Estilhaços


07 de outubro de 1976

A casa estava abandonada havia alguns meses. A grama do jardim ia alta, e resvalaria nas canelas de quem ousasse caminhar sobre ela. Ninguém o faria. Toda a casa estava imunda, havia lixo, ratos e insetos que se alimentam de todo o tipo de porcaria, talvez atraídos pelo odor de carniça que empesteava o ambiente. As paredes de um dos quartos ainda apresentavam marcas de sangue. As folhas das árvores se acumulavam no interior ao entrar pelas janelas abertas. Por fora o reboco caía e deixava mais feio ainda aquilo que um dia foi lar de alguém. Não era, de maneira alguma, um lugar agradável...

A essência do que havia acontecido ali estava impregnada em tudo. As pessoas evitavam olhar para o local, sobretudo à noite. As mães que porventura passassem ali com seus filhos atravessavam a rua para o lado oposto. E não era para menos: aquela era a casa do maldito Jonas Barboza. Um homem de cerca de trinta anos, sozinho, não tinha família, nem filhos. Não era uma pessoa bonita. Seus dentes eram bastante tortos, as sobrancelhas grossas e suas orelhas possuíam um tamanho desproporcional ao de sua cabeça. Seus olhos eram tristonhos... Não era muito sociável, mas adorava crianças, sendo comum vê-lo dando balas para os pequeninos que por ali passavam.

Não se sabia com o que trabalhava, mas saía lá pelas dez da manhã e só voltava às quatro da tarde, como muitos que trabalhavam no centro da cidade. A vila de Santa Margarida, era a mais tranquila, daquela cercania, de casas distantes umas das outras. Contudo, as coisas começaram a mudar por ali. Mulheres estavam desaparecendo, misteriosamente, e isso logo se tornou assunto de telejornal. Cartazes foram colocados nos postes, alguns ofereciam até recompensas, mas foram ineficazes. Não havia pista alguma do paradeiro das mulheres... Os próprios moradores, na ausência da força policial, começaram a procurar as mulheres, armados de espingardas, pela mata da região. Os corpos foram sendo encontrados, na medida em que mais mulheres desapareciam. Tinham marcas de tortura e, em todos os casos, notava-se a o detalhe nefasto da ausência de seus olhos. Era terrivelmente macabro. Buscavam um culpado, um motivo, alguém para condenar...

Certo dia Jonas voltou para casa mais tarde do que de costume, umas seis horas da tarde. Uma multidão o esperava do lado de fora, na entrada de sua casa, com pedaços de madeira nas mãos, insultando-o. “Monstro!”, “Assassino!”, gritavam.  Pouco antes, alguns haviam entrado em sua casa e descoberto o corpo de uma mulher, recém-assassinada. O povo estava ensandecido. A morte seria pouco para um monstro como Jonas Barboza...Tentou fugir, mas não o deixaram. Seguraram-no e amarraram suas mãos e pés, levando-o para o interior da casa. Jurava inocência o tempo todo e esta foi uma das poucas vezes em que se ouviu sua voz. Derrubaram-no ao chão e lhe amarraram um saco de pano na cabeça, o nó comprimia violentamente sua garganta. Ele se debatia, sufocando, implorava clemência, mas o povo não o escutou. Ele precisava pagar pelos seus atos e ia pagar ali mesmo; não havia a necessidade de polícia ou juiz. Eles mesmos julgariam. Homens e mulheres o lincharam com vergas de madeira, ele não teve chance alguma. Rapidamente, seus gritos cessaram, mas foi bem depois que pararam de bater. A polícia chegou ao local, mas já era tarde. A multidão enfurecida havia matado o maldito Jonas Barboza...

E era disso tudo que Miguel recordava ao observar a casa, pelo outro lado da rua. O dia em que sua esposa foi cruelmente assassinada, como gado para abate. Cachaça era muito pouco para esquecer. Todos os dias seus fantasmas o visitavam, lembranças que ele jamais gostaria de ter; desejava esquecer, mas era impossível. Uma criança sempre vinha lançar os braços em volta de seu pescoço, chamando-lhe por pai. Eles não tiveram tempo de ter filhos, estavam casados recentemente, mas ele cria com todas as suas forças que a mulher estava grávida. Esta lhe preparava a comida e depois vinha lhe recepcionar, com um carinho que ele não conhecia. Lembranças, sonhos... tudo destruído, estilhaçado por Jonas, o maldito!

As lágrimas minavam com força, por mais que tentasse contê-las, não conseguia. Não havia participado do linchamento e a vontade de fazer justiça ainda pulsava em suas veias. Saiu dali e foi até em casa buscar um machado, com o qual pretendia destruir toda lembrança do que houve ali, não restaria pedra sobre pedra.

Assim como o arcanjo, expulsaria aquele demônio dali!

Caminhou passos precisos e decididos em direção à casa do monstro. Ninguém o viu, já passava das dez, e gente de bem a essa hora já tinha se recolhido. A grama beijava-lhe as pernas de uma forma quase libidinosa e a marca de seus pés, e do machado, que arrastava, deixou um rastro estranho no mato, cujas folhas pareciam dedos buscando agarrá-los... Parou ofegante em frente à porta da casa, com os olhos embotados, que ele tentava limpar, sem sucesso, com as costas da mão.

– Desgraçado! – gritou ao golpear violentamente o machado na porta. Foi necessário um segundo golpe para que ela se abrisse ao meio, entretanto, revelando as trevas em que seu interior estava imerso, contra as quais a lua cheia ousava lutar. O vento frio e forte agredia a pele de Miguel e espalhava as folhas secas depositadas no interior da casa. Diminutas contas vermelhas brilhavam na penumbra, os roedores lhe faziam companhia.

Algumas pedras eram atiradas na casa em forma de protesto, e os cacos de vidro estalavam sob seus pés enquanto caminhava. O cheiro nauseabundo impregnou-lhe as narinas e ele sentiu necessidade de cuspir, como reação pela fedentina.

– Seu merda! – esbravejou ao dar uma machadada na parede, soluçando de chorar. – Foi muito homem para fazer o que fez e onde está você agora? No Inferno! É lá que você está, seu maldito! Pois agora eu vou destruir tudo isso aqui e será como se nunca tivesse existido! Você e essa casa nojenta... Se quiser, venha aqui e me impeça, seu filho da puta! – concluiu, aplicando outro golpe, dessa vez em uma das janelas,  ou o que restara dela.

Ergueu o machado outra vez, mas foi derrubado ao chão com uma forte pancada nas costas. A ferramenta caiu também e escorregou pelo solo, parando em um canto da sala. Levantou-se com muito esforço, gemendo de dor. Mesmo à meia luz, pode ver a silhueta de um homem, que se aproximava lentamente dele. Seu rosto fora iluminado por uma nesga de luar iluminou seu rosto, coberto por um saco de pano, manchado numa cor parecida com borra de café. Seus olhos brilhavam brasis como duas fornalhas, e o tecido, rasgado, em parte, e deixava à mostra alguns vermes que devoravam sofregamente sua face.

– Cristo, senhor... Não! – gritou Miguel tentando afastar-se, mas levou outro golpe. Escorou-se na parede e olhou na direção do machado, ele não estava mais lá. Levantou-se com dificuldade e foi o mais rápido que podia caminhar em direção da saída, mas a criatura apareceu em frente à porta com o machado nas mãos. Caminhava arrastando os pés, a cabeça tombada de lado, seus movimentos eram um arremedo à forma humana.

– Vade retro! – disse Miguel, sem eficácia. Correu para outro cômodo, mas criatura, mesmo caminhando a passos curtos, alcançou-o, decepando parte de sua perna esquerda, com um golpe do machado. O sangue de Miguel jorrava com força, ele gritava e gemia, mas a criatura não se importava, isso parecia entorpecer-lhe. Jonas tinha sede e saciar-se-ia com a presa que havia caíra em sua teia.

– Não! Pare com isso! Eu lhe imploro! – murmurou arrastando-se, mas Jonas o puxou pela outra perna. Miguel ficou olhando-o por alguns instantes calado e ofegante. – Por favor... não... – suplicou-lhe. A criatura parecia não lhe ouvir e com uma força descomunal desferiu-lhe três contundentes golpes no frágil humano, abrindo seu peito e cabeça ao meio, como gado.

A criatura espalhava a mancha vermelha com suas pegadas pesadas, arrastando o machado, parecendo fundir-se ao negrume da noite. O sangue de outro inocente fora derramado naquela noite, como há meses atrás. Cordeiros. Mas Jonas havia sido invocado, e retornou. E a morte caminhava a passos lentos em direção ao lobo.

***

10 de agosto de 1976

A vida daquele lugarejo mudaria para sempre, em bem pouco tempo. A polícia investigava o sumiço de várias mulheres, e o aparecimento dos corpos de algumas delas. Estes apresentavam marcas de tortura e violência sexual, além de não contar com os globos oculares. Crimes que davam arrepios ao mais durão dos policiais, e que estavam produzindo lendas em meio aos populares. Os mais simples afirmavam que se tratava de alguma entidade maligna, os mais céticos acreditavam ser obra de algum pervertido, ou mais de um, o que poderia justificar tantas mortes.

Armênio morava há anos na pequena vila, um agricultor, de movimentos rudes e olhar melancólico. Apaixonara-se por uma pequena da Santa Margaridas, mas seu amor, não correspondido, tornou-se um sentimento cada vez mais sombrio, que apesar de fazer oposição ao amor, rivalizava com este em obsessão. Maria do Carmo jurou não ser sua jamais, e o homem passou a persegui-la, à espreita, buscando o melhor momento para estar perto dela, sentir seu cheiro, encarar aqueles grandes olhos de profundo verde.

O dia finalmente chegara. Do Carmo cuidava da horta, como todos os dias, entretanto, hoje não havia ninguém em sua casa, que distava cerca de 40 metros de onde ela estava, uma plantação de quiabos, em que desaparecia de tempos em tempos em meio as folhagens. Assustou-se, quando percebeu Armênio, já bem próximo.

– Ai meu Deus, que susto! O que faz aqui? - perguntou, pousando a mão sobre o peito.

– Eu disse que te amava... - respondeu-lhe com um sorriso macabro, dando-lhe um violento soco na boca, derrubando-a ao chão com a força do golpe.

– Pelo amor de Deus, o que você vai fazer? - perguntou com dificuldade, chorando e tentando afastar-se. O homem atirou-se sobre ela, rasgando seu vestido com facilidade. Mordia e beijava seus seios avidamente. Maria do Carmo tentou se desvencilhar, mas ele deu-lhe outro soco, retardando-a. Sacou seu membro intumescido e enfiou na mulher com a brutalidade de um animal, mesmo com os apelos de moça, que esperneava, tentando se proteger.

– Socorro! - gritou a mulher, e ele segurou fortemente em seu pescoço.

– Eu te amo... - murmurava ele, e ela tentava, em vão, arfar o ar. Armênio deleitava-se enquanto a mulher desfalecia, entrava em colapso. Sentia aquele corpo esguio tremer sob o seu, o suor pingava no rosto delicado que o encarava com terror, e ele sentia cada vez mais prazer. As conjuntivas da mulher foram migravam para um vermelho vivo, e os cantos de sua boca espumavam saliva e sangue, no exato momento em que o homem atingia o orgasmo, de forma animalesca e cruel.

Soltou-se dela, ainda ofegante, e sentou-se próximo. Observava-a ainda em espasmos, até ficar completamente imóvel. Profundas marcas roxas marcavam seu pescoço, assim como as feridas feitas por mordidas em seus seios, e a boca maltratada por socos, completamente ensanguentada. Seu prazer deu lugar ao desespero, precisava fugir dali, alguém poderia tê-lo visto, iam pegá-lo! Antes, porém, precisava de algo para ter de recordação da mulher que jurou não ser dele. Num impulso, puxou um pequeno canivete que os homens do interior costumavam carregar e aproximou-se de seu rosto. Desde o começo, foram seus olhos que lhe chamaram a atenção, foi por eles que Armênio se apaixonara. Puxou fortemente o olho com os dedos brutos e, tendo dificuldade em desprendê-lo, enfiou o canivete na órbita até retirá-lo completamente. Fez o mesmo com o outro, olhou para trás, e seguiu furtivamente por entre a plantação.

Foi um de seus irmãos que encontrou o corpo da moça. Houve choro, ranger de dentes, uma angústia nunca experimentada pela família e pelos amigos. Não encontravam nenhum suspeito, não havia pistas suficientes, e as investigações eram muito difíceis, mas então, outros corpos foram surgindo. Aquele animal gostou do que fizera e passou a espreitar todas as mulheres da cercania. Seguia o mesmo padrão: violência, sexo, os olhos como recordação. Quanto mais prazer, entretanto, maior seu desespero. A polícia não tardaria a encontrá-lo, ele precisava fazer algo. Fugir? Não, ele não desejava isso. Pensou em imputar a culpa em outra pessoa.

Um homem havia se mudado para ali há algum tempo, um sujeito feio, calado e de hábitos suspeitos. Seria perfeito. Começou a planejar como faria para que ele fosse sacrificado em seu lugar. Depois, talvez, fugiria. Mas somente depois.

Miguel, o filho mais velho do dono do armazém, casara-se há menos de um ano com Guilhermina, uma mocinha formosa, de seios pequenos e quadris largos.

Seu rosto era delineado por grandes cílios, e algumas sardas, emoldurado por grandes cabelos cor de caramelo. Ela era linda e ele a desejava. E passou a procurar o melhor momento.

Descobriu todos os seus movimentos, quando saía de casa, porque, quanto tempo demorava em retornar. Almoçava com a mãe viúva quase todos os dias, enquanto Miguel trabalhava no mercado, mesmo com o perigo ao derredor. Voltava por volta das 14 horas. Naquele dia, Armênio ficou espiando à distância, no atalho que levava à casa da mulher. Ela caminhava tranquilamente, seus cabelos esvoaçavam ao vento, ela era linda. 

Ele prendeu a respiração quando ela já estava bem próxima, manteve-se imóvel, tentando se confundir com a vegetação. Ela não o viu, e ele avançou com velocidade sobre ela, dando um murro em sua têmpora esquerda, desmaiando-a. Não teria sido mais fácil.

Pôs o pequeno corpo sobre o ombro e o carregou até os fundos da propriedade de Jonas. Há dois dias havia conseguido entrar lá, o estranho deixava a casa totalmente aberta. Foi neste dia que ele descobriu, vasculhando os documentos de uma gaveta, em uma carta de sua mãe, que o reitor do Seminário o havia convidado a se afastar por dois anos, a fim de descobrir se essa era realmente sua vocação. Ele não teria tempo de saber se seus planos dessem certo.

Entrou pelo lado oeste da casa, pela falha na cerca que ele mesmo tinha feito dois dias antes. Deitou a mulher no vermelhão e rasgou seu vestido. Ela permanecia desmaiada, mas o chão frio arrepiou seu corpo, seus mamilos enrijeceram. Ele se aproximou mais e fungou, ela tinha um cheiro acre de suor que o excitou. Tirou seu membro da calça e o agitou com força, enquanto a observava. Guilhermina estava totalmente vulnerável, ele já poderia abusar dela, se quisesse, mas ele precisava do olhar apavorado, do medo, do choro desesperado. Como não pudesse esperar mais, começou a dar-lhe tapas no rosto sardento, até que ela acordasse. 

Dor, medo, lágrimas. Ela o reconheceu, já o tinha visto por ali antes, apesar de nunca terem trocado uma só palavra. E entendeu o que estava acontecendo: era ele o assassino das mulheres de Santa Margarida, e ela seria a próxima! Chutou seu escroto, conseguindo ganhar algum tempo enquanto ele se retorcia de dor.

– Vagabundinha... – murmurou agachado. Ela corria com dificuldade até a porta da cozinha, mas ele a alcançou, dando um forte soco em suas costas, derrubando-a. A mulher tossia com vigor, com grande dificuldade em respirar. Armênio a virou com o pé e a encarou, sorrindo de forma nefasta, enquanto sacudia sua genitália novamente.

– Por favor... – disse ela com as lágrimas brotando de seus olhos, procurando se afastar, sem forças. O estuprador da Vila Santa Margarida debruçou-se sobre ela e a penetrou, ela chorava desesperadamente, seus olhos grandes de medo o excitavam mais ainda.. Guilhermina tateava algo por perto para acertar-lhe, mas não havia nada por perto que pudesse servir. Cravava fortemente as unhas em seu dorso, ela sentia dor, medo e nojo.

– Por favor, não... não faça isso... - balbuciou.

– Fique quietinha, pois vai ser rápido... - murmurou em seu ouvido, e ela gritou por socorro, debatia-se mais tentando se salvar. O monstro alcançou sue pescoço com as mãos e a esganou, gargalhando e ouvindo seus gemidos, enquanto a penetrava. Seus olhos saltavam das órbitas à medida que lhe faltava o ar, ele ria com mais vigor, divertia-se. Ela esboçou uma reação, tentou esbofetear Armênio, mas suas forças esvaíam-se, seus braços desabaram ao chão, e então, seu corpo foi tomado pelo tremor, seu organismo estava entrando em colapso, seu coração parando, seus órgãos falhando, seu olhar perdeu-se em qualquer lugar. Armênio, entretanto, permaneceu apertando sua garganta até que gozasse, e não restasse à mulher nenhum sopro de vida. Levantou-se, e com o pequeno canivete extraiu seus olhos e fugiu.

Caminhando furtivamente pela mata, seguiu até sua casa para guardar seus souvenires e por uma roupa limpa. Saiu de lá o mais breve que pode, seu rosto adquirira uma expressão de urgência, preocupação. Enquanto caminhava, começou a gritar por ajuda, conseguindo chamara a atenção de uns poucos que por ali passavam, e outros que surgiam nas varandas das casas.

– Pelo amor de Deus! Vocês precisam me ajudar! Ouvi gritos de mulher na direção da casa do tal Jonas! - gritava a plenos pulmões.

Em pouquíssimo tempo uma multidão cercou a casa dos horrores, e a invadiu, armados de tacos de madeira. Encontraram Guilhermina morta, e agora tinha a prova, além de ódio e sede de justiça. Jonas chegou cerca de uma hora depois, deparando-se abismado com aquela confusão. Armênio tomou a frente de todos.

– Seu desgraçado! - gritou ao esbofetear-lhe. Ele sabia que bastasse que alguém começasse o massacre para que todos os seguissem. Então outros homens se juntarem a ele, e levaram o seminarista para dentro da casa.

– Meu Deus! O que está acontecendo? - perguntou ao ser carregado à força.

– Não diga o santo nome de Deus em vão, seu demônio! - esbravejou uma das poucas mulheres do grupo. Derrubaram-no ao chão e Armênio amarrou suas mãos e pés. Tirou um saco de pano do bolso, e com a ajuda de outros homens, cobriu-lhe a cabeça, amarrando fortemente em seu pescoço, sufocando Jonas, que insistia em sua inocência. Os golpes começaram, cada vez mais fortes. A vítima gritava em vão, jurava, implorava, mas sua voz foi ficando abafada até sumir completamente.

Armênio afastou-se à francesa, tinha sido muito melhor do que imaginara. Não havia mais nada a fazer ali, precisava agora pensar no que faria dali para frente. Foi muita gentileza do aprendiz de padre ter assumido a culpa em seu lugar, mas agora precisava voltar para casa, para a companhia de suas mulheres...

***

08 de outubro de 1976

Armênio acordou suado e ofegante. Teria sido um sonho? Não, ele tinha sim, ouvido um grito medonho ecoar na madrugada. Não podia mais abreviar sua partida, fazia meses que tudo aquilo tinha acontecido, mas sentia-se cada vez mais ameaçado, vigiado, apesar da necessidade de mais mulheres. Ele não podia parar, precisava sentir novamente o desespero daquelas faces delicadas. Mas acreditava estar na iminência de ser encontrado, dia e noite aqueles olhos conservados em cachaça o acusavam pela transparência dos vasilhames de vidro. O melhor a fazer era fugir agora, na calada da noite.

Estava arrumando uma pequena mala, não tinha muito que levar, quando a lâmpada incandescente piscou três vezes antes de apagar completamente. Ele teve um sobressalto, mas logo acendeu uma lamparina sobre a mesa de cabeceira, as quedas de luz eram comuns naquele lugar. Então, ouviu sua porta bater, mas não poderia, pois estava trancada. Apanhou sua espingarda cartucheira que guardava em cima do guarda roupa, muito usada em seus tempos de caça.

– Quem está aí? – gritou para a escuridão, com a espingarda em punho, mas não houve resposta. Era possível, apenas, ouvir grilos e outros animais da noite, nada mais.

Armênio vasculhava a casa lentamente, a arma tremia em suas mãos. Vultos começaram a persegui-lo, então se virou desesperado. Grandes olhos brasis o observavam por trás de um saco de pano surrado, cujas formas arremedavam um sorriso maquiavélico. 

– Ah! – gritou Armênio e disparou ao mesmo tempo em que recuava. O tiro acertou em cheio a barriga da criatura abrindo um enorme buraco que o atravessava de um lado a outro. Jonas deixou o machado cair e tocou a barriga com as mãos. Subitamente uma grande quantidade de vermes começou a se derramar e ele grunhiu fortemente. Puxou o saco de pano da cabeça de uma só vez, revelando o rosto deformado e apodrecido, em cujo centro brilhava dois grandes olhos como lagos de fogo.

Avançou novamente sobre Armênio e gritou novamente, derrubando o maldito assassino, traído por um frágil coração humano que parara de bater. Jonas olhou para cima, e uma forte luz branca surgiu de seu peito, cobrindo-lhe todo o corpo. Seu rosto adquiriu outra vez a forma humana, e ele desapareceu em meio ao clarão.

No dia seguinte, a polícia encontrou o corpo de Miguel, assassinado a machadadas. E com a informação de gritos durante a madrugada, chegou à casa destruída de Armênio, encontrado morto, sem sinal de violência, entretanto. Pela casa havia, ainda, uma pequena mala aberta, uma espingarda cartucheira carregada, e uma série de vidros de maionese com globos oculares. Foi o bastante para ligá-lo aos crimes, e inocentar Jonas, o ex-seminarista imolado em vão.

George dos Santos Pacheco

2 comentários:

  1. Muito obrigado! Esse conto foi meu primeiro texto de terror e teve muitos comentários dos leitores na época em que o publiquei. Chamava-se "A casa dos horrores", e recebi muitas dicas e orientações, críticas... até que esse ano eu resolvi reescrevê-lo, e acho que o resultado foi plenamente satisfatório. Continue visitando o blog! Até mais!

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