interior encontrar os pais; seu namorado a abandonara (foi encontrado em  um dos bordéis da cidade, que funcionaram mesmo no fim do mundo). A descontração aumentava de tal forma que, mesmo ainda sob a ameaça de morte iminente, já podíamos sorrir. E senti novamente aquela mesma sensação de atemporalidade.

O fim do mundo estava atrasado talvez uns quarenta minutos, quando alguém surgiu dizendo que as TVs haviam voltado a funcionar. Já não havia tanta gente nas ruas, mas houve um princípio de tumulto quando todos correram para a única loja de departamentos que não havia sido totalmente destruída e saqueada. A televisão, na vitrine, exibia outra coletiva de imprensa, com uma imagem péssima e bastante desfocada. Aquele mesmo jornalista traduzia simultaneamente as informações que os cientistas da Agência Espacial Americana passavam, com a mesma tranquilidade de outrora. Segurei a mão de Mariane. Olhamo-nos e sorrimos. Já não me importava se eu ia morrer agora ou em cinquenta anos.  

- Nossos equipamentos conseguiram registrar, com atraso, que não se tratava de um asteroide, mas de uma tempestade solar de proporções colossais, gerada por uma ejeção de massa coronal gigante – que é uma erupção de gás ionizado em alta temperatura. A massa coronal atingiu nosso planeta em cheio, devido à falha na magnetosfera existente sobre a América do Sul. Atempestade geomagnética causou danos nos sistemas de radiofrequência e eletrônicos, os meios de comunicação funcionam precariamente, e poderemos levar anos para nos recuperarmos completamente. Ainda não sabemos que efeitos ela pode ter causado diretamente nos humanos, mas são diversos os relatos de pessoas com sintomas similares ao daltonismo... - concluiu o pesquisador. Então, o jornalista assumiu seu lugar na bancada, e com um grande sorriso, convocou repórteres no Brasil inteiro, que enviavam notícias de como havia sido o fim do mundo nas principais cidades do país.

Um fim do mundo que não houve. Mas as sete horas que o precederam mudaram a vida de muita gente. Eu encontrei a mulher da minha vida – a Vilma também. E então, eu percebi que, na verdade, as pessoas traem todos os dias. Elas matam, roubam, e se convertem, todos os dias. As pessoas se divertem, se desesperam, e cantam, todos os dias. Elas amam, se decepcionam e encontram novos amores. Mas, sobretudo, elas morrem. O mundo, assim, acaba todos os dias, várias vezes, mesmo que não nos demos conta. Não podemos ter certeza sobre até quando estaremos vivos e é incerteza de estar vivo no segundo seguinte que torna a vida tão magnífica. Memento mori et carpe diem.

George dos Santos Pacheco

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