Café Literário: Prova


Quando o professor entrou na sala o aguardavam ao menos dez alunos, certamente os mais dedicados. Ainda faltavam quinze minutos para o início da prova, o que justificava a ausência da maioria. Em todo caso, a entrada do mestre causara um súbito silêncio. Os alunos interromperam as conversas e se voltaram para fitar a figura severa que, nem bem entrara, chegou-se à sua mesa e nela despencou o calhamaço de provas. Em seguida, olhou a sala por cima dos ombros, conferiu a hora no relógio de pulso e anunciou, em seu típico tom firme, que o exame começaria em dez minutos. O amontoado juvenil, tendo sua expectativa sanada, voltou a papear. Sentado em sua cadeira, o professor passara a folhear um volume do Banquete. Fazia dez anos que dava aulas de filosofia, cinco naquela escola. Ainda recordava o desespero dos pais quando, aos dezoito, ele elegeu o curso, renegando economia, administração e direito. “Mas o que você vai fazer com um diploma de filosofia?” foi o que ele mais ouviu à época. Terminada a faculdade as opções para manter-se com as próprias pernas – e o próprio bolso – comprovaram-se escassas: ou ele emplacava um mestrado e seguia na academia; ou dava aulas para pessoas das mais variadas idades que estivessem minimamente interessadas em pensar a ciência do pensar. Tinha convicção de que fizera a escolha certa. Do magistério ele gostava de quase tudo, tirando as reclamações de sempre — salário, carga horária, condições de trabalho etc. — até que não era um trabalho ruim.

Com o passar do tempo foram chegando os estudantes remanescentes, todos frescos como alface. Fazendo-se rigoroso, o professor corrigiu a posição das fileiras: cada cadeira deveria ficar milimetricamente emparelhada com a anterior, formando retas dignas de vistoria militar.

— Mas professor Marques, aqui tá bom. — disse um gordinho, fazendo cara de birra.

— Dia de prova, Paulo, dia de prova. Trate de endireitar essa cadeira. Imagina se o diretor passa e vê vocês desarrumados, um pra lá outro pra cá, vai pensar que eu sou desleixado. — É de se notar que ele concordava com o aluno. Achava aquele negócio de arrumar as fileiras uma verdadeira casmurrice do diretor, homem de pensamento reto e curto que, ao contrário dele, repudiava até a mais singela manifestação de abstracionismo. Apesar disso, ele só distribuiu as provas depois das fileiras devidamente arrumadas.

— Agora é silêncio turma. A prova tem duração de quatro horas. Boa sorte.

E foi sentar-se. Reabriu o volume do Banquete, mas nele não conseguiu concentrar um minuto de sua atenção. Mal batiam na página, os olhos davam um jeito de correr para a janela. Lá fora o sol reluzia livre, sem a escolta das nuvens. Aqui dentro Marques maldizia o trabalho que o fazia vir aplicar prova em um sábado tão lindo. Tudo bem, era um dia extraordinário, não era todo sábado que tinha um exame a ser aplicado, mas saber disso não atenuava sua sensação de carceragem.

A prova daquele sábado visava formar um ranking dos alunos da escola. Os melhores colocados ganhariam bolsas, podendo ter os estudos inteiramente custeados dependendo da classificação, como apregoava o folheto de propaganda que convocava para o exame. Enquanto dobrava o papel, Marques olhava fixo o tampo da sua mesa e se encharcava no tédio empalidecido. As luzes brancas o irritavam profundamente. “Por que estão acesas? Tiram a cor de tudo, deixam todos sem vida”. Quanto detestava aplicar prova! Para os avaliados o tempo passa rápido, afinal estão concentrados em resolver problemas. Mas para o professor, em especial este aborrecido professor, tratava-se da mais inconcebível tortura chinesa experimentada a conta-gotas.

Uma hora pegou o celular a fim de procurar algum joguinho ou qualquer pedaço de besteira virtual que fizesse o relógio acelerar o passo. Nem bem ligou o aparelho esbarrou nas horas marcadas no visor. “Não é possível, nem uma hora ainda”. Notou três mensagens não lidas na caixa postal. Tinham sido enviadas há pouco por uma mesma pessoa: um grande amigo, também professor. Na primeira mensagem ele perguntava onde Marques estava; na segunda chamava-o para o bar e na derradeira — e mais cruel — dizia que a cerveja estava gelada. O raivoso professor Marques digitou com ferocidade a recusa ao convite e o motivo da recusa, aproveitando para xingar demoradamente este último. Recebeu uma resposta:

“vc tá perdendo, a joana e a cris tão aqui”.

Com os polegares enviou:

“eu queria ta aí. isso aqui tá um saco. o pior é q vou ter q ficar 2 hrs ainda”.

“tá fodido”.

“nem me fale. tô qse dormindo aqui. esses alunos parecem umas estátuas... silenciosos, concentrados d+. dá até medo”.

“larga as estátuas e vem tomar umas. estátua ñ fala”.


Marques ameaçou um riso, mas o conteve a tempo.

“essas aqui é bem capaz q falem. e o pior, q dedurem. tô pegando ódio deles. vc ñ sabe como são brejeiros, caipiras”.



“segura peão”.

“acho q tem uns até fedendo. a sala tá toda fechada e eu não posso tentar abrir a porta ou uma fresta dalguma janela q eles reclamam do barulho. jecas!”.

“vc tá reclamando de boca cheia, os alunos da sua escola nem se comparam com os q eu peguei na rede pública”.

“ñ se engane, os daqui são a mesma coisa”.

“duvido”.

“quer ver?”.

Então o desmedido Marques apontou discretamente a câmera do celular para os concentrados candidatos e tascou o mais disfarçadamente que pôde uma foto da sala inteira. Sem flash, sem barulho — contando com a imersão dos fotografados nas suas provas — não levantou suspeitas e conseguiu colher uma bela panorâmica. Deu uma rápida conferida no resultado antes de enviar para o amigo. Em instantes pulularam mensagens na sua caixa postal:

“haha vc tem razão!”.

“olha o tamanho da cabeça daquele da direita”.

“e aquela gorda na frente dele, tá quase arrebentando a cadeira”.

“já a loirinha do lado até q é bonitinha hehe”

Sobrava galhofa e faltava prudência para Marques segurar o riso, mais de uma vez suas casquinadas extrapolaram o limite do imperturbável. Até que chegou uma mensagem que o intrigou. Ao lê-la revestiu imediatamente o véu da seriedade. O amigo escrevera:

“preste atenção no penúltimo aluno da segunda fileira a partir da esquerda, ele tá segurando uma folha de papel toda amassada: tá colando!”

Marques olhou para o aluno. Fazia a prova como todos os demais. Reabriu a foto: teve certeza. O pequeno tratante segurava uma folha de caderno rasgada e amassada. Mesmo que só conseguisse ver pelo recurso do zoom, era indubitável: o garoto colara e o exato momento em que transgredia foi capturado, ainda que por acidente, para azar dele.

Tomando ar grave e meditativo, o professor fechou a foto com pressa, como se alguém o vigiasse. Aproveitou para desligar o celular e afastá-lo de si. Maldito celular, não fosse ele não teria essa pulga atrás da orelha. E agora o que deveria fazer? Tirar a prova do trapaceiro? Tinha uma foto comprovando sua tramoia, seria o correto. Mas como explicar a existência da foto? Tirada às escondidas, ela seria a sua ruína, afinal que tipo de pervertido seria capaz de clicar a classe sem seu consentimento? Não, aquela imagem era uma prova ilegal, mostrá-la o prejudicaria muito, o desmoralizaria. Porém, sem ela não havia acusação. Ora, como não havia sido pego em flagrante, o aluno certamente exigiria saber como o professor teria descoberto a cola. É aí que deveria mostrar o injustificável retrato, todos ficariam chocados com tamanha violação de privacidade. Em um pulo a imagem pararia nas mãos do diretor, daí não tardaria a descobrirem também as desconcertantes mensagens — pura galhofa da pior estirpe. Os pais do aluno reclamariam, os pais de todos os alunos reclamariam, na certa ele seria demitido, mancharia para sempre seu currículo, toda sua carreira estaria perdida. Não, não poderia mostrar aquilo para ninguém, se o fizesse viraria o epicentro de um escândalo. No entanto, como conviver com a injustiça? O fraudador ganharia uma bolsa maior do que os alunos honestos e ele seria cúmplice dessa irregularidade. Veria adolescentes honrosos serem prejudicados, jogaria fora tudo o que ele sempre acreditou e pregou para atender a um egoismozinho carreirista? Tirar a prova seria seu dever perante os candidatos dignos — que estavam concorrendo com um falsário —, perante o próprio falsário — que teria uma lição inolvidável de justiça — e perante ele mesmo e todo o fundamento do seu pensamento. Vendo a desvirtude funcionar, aquele menino tomaria gosto por ela, sua personalidade estaria riscada e o omisso professor Marques se arrependeria de ter tido a chance de educá-lo, mas não tê-lo feito. Não, tinha que tomar uma atitude: ser positivo, sair da inércia. No final, seria uma lição de retidão para toda a classe. Todos se lembrariam com carinho do professor Marques, tão probo e justo. Seria o exemplo dos estudantes.

E o impasse fez o tempo correr, o pouco restante passou despercebido. Novo flagrante não houve, pois o marreco não tirou o papel do bolso nem uma vez mais. Com o soar estridente do sinal, os estudantes se levantaram para entregar as provas, alguns ainda reclamavam do tempo, pediam mais cinco minutinhos, mas o professor Marques, estrito cumpridor dos seus deveres, fez-se severo:

— Nem um minuto a mais, nem a menos. Observemos as regras. — e recolhia as provas.

Quando o pequeno ribaldo veio lhe entregar a prova, aproximando-se num caminhar errante e descompassado, o mestre fixou os olhos no rosto jovem de bochechas rosadas. Naqueles poucos segundos mexeu-se na cadeira e ameaçou levantar. Fez força para segurar o braço colado à mesa. Ficou todo vermelho. Talvez tenha tremido. Parecia a ponto de explodir. Mas o fedelho nem percebeu, aparentava satisfação, até mesmo alguma leveza, estava convicto de que fizera uma boa prova. Entregou-a e disse:

— Até mais, professor.

— Até mais — respondeu Marques, recolhendo as provas dos derradeiros alunos e sentindo o gosto da cerveja que o esperava lá fora.

Rafael Oliveira
Rafael Oliveira é escritor, tem 22 anos e mora em São Paulo.
Ilustradora
Lucy Fidelis - Trabalha profissionalmente como Ilustradora e desenhista de história em quadrinhos, desde 2007. Trabalha com diversos estilos em arte digital. Sinta-se livre para saber mais sobre seu trabalho em http://about.me/lucyfidelis

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