Nem só de pão vive o homem


As gaivotas cruzavam o céu como em um balé. Faziam movimentos de circulação, de forma ritmada, vez em quando descendo em rasantes, pegando em seus bicos pequenos peixes desavisados que nadavam próximos ao espelho d'água.

José Felipe caminhava pelo cais, observando os pássaros e sua dança, o movimento da maré que suspendia e arriava os navios, estalando as espias que os prendiam, e ouvindo o chiado característico do vazamento de algumas canalizações de vapor. Usava um simples terno preto, com uma gravata azul marinho, decorada com listras amarelas no sentido diagonal. Carregava bem presa sob o braço um exemplar da Bíblia Sagrada, com capa de couro e zíper, e já se aproximava da prancha de seu navio.

Era assim todos os dias. Os pássaros, o movimento das marés, o chiado do vapor, e o respeitável e indefectível Cabo José Felipe, o cozinheiro do navio. Os Oficiais chamavam-no de exemplo a ser seguido. Era muitíssimo educado, cumpridor de seus deveres e ótimo militar. Terminou de subir a prancha e cumprimentou os militares de serviço na popa da embarcação.

- A paz do Senhor!

- Bom dia Felipe! - disseram todos.

Era impossível imaginar que Felipe fosse capaz de qualquer delito. Foi exatamente isso que o Oficial do dia pensou quando lá pelas duas da tarde, um marinheiro, auxiliar de Felipe, o procurou para falar-lhe em particular.

- Permissão para falar, Tenente! - disse fazendo uma continência.

- Pode falar Valença... - disse o oficial respondendo à continência.

- Desculpe, mas eu sei que o senhor não vai acreditar em mim... - disse o marinheiro, aguçando ainda mais a curiosidade do superior. O que seria tão importante e sério que ele poderia não acreditar?

- Continue Valença! Em que eu posso te ajudar? - disse ele, agora olhando diretamente nos olhos do subalterno. Não que suas palavras não tivessem importância no início, mas é que isso tinha virado questão de honra em poucos minutos. Ele precisava fazer valer os deveres de um Oficial de Marinha, acima de tudo.

- Tenente... é que o Cabo Felipe... - disse isso quase sussurrando - está fazendo "gato"... - completou o militar. "Gato?" na gíria marinheira era o objeto do furto, e isso era uma contravenção muito séria.

- Mas isso não é possível... - disse o oficial ao mover o olhar para o balé dos pássaros, como se tentasse imaginar o que o marujo estava lhe confidenciando.

- É possível sim senhor...

- Está bem. Então como ele leva o gato, se ele sai de bordo sem nenhuma bolsa, apenas com uma bíblia sob o braço?

- Exatamente.

- Vai me dizer que ele leva o gato na bíblia? Escute aqui marinheiro, - disse apontando o dedo em riste - eu não estou de brincadeira...

- Eu também não, senhor. Sabia que não ia acreditar em mim, mas eu mesmo vi! Na verdade, ele não traz a bíblia para bordo, apenas a capa dela. Corta alguns pedaços de carne, embrulha em um plástico e depois coloca na capa da bíblia, põe embaixo do braço e sai tranquilamente, acima de qualquer suspeita.

- É de certa forma engenhoso... - disse o oficial pensativo, com o olhar distante.

- Posso me retirar senhor?

- Sim, sim... - disse o jovem tenente, acenando com a mão, ainda pensativo, visivelmente perturbado. - Só mais uma coisa Valença... Por que me disse isso?


- Era meu dever senhor. - disse ele voltando-se para trás. - Não podia ver uma coisa dessas e ficar quieto... - completou ele, fazendo uma continência e indo para a parte interna do navio. Mas o Tenente Araújo sabia que poderia haver muitos outros motivos para que o marinheiro fizesse tal afirmação. Eles trabalhavam juntos na cozinha, e o marinheiro podia estar querendo se vingar por uma razão qualquer. E nesse caso, ele mesmo podia ter plantado a tal carne na bíblia. Contudo, qualquer que fosse o motivo ou razão, era o dever de Araújo averiguar. Mas como? Passou o resto do dia pensando em como apanhá-lo...

No horário da licença, os militares aproximavam-se do portaló, a saída do navio, já trajando à paisana, para a tradicional inspeção. Foi quando o Tenente Araújo avistou o respeitável e indefectível Cabo José Felipe, com seu terno e gravata listrada, e a bíblia embaixo do braço, ostentando em seu rosto um sorriso sereno. O Oficial chamou-o a um canto da popa, próximo a balaustrada do lado contrário ao do cais, visivelmente abalado e nervoso.

- Pois não, tenente? - disse ele com sua já conhecida calma.

- Sabe o que é, Felipe... - disse Araújo, tirando o chapéu e passando a mão nos cabelos, com uma expressão grave. - É que estou cheio de problemas... Acho que minha esposa me trai e já pensei em me separar, em me matar... Por favor, abra sua bíblia e leia uma palavra de Deus para mim... Talvez isso possa me acalmar! - disse com um leve sorriso, olhando nos olhos do cabo. O semblante do subalterno foi caindo gradualmente enquanto ouvia as palavras do superior, e pareceu ainda empalidecer.

- Imagino o que deve estar passando tenente, mas... - disse Felipe desviando o olhar - nem eu estou acreditando mais nisso aqui... - disse ele pegando a bíblia e atirando-a ao mar, para a surpresa do oficial, que assistia a cena boquiaberto.
Jamais foi descoberta qualquer prova contra o irrepreensível, respeitável e indefectível Cabo José Felipe. Ele sempre soube que nem só de pão vive o homem, porém, toda palavra poderá ser usada contra ele em um tribunal.

George dos Santos Pacheco

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