Aspirações de um cidadão comum


Certo dia estava um mendigo sentado à calçada, manuseando um bilhete de loteria em que havia investido alguns trocados, deixando, por isso, de fazer seu desjejum. O pouco que conseguia juntar nos bolsos era proveniente de doações, ou de pequenos serviços como auxílio nas manobras de carros e limpeza de terrenos. Era constantemente repugnado, sua aparência e seu cheiro afastavam a maioria das pessoas.

E sentado à beira da calçada, observava seu bilhete e as pessoas que transitavam à calçada, alheios à sua existência.

– Sabe, Almeidinha... um dia – talvez seja breve, se caso este bilhete for sorteado – mudaremos de vida. – disse ele. O outro parecia não ter-lhe ouvido; sentado ao seu lado, coçava a orelha esquerda.

As pessoas caminhavam apressadas para o trabalho, crianças iam para escolas, religiosos iam às igrejas, aos centros, aos templos; ônibus partiam e chegavam, carros buzinavam e paravam. Nada escapava à normalidade. E ele continuava suas conjeturas.

– Veja eles... tem um bom emprego, salário, casa, carros, boas roupas, mulheres e filhos. Tem tudo querem, e querem mais do que podem. – Dessa vez, após abanar-se, Almeidinha aproximou-se fazendo festa.

– Mas tendo eles emprego e salário, pagam impostos e taxas. Sobre seus rendimentos, sobre seus carros, sobre suas casas, roupas e até sobre o que comem. Empregados, devem satisfação a seus patrões, ficam em suas ocupações até altas horas, e quando chegam, não tem tempo de curtir sua família e tudo aquilo que puderam comprar. – Almeidinha, inclinou levemente a cabeça, e observa-o atentamente. – Às vezes, afastam-se tanto de suas famílias, que acabam encontrando outras mulheres que não suas esposas; as mulheres, homens que não seus maridos. Tornam-se promíscuos, mas garantem que não; hoje em dia, o hábito legitima tudo como normal. Daí divorciam-se, pagam pensão, e afastam-se ainda mais de seus filhos...

Correu o olhar à sua volta, e olhou novamente seu bilhete, suspirando. Já não sorria mais; seus sonhos, agora, lhe causavam uma angústia disfarçada de fome. Almeidinha deitou-se ao seu lado, e suspirou.

– Os homens ricos, são de conhecimento geral. Todos sabem onde estão. Vem para cá e vão para lá. Não tem sossego. São ditos cidadãos respeitáveis, e assim, precisam cumprir com seus deveres. Precisam votar e se eleger. Mentem, enganam, persuadem, seduzem... Seu dinheiro não basta e o buscam mais e mais, utilizando o pouco tempo que lhes restara. E quanto mais tem, mais gastam. Mesmo podendo usar os serviços de saúde gratuitos, pagam por isso, para si e seus dependentes; mesmo tendo direito à segurança, pagam seguro para seus carros, casas e dependentes; mesmo tendo direito à educação, também pagam por isso.

Então morrem, como todos os outros. E quando morrem, seus filhos o choram por alguns dias, mas as lágrimas dão lugar rapidamente às discussões e ofensas. Irmão contra irmão, filhos contra mães e pais. Repartem os bens deixados como abutres sobre um cadáver em pleno sol causticante da África Setentrional...

Olhou outra vez para as pessoas, elas já não pareciam tão belas como antes. Segurou aquele papel com seis dezenas marcadas à frente do rosto e deu um muxoxo. Rasgou-o em seguida.

– Vê, Almeidinha... já não vale tanto à pena ser rico...

George dos Santos Pacheco

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