Corre, Seu Cabo!


Essa história é contada há anos em Nova Friburgo, em rodas de amigos, em barzinhos, e inclusive em mesas de rancho, mas garanto que não deve em nada à outra. Contá-la-ei exatamente como me foi contada.

O Sanatório Naval de Nova Friburgo é um quartel da Marinha situado na referida cidade, criado para atender doentes de beribéri – uma espécie de avitaminose. Ficava em um ponto de mata bastante preservado, com eucaliptos, ameixeiras, abacateiros, araucárias, e ipês, entre muitas outras espécies. Em meados do século XX, devido a uma epidemia de tuberculose, sua função mudou para o atendimento desses doentes no recém-inaugurado Hospital Tisiológico, dentro do complexo militar.

A cura para a tuberculose foi encontrada, e os doentes puderam ser tratados com menos rigor, o que levou à desativação do Hospital. Contudo, sua existência naquelas paragens garantira ao Sanatório a condição de mal-assombrado. “Muita gente morreu lá” era o que diziam muitos, outros chegavam a afirmar terem visto e ouvido “coisas assustadoras” nas imediações do antigo hospital.

Para ratificar essa fama, um dos mais antigos cemitérios do Brasil era adjacente ao quartel: o Cemitério Luterano, de 1824, onde jazem muitos civis alemães, aprisionados em Friburgo por ocasião da Primeira Grande Guerra, vítimas de uma epidemia de tifo.

Pois bem, acontece que dentro do cemitério havia um grande abacateiro. Na verdade, existia em todo o quartel, mas os abacates já eram poucos, enquanto aquele da necrópole estava carregadíssimo. Um dos marinheiros, interessado nas frutas, chama o amigo para o improvável.

– Jonas, vamos pegar mais alguns abacates hoje?

– Não há mais abacates a bordo...

– Sei de um lugar...

– Está de troça comigo?

– É sério! Nunca reparou no abacate do cemitério? Está carregado! – disse o marinheiro Coimbra.

– Ah, sim. E você quer ir lá pegá-los? Está louco?

– E agora você tem medo de fantasmas?

– Não, não tenho medo, mas...

– Você é “cagão” sim! – ofendeu-o Coimbra, na intenção de persuadi-lo.

– Não podemos ir lá ao expediente, o mestre dará por falta da gente...

– Estamos de serviço amanhã, vamos à noite.

– À noite? – perguntou Jonas apreensivo.

– Seu “cagão”...

– Está bem... – concordou Jonas um tanto contrariado. Afinal, ele nem gostava tanto de abacates.

No dia seguinte lá estavam os dois, dentro do cemitério; após terem vencido o muro, um havia subido no abacateiro, enquanto o outro permanecia embaixo, colocando as frutas em dois grandes sacos de pano.

– Um para mim, outro para você... – contava Coimbra, e Jonas separava-os.

– Hei cara! Presta atenção! Você deixou cair dois lá fora! – reclamou Jonas, que o tempo todo corria o olhar à sua volta.

– Fica tranquilo, quando a gente acabar aqui, vamos lá fora e pegamos os dois...


E continuaram.

Naquela época, havia uma rotina de se fechar o portão de um estacionamento dentro das dependências do Sanatório, próximo ao cemitério, assim que anoitecesse. Eram frequentes as reclamações dos marinheiros, pois nenhum queria se dispor a ir lá perto, sobretudo à noite.

Estando de serviço, o Sargento Luciano chamou um marinheiro que folgava o horário para realizar tal tarefa, visto que o Polícia em outra faina. Após ouvir todas as ponderações a que já estava acostumado, deu-lhe um ultimato:

– Boy! Vai lá e fecha aquele portão! Você quer o quê? Que eu saia daqui para fazer isso? Ou o Cabo-Auxiliar?

O marinheiro saiu resmungando, mas seguiu em direção ao portão, rodando a chave nos dedos. Sua respiração era rápida, seu coração batia forte. À noite, todos os gatos são pardos, quanto mais quando se está com medo. Algumas das centenas de árvores que havia naquele quartel, tinham se apodrecido, e preocupado com que desabassem, um diretor mandou que as cortassem. Eis que uma ficava bem próxima ao portão e ao cemitério, e dependendo da altura da Lua, e a posição do observador, assemelhava-se a um homem com os braços caídos e a cabeça pendendo para um dos lados. Por mais que já se soubesse que não passava de uma árvore, qualquer um ficava apreensivo, e não foi diferente com o marinheiro Madeira.

Aproximava-se cada vez mais do portão quando ouviu sussurros no cemitério. Seu coração apertou mais ainda. Suava frio, as pernas bambearam     quando ouviu do que se tratava.

– Um para mim, outro para você...

– Jesus Cristo! – murmurou pondo a mão na boca e partindo em disparada para a Sala de Estado.

Chegando lá, mais branco que uma vela, não foi dispensado de levar mais alguns esbregues do sargento.

– O que foi agora, boy? – perguntou o homem por trás do balcão.

– Deus e o diabo estão no cemitério... – disse ele ofegante.

– Como é que é?

– Deus e o diabo estão no cemitério... dividindo as almas! – respondeu ele ao se recompor.

– Deixe de ser medroso, Madeira! – repreendeu-o, no momento em que o Cabo Polícia chegava.

– Está pegando, sargento? – perguntou Barrozo.

– É esse boy medroso, que não quer fechar o portão do estacionamento!

– Deixe que eu vá, então...

– Entregue a chave a ele, seu sacana!

– Não está comigo... acho... acho que deixei cair lá...

– Mas só faltava essa agora, não é? Madeira, seu boy malhado, agora você vai lá e vai procurar a chave. O Barrozo vai contigo.

– Mas sargento...

– Mas o quê cara? Você vai lá, não fecha o portão e ainda perde a chave. Vai lá procurar sim!

Barrozo acompanhou-o se escangalhando de tanto rir, e o marinheiro continuava a resmungar.

– É verdade, seu Cabo, Deus e o diabo estão dividindo as almas lá no cemitério...

– Deixe de ser medroso, Madeira! Que história é essa?!

– Eu ouvi, seu Cabo, não foi ninguém que me contou não...

E continuaram caminhando. Passaram pelo toco da árvore que se assemelhava a um homem, à noite, até chegarem bem próximo ao portão. Com uma lanterna, o cabo vasculhava o chão junto com o marinheiro em busca da chave. Foi quando ouviram novamente.

– Um para mim, outro para você...

– Ouviu, seu Cabo, ouviu?! Estão dividindo as almas! Estão dividindo as almas! – disse o marinheiro desesperadamente.

– Meu Deus! E não que é verdade mesmo... – disse Barrozo, deixando cair a lanterna com o susto.


E lá dentro do cemitério:

– Já acabou?

– Acabou sim, agora vamos buscar aqueles dois que estão ali no Sanatório...

– Corre seu Cabo!

George dos Santos Pacheco

Um comentário:

  1. Oiee,prazer, vi o teu blog na página de divulgação e vim conhecer =)
    kkkkkkkkkkkk
    póh, achei que fosse uma história séria e no final estou morrendo de ri!

    Beliscões carinhosos da Máh-
    Cantinho da Máh
    @Maaria_Silvana

    ResponderExcluir

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