O sonho não acabou


Vez em quando fico um pouco pra baixo. E o motivo são as letras. Estes 55 caracteres que acabei de digitar, os que venho digitando desde 2006, os que ainda vou digitar, e que fervilham em minha mente criativa. Mas qual o problema com as letras, que me deixam deprimido de tempos em tempos, se me dão tanto prazer? Vamos lá.

Um cozinheiro aprende uma nova receita e se empenha em prepará-la. Busca os melhores ingredientes, os melhores temperos; faz testes e mais testes e, enfim, o prato está pronto. E depois disso ele não o atira na lixeira, para sua satisfação ser completa, ele precisa que alguém deguste o resultado de seu trabalho, dê sua opinião, enfim, aprove o que ele fez. Ou não. Pode reprovar também, mas aí o cozinheiro vai refazer o prato e isso faz parte do trabalho. É criar e recriar.

Pois se para o cozinheiro é assim, com o escritor não é diferente. Procuramos as melhores palavras, o melhor foco, a melhor forma de contar uma história. E quem escreve não o faz para si mesmo (embora alguns digam isso), escreve para alguém ler. Ou então seu trabalho fica incompleto, sem sabor. É preciso ter esse retorno, como o cozinheiro ou qualquer outra profissão. Caso as críticas sejam negativas, ele refaz o texto, não tem problema. O importante é que o texto, livro, seja lá o que for, seja lido, degustado, devorado, e se alguém gostar, melhor ainda.

Mas onde estou querendo chegar com tudo isso? Eu escrevo desde 2006. Publiquei um conto em uma antologia, um romance policial, ganhei uma menção especial num concurso de trova, publiquei outros tantos contos pela internet afora, inclusive em meu blog. Mas às vezes tenho a impressão de que canto e ninguém me escuta, cozinho e ninguém prova, escrevo e ninguém lê. Eu vivo mandando originais para diversas editoras e só recebo negativas, em linguagem polida, é verdade. Estou cansado de bater e ninguém abrir*. Eu queria apenas que se alguém me lesse, comentasse: “Eu li seu texto, está uma merda, mas eu li”. Sensação de dever cumprido.

Se é assim, porque continuo a escrever?

Já pensei em desistir disso tudo um sem número de vezes. Na última, fui salvo por uma entrevista do cassseta Marcelo Madureira. Ele falava sobre o sonho: “É importante sonhar”. Daí a apresentadora emendou: “É, porque... um dia a gente realiza esse sonho”. Ele, então, corrigiu: “Não, o importante não é realizar o sonho, o importante é sonhar”. A apresentadora ficou desconcertada com a grandiosidade das palavras do humorista, que falava sério. Eu também. Fiquei pensando nisso por alguns dias, quando me deparei com uma reportagem sobre uma maratona no deserto. Diversas equipes participavam, entre elas, um grupo de pessoas com necessidades especiais: um senhor cego, e quatro atletas portadores de deficiências físicas, acompanhados por um grupamento de bombeiros. Para se ter uma ideia, em um único dia, tiveram que percorrer cerca de 80 km, limite grande demais, até mesmo para atletas de alto desempenho.

É verdade, eles não ganharam a competição, e sabiam que não iam ganhar. Mas porque participaram, enfrentado temperaturas  que variavam de 51 graus a 5 graus negativos,  tempestades de areia e risco de desidratação? Apenas por participar. Sensação de dever cumprido. Eu não lembro de ter visto algo tão emocionante quanto aqueles sorrisos, os  olhos marejados, a emoção e alegria daquelas pessoas, por ter alcançado aquela linha de chegada, superado limites de fome, sede, e dor; limites relacionados à suas próprias condições físicas. Chegar ali significou muito mais do que qualquer troféu, e ninguém poderia ter dado isso a eles, a não ser eles mesmos. Um sonho.

Eu continuo a escrever porque o sonho não acabou. Estou em pleno deserto, claudicando, mas persisto pelo sonho, pela minha própria superação, mesmo que ninguém leia meus textos para poder dizer que “estão uma merda”. E assim escrevo, ora bem, ora mal,ora acertando com o que quero dizer, ora errando, caindo aqui, levantando-me acolá , mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso**.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

*Renato Russo

**Fernando Pessoa

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