Café Literário: Dos vícios – Os livros


Cada vez que meu avô resolve abrir a carteira e presentear os netos, abre-se no horizonte o sol mais radiante. A felicidade impera nesses momentos. É o instante propício para cheirar a cédula de dez ou vinte reais, olhá-la com carinho, abraçá-la, beijá-la. Ganhar dinheiro do vô é uma das maiores bênçãos do mundo. 

Até porque, como eu sou vadio de marca maior, dependo dessa verba para sustentar o vício. Aliás, todo mundo precisa de dinheiro para alguma coisa. Comigo não é diferente. Desde que entrei no mundo pesado do vício eu não consigo ficar um dia sem pensar em ir correndo me abastecer do bendito, ou melhor, dos benditos, como eu gosto de chamar. 

Por isso fico à espreita, tentando dar aquela cutucada básica no vô. Passo por passo vou conseguindo, e quando ele decide garantir financiamento, respiro aliviado. Pronto, agora posso ir tranquilo aos sebos comprar meus livros. Agora a felicidade pode ser realmente plena. Vou poder gastar os dez, quinze, vinte reais do jeito que eu quiser. Posso me entupir de Vargas Llosa, de romances baratos de faroeste, de poetas portugueses, de Agatha Christie, de Castro Alves, de livros de História. Ultimamente até livro do Sarney eu comprei. Minha biblioteca é a mais variada possível. Todas as gerações, escolas literárias, movimentos estão incluídos nela. 

Só que apenas comprar por comprar não vale. É preciso adquirir um livro com dignidade. O leitor precisa ser digno do autor que vai ler. A obra precisa “dar liga”. A química entre os dois, aquele laço forte entre as sedutoras páginas e o embasbacado viciado em leitura precisa ser surreal, além da imaginação. Essa é a regra que vale. Não só para mim, como para todos. Um livro é mais do que palavras escritas em folhas de papel. Um livro pode ser serenata de namorados, calmante natural, remédio para o estresse, tratamento de beleza. Torna-se até artefato de guerra dependendo de quem usa e como usa. 

O fato é que é fundamental escolher bem. Tem gente que vai pela capa, outros vão pelo tamanho. Existem pessoas que escolhem seus livros pelo preço, o que acredito ser uma falta de respeito. Há leitores que se mordem de dúvida quando estão diante de várias opções: romance ou poesia? Literatura nacional ou estrangeira? Linguagem simples ou coloquial? Tudo isso muito compreensível para quem é louco por leitura. Eu mesmo tenho esses problemas. E cada um resolve da maneira como acredita ser conveniente. 

Agora, não há como negar que a coisa mais boa de se fazer em um sebo, livraria ou biblioteca é, sem dúvida alguma, cheirar os livros. Meter literalmente o nariz, folhear as páginas sorvendo aquele cheirinho tão delicioso, que parece que avança fundo na alma, é adentrar no paraíso, é sentir-se pleno de luz, é desencadear o prazer mais natural do ser humano. Não há bom leitor no mundo que nunca tenha cheirado seus livros. Velhos ou novos, clássicos ou não o que vale é sugar as profundezas do livro. O que vale é tornar-se escravo do vício da leitura. 

É por isso que é bom ganhar o sagrado dinheiro do vô. E é por esses motivos que eu digo aos jovens, aos amigos e à família: se querem se viciar, que seja em livros. Se a intenção é cheirar algo, que sejam livros. Esse é daqueles vícios bons, positivos. Se colocar o nariz nas obras literárias, perfeito. Se colocar os olhos e se prender a elas, de corpo e alma, excelente, melhor ainda. 

Que viva o universo dos livros! Abençoados sejam aqueles que os propagam, que os semeiam, como já dizia o poeta. Ainda tenho a esperança de que o mundo reconhecerá, de forma indubitável, o poder dos livros. E quando esse dia chegar, uma certeza eu tenho: vou ter que pedir aumento na verba. Não vai haver espaço em casa para tanta obra que eu quero comprar.


Gabriel Cavalheiro Tonin
gabriel.pf95@hotmail.com

Nascido em 09/09/1995, Gabriel desenvolveu cedo seu gosto pelas letras, aprendendo a ler e escrever com três anos de idade. Com a paixão cada vez maior, começou a escrita de poesias em 2009, e não parou mais. É autor do livro – Um encontro no horizonte - e escreve textos em português e italiano para blogs e sites literários.

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