O Velho da curva


Certa manhã, quando seguia para as minas, encontrei um homem da vila sentado onde os trilhos faz a curva. Quando voltei do trabalho a tarde, ele ainda estava no mesmo lugar. No outro dia, sob um guarda-sol, numa cadeira de descanso ao lado de um embrulho com água e alimento encontrei-o novamente. E assim passou-se a semana inteira, e o homem resoluto todos os dias estava no mesmo lugar.

Um outro dia não resisti e perguntei o que fazia ali; ele me disse que estava a espera da justiça  e que havia feito uma proposta  consigo, de não sair dali  até que a justiça divina fosse cumprida. Era uma espécie de promessa, e ele só regressava à sua casa a noite. Não quis contender, mas perguntei a ele se havia procurado o juiz da vila. Ele me disse que não acreditava na justiça do homens, e portanto decidiu esperar a divina.

Daquele dia em diante, todas as manhãs conversava com ele, e aos poucos descobri que o filho dele, um operário, havia sido assassinado pelo dono da companhia, seu patrão; um homem arrogante e sem escrúpulos. 

Os meses, anos se passaram, o progresso chegou, foram construído tribunais e escolas. As faculdades formaram juízes e promotores, as minas exauriram, e o homem continuava no mesmo lugar. Agora seus cabelos eram alvos como a neve, sua pele foi ressecada pelo sol, e os seus velhos ossos se tornaram fracos e quebradiços. O dono da companhia ampliou seus negócios, novas linhas férreas cruzaram aquele chão, os seus capitais e patrimônios se multiplicaram. Novos crimes, os mais diversos e cruéis foram cometidos, juízes e promotores foram comprados. A justiça estava sob seus pés.

Eu continuava visitando o Velho da Curva, como ficou conhecido, mas com menos frequência, pois havia mudado de emprego. Um dia, cedo, antes de ir para o trabalho passei antes na curva para vê-lo, mas ele não estava no seu local. Seus objetos estavam no mesmo lugar de sempre. Preocupei-me, pois durante anos a fio nunca saiu do seu posto. Resolvi procurá-lo, acabei encontrando um corpo mais abaixo  já perto das pedras, estava esmagado, mas reconheci, era o Velho da Curva. Pouco depois, na estação, o maquinista me disse que ele foi atropelado pelo trem, ele estava nos trilhos e havia prendido o pé nas barras,  lutou desesperadamente para se libertar, e o trem não parou a tempo.

O Homem da Companhia mandou colocar uma cruz no local onde o Velho da Curva passou seus últimos trinta anos de vida, "uma singela homenagem" dizia ele aos seus amigos. Anos depois o Homem da Companhia, já farto de dias, também morreu. Morreu de causas naturais, "como um passarinho" dizia seus filhos.

Os Homens, tanto o da Companhia quanto o da Curva, foram enterrados no mesmo cemitério. Durante os dias ensolarados, noites enluaradas,  dias e noites de tempestades, qualquer dia, em seus túmulos ou qualquer outro lugar dessa vastidão infinita, não se ouve risos ou gemidos, além do pó, só silêncio. 

Irineu Magalhães
Irineu Magalhães é escritor, cronista, poeta e músico. 

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