O Eu-outro




Naquele dia, um homem de meia idade estava sozinho em sua sala. Anoitecia, e ele podia enxergar-se na vidraça. Fitava seu reflexo, os braços apoiavam-se na cadeira com as mãos entrelaçadas sobre o ventre; os cabelos já grisalhos, estavam úmidos e penteados para trás. Suas pernas magras cruzavam-se solenemente, a perna esquerda sobre a direita, e seus óculos bifocais escorregavam para a ponta do nariz.

Como o silêncio parecia lhe sufocar, tomou a palavra nestes termos:

É... a que ponto nós chegamos! Tornamo-nos cada vez mais individualistas, consumistas e capitalistas. Veja, é quase uma lista de listas! Algum comerciante vende um produto que ele sabe que não presta, mas mesmo assim ele o vende. Está pouco se lixando para os outros, o que importa é seu lucro.

As pessoas, quando tem a oportunidade de receber algum benefício do governo, se candidatam, mesmo sabendo que, na verdade, não tem direito a eles. E o governo sabe disso: ou faz vista grossa, ou não tem condições de fiscalizar.

Falsificamos documentos, atestados médicos, despejamos lixo em qualquer lugar, fazemos ligações clandestinas de energia elétrica, ou seja, a mais perfeita personificação da Lei de Gérson. E ainda reclamam dos políticos, vejam só!

Saem do meio do povo, é bem verdade, são seus representantes. Fazem promessas impossíveis de serem cumpridas, mas suas maneiras eloquentes de declamar seus projetos empolgam as massas. E gostamos de ouvir as coisas desse jeito.

O povo também gosta quando os homens de terno beijam e abraçam suas crianças e suas esposas, e apertam suas mãos como se fossem amigos de infância. Nos sentimos importantes com isso. Chamam pelo nome dos candidatos no diminutivo, numa forma carinhosa de tratamento restrito aos círculos de amizade mais íntimos.

E depois das eleições, desaparecem: não apertam mãos, não beijam, não abraçam, não prometem. Muito menos se justificam. E o povo não sai do lugar, foram treinados para isso. Suas indignações ficam restritas ao discurso, reclamações no âmbito familiar e de amigos. E continuam vivendo, individualistas, consumistas e capitalistas, recebendo benefícios do governo, falsificando documentos e votando errado, e como votam errado!

É claro, deve existir alguém de bem no meio disso tudo. Pessoas honestas, que não admitem nenhum desses comportamentos. Mas eu ainda não conheci ninguém assim. Talvez eu esteja me relacionando com as pessoas erradas.

Neste momento, o homem foi interrompido no meio de seu discurso com batidas na porta.

– Entre, por favor! – disse ele.

– É que já está na hora do comício. – disse o rapaz.

– Oh! Sim, é claro. Diga a todos que já estou descendo. – respondeu ele levantando-se e ajeitando o terno, a fim de ficar mais bem apresentado.

O rapaz saiu e o homem de terno puxou um pente do bolso, passou nos cabelos e no bigode. Olhava para seu reflexo no vidro e este continuava a lhe encarar. Sorriu e disse, quase num sussurro:

– Meus amigos, minhas amigas, minhas queridas crianças! Minha gente!

O reflexo lhe sorriu de volta e tomou a palavra.

– O que me faz diferente de você? O que faz eu diferente dos outros e os outros diferente de mim? A ótica? Sim! A diferença está nos olhos de quem vê. Não há nada de diferente entre mim e um político, entre mim e um cidadão comum: somos a mesma coisa. O mesmo animal racional, onívoro e que busca segurança por todas as formas, honestas ou não. É... não faça essa cara. Todos procuramos satisfação, bem estar, conforto. Essa é a natureza do homem, a criatura evoluída. Tudo depende de como vamos fazer isso.

As pessoas matam por isso? Sim, matam.

Elas roubam por isso? Sim, elas roubam.

E ainda: elas mentem por isso?

É... elas mentem, e como mentem!

Portanto, se você está incomodado com toda essa canalhice, faça alguma coisa. A mudança tem de partir de algum lugar e toda longa jornada exige um primeiro passo. E o melhor ponto de partida para qualquer mudança, em qualquer sociedade, é você mesmo.

Quer fazer algo pela sua cidade, pelo seu país, pelo mundo?

Mude a si mesmo. – concluiu o reflexo.

O homem respondeu com um sorriso amarelo; estava suado e ofegante. Encontrou novamente o pente e tornou a passá-lo nos cabelos e no bigode. Estava incomodado. O reflexo parecia ter lhe ofendido.

Procurou a porta o mais rápido que pode, e saiu atabalhoadamente, olhando vez em quando para trás, na direção da vidraça. O reflexo também se despedia e parecia tão incomodado quanto ele. Conhecer os outros pode ser um caminho para conhecer a si mesmo, mas em alguns casos, será uma aventura extremamente indigesta.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

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