Café Literário: Moranguinho do batuque



Suas pernas andavam cheias de “crecas”, como sua avó Dinha chamava as feridas que lhe acompanhavam. Moranguinho, ou Isaías, nome que quase ninguém sabia, todos lhe chamavam até de Morango, mas não o conseguiam lhe chamar de Isaías.

Desde os cinco anos de idade, vivia na companhia desse apelido e dessas feridas. Com o amor do pai ele nunca se encontrou, sua mãe Meirinha, para muitos Tia Meirinha, vaidosa, cuidava de Moranguinho feito abelha cuidando da colmeia, mas as feridas não desapareciam. Elas já estavam até familiares á ele e aos conhecidos.Tanto que, quando uma ferida estava num aspecto de cicatrização, alguém logo fazia cena de milagre. “Que milagre essa está secando, mas a cicatriz vai ficar né!”

Jogava bola (pegava o baba) com os meninotes no campo de futebol em média seis horas por dia. Acordava às seis da manhã para ir á escola, onde toda terça feira sua mãe era chamada, praticamente, para ouvir sempre as mesmas queixas sobre seu filho. Era uma tristeza só! Um enorme desgosto! (ela falava).Sentia-se triste e humilhada todas as terças feiras perante ás reclamações. Mas ela o amava. Não só por ser mãe, mas ela o amava muito. Com o Amor de Meirinha ele contava sempre.

Ele brincava de gude, brincava de carrinhos feitos por caixas de fósforo que seu pai jogava fora, batucava em todos os lugares que chegava e empenava pipas.

Quando chegava da escola, às 12:00h, logo tirava a roupa suada e suja de barro (pois corria na ribanceira da escola e subia em árvores). Essa roupa precisava ser lavada todos os dias, impreterivelmente. Tirava o sujo, colocava na água e esfregava com sabão em pedra. Enxaguava. Sacudia bastante e ia para o varal tomar sol.

A rotina do garoto era chegar da escola e descer para o campo Beira Rio jogar futebol com os meninos. A cena era sempre a mesma. Minutos depois ele subia chorando, mas era às vezes era um choro calado, sem muito barulho, outras vezes resmungando, do tipo que sentia mais profundamente o cascudo ou o tapa que levava das outras pessoas (adultos e crianças).

Mas Moranguinho também era danado como o diabo, de retado à surreal. De todas as travessuras ele já havia experimentado. Desses meninos que repetem as travessuras por ter visto um ar de sucesso para ele e preocupação para a vítima. Assim ele se divertia. E quando não tinha sucesso, chorava. O incrível era que o seu choro era maior e mais intenso quando magoavam suas “feridas”. Ele voltava para casa mancando e chorando, chamando pela mãe. As feridas também choravam. Não estavam cicatrizadas.

Parecia que a cada travessura saía uma ferida. Será? Mas de onde vinham? e Por que tantas feridas? Folhas de aroeira, pedra ume, até a rezadeira sua avó (Dinha, Dona Nair) já tentou uma de suas rezas especiais, Até promessa já fizeram. As feridas lhe vencem. Ao voltar do campo de futebol, elas estão cheias de barro, um barro vermelho, que garante um aspecto de casas de taipa, e pernas sempre “foveiras”, cada ferida recebia uma quantidade suficiente de barro para cobri-la. Coisa da natureza. Da natureza de Moranguinho.

No aniversário de uma de suas primas, Moranguinho foi chamado para fazer parte de uma das fotos. Suas pernas estavam muito em evidência e consequentemente as feridas, aquelas feridas que não causavam uma boa imagem a quem fotografava. O fotógrafo começou a ficar preocupado, pois não havia editor de imagem. Um chega pra cá, um chega pra lá e nada resolvido. Então, Dinha (sua avó, que colecionava almofadas estampadas) propôs que cobrissem as pernas com algumas as almofadas até os joelhos. Havia almofada de todas as estampas: a última ceia, estampas de animais, estampas de crianças, estampas de plantas, de paisagens, imagens de santos. Pernas cobertas, eis a foto!

As cores e estampas eram suficientes para cobrir as feridas de Moranguinho. Essas chamavam mais a atenção que os personagens da foto. Contudo algo de contraditório havia naquela foto: o rosto de moranguinho. O seu rosto triste, acinzentado. Olhos grandes, sobrancelhas grossas. Cara de choro. Esses elementos eram a maior ferida do garoto. Nenhuma estampa conseguia, concretamente, esconder essa imagem.

Terminava a foto, esperava-se um mês para que fosse entregue. Colocava-se em uma moldura e expunha na parede da grande casa (parede que já era cheia de outras fotos e quadros). E recomeçava as suas travessuras!

O menino tinha uma enorme aptidão por batuques. Batucava em latas, portas, janelas, caixas, armários, geladeiras, cadernos, livros, baldes. Tudo o convidava a fazer “um som” a fazer o “seu som”, ele criava letras de música com as palavras mais simples. Inventava! Pois era o “seu som”.

Vamos voltar ao morangueiro. Certamente, desde o início da leitura, o leitor se pergunta: “Por que esse apelido de Moranguinho?!”.

O que se sabe mesmo é que em sua vida e em seu coração faltava a doçura que tem um morango.


Michele Santos Sena
mitchellsena@yahoo.com.br

Nascida em setembro de 1986, hoje, aos 26 anos, é professora graduada em Letras Vernáculas, Especialista em Estudos Linguísticos e Literários e em Docência do Ensino Superior; baiana e soteropolitana; atua em escolas da rede pública e particular de ensino, além de ONGs e Cursos Profissionalizantes.

Michele Sena expressa, através dos seus escritos, a sua paixão por três mulheres: Dinha (avó adotiva, falecida em 2010), Elisabete (sua mãe) e Clarice Lispector. A jovem despertou para a Literatura ao ouvir as histórias fantásticas contadas por sua avó adotiva. Essa era a ideia de Literatura conhecida por ela: ouvir Histórias Fantásticas e populares contadas e encenadas pela avó. Aos poucos, a criança vai crescendo numa casa com mais de trinta moradores e o que não falta é história pra ouvir e inventar, contar e escrever. Surgem as suas crônicas, as folhas de papel rabiscadas com as cenas do cotidiano, as conversas de ônibus e ideias que surgem ao ver uma novela, ler um texto ou ouvir uma música. No momento de inspiração tudo se torna motivo para desenhar a vida com as palavras.

"Os relatos da vida simples me atraem..."

Um comentário:

  1. Mi, parabéns pelo texto!

    O original atrai, continue....

    Bjs saudosos,

    Milena

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