Café Literário: Caninos Levemente Afiados


Estava cansado de ser subhumano, de não ser nem realidade nem poesia. Sentia vontade de morder o mundo, só pra se sentir vivo. Fincava os dentes pontiagudos até sangrar. Sugar a eficiência, a financeira sensação de potência. Chupava gestos e preferências. Engolia estilos sem a devida paciência de mastigá-los, afinal, não sentia qualquer sabor, estava morto e condenado a ficar de olhos abertos por toda a eternidade relativa do tempo. Que se atire mais uma pedra.

– Seu Generico, dá aquela!

Vagava pelo crepúsculo, ruminando sangue, sujo e magro. Um campo extenso, algumas árvores antigas e música clássica por todos os lados. Como é comum ao desconhecedor de um gênero, julgava serem todos os exemplares iguais. Mozart ou Beethoven, era sempre a mesma música.

Estava certo de que se tratava de um jogo de RPG. Com tal cenário veria gnomos, zumbis, centauros... Parou um instante. Não. Não poderia haver calças jeans naquela Idade Média atemporal. Seu paletó surrado também não fazia o estilo da época. Caminhava pisando em folhas secas. Os efeitos sonoros estavam muito bem ajustados aos seus passos errantes. Contudo, refletiu, não poderia ser, pois nesse tempo não existia África. Era mulato e sem os dentes da frente, como poderia fazer parte disso?

Enfim se deu conta da presença de zumbis. Estavam por toda parte. Andando, pronunciando, deitados, dormindo, mortos. Viu-se rodeado por eles. Zumbis falantes. Enlouquecedoramente falantes. Ideias as mais esquizofrênicas eram justapostas a pedidos de cigarro, fatos imaginários e ameaças, tudo com uma coerência tão aleatória quanto a de um noticiário. Da mesma forma, apenas liberavam uma carga ininterrupta de dizeres, sem nunca ouvir os outros, tampouco a si mesmos. Eu não existo, eu sou uma ilusão. Ele também tinha muitas ideias e histórias na cabeça, mas nunca ninguém lhe quis entrevistar. Talvez se lembrasse de alguma coisa que aprendeu. Queria mais.

– Seu Generico, dá aquela!

Vendera sua alma ao diabo numa noite comum há séculos. Saiu com seus camaradas para tomar a força o pão de cada dia. Fizeram o que a impulsividade sugeria. Entretanto, a polícia acabou buscando os quatro responsáveis por um latrocínio. Pior, não foram pegos pelos caçadores. O bando de seu Generico se adiantou. Roubar no condado era coisa hedionda.

Num beco do inferno a escuridão lhe impregnava – ao longe um poste resistindo um amarelo minguante. Uivava e gemia a cada toque humano. Após o justo espancamento preliminar, o patrão permaneceu azedo. Estava barato. Não foi brincando que desenvolvera aquela casca. Sofrera muito pelos outros para se manter ali. Parou e pensou um pouco. Quase escorregou para o caminho da complacência. Malandro tem que ter procedimento. Voltou atrás e disse seco que dois deveriam tombar.

– Quais? – perguntou um soldado.

– Isso é eles que vão decidir. E na mão.

– Par ou impar? – outro soldado lhe cutucou, salvador. Então percebeu que se tratava de algo mais lúdico.

A tortura passou a ser psicológica. Não se teria força para viver, apenas para matar. E chorando, possuídos de medo, desferiram golpes de remorso entre si. Sob uma luminosidade barroca, terminaram por desfigurar a tristeza dos traços de seus rostos românticos. Dois ganharam balinhas. Ele e outro que também morreria dali a pouco foram os grandes vencedores. Como prêmio, o trafica Generico lhes propôs que trabalhassem para ele no novo negócio que surgia.

Fazia uma força sobrenatural para manter-se em pé. Não era gente, mas um subproduto, constituído de necessidades as mais imediatistas. Percebeu-se todo fodido, babando sangue. Sentiu um prazer nisso, afinal, havia apanhado freneticamente e continuava ali, fazendo presença. Com o canto da boca que ainda se movia, perguntou do que se tratava. Então um soldado lhes apresentou uma pedra sabão.

Não sabia o que fazer com aquilo. Eram os primórdios de um tempo repetitivo. Após um breve treinamento, provaram.

Um rato passava, gordo e curioso. Um novo instinto se manifestou. Pensou nas linhas que acabara de escrever. Estava convicto! Assassinou porque queria ser único. Quis o lugar do rato. Sacrificou-o para se sentir mais forte. Estranhamente, seu Generico interpretou aquele gesto como um sim. Tentando manter o controle, o outro disse não. O soldado do par ou ímpar não se conteve e fez mais uma intervenção. Disse que faria uma oferta que ele não poderia recusar. Para estender a prosa, o chefe quis dar uma chance – o pobre homem permanecia imóvel. Ele teria definitivamente que se tornar vendedor de pedras, caso contrário, colocaria a cabeça de um cavalo na cama dele durante o seu sono. O sujeito relutou, expressando a mais sincera incompreensão. Morava num apartamento, prometeu sair do crime, era gay, sua mãe o esperava aflita em casa, não tinha nenhum cavalo, jamais havia montado num, tinha medo de ser preso... E finalmente indagou o porquê, desconcertando-se na postura servil. O patrão e o nosso herói apenas observavam. Pego de surpresa com a rebatida, o soldado improvisou:

– Não interessa! É meu proceder – o padrão, faltou dizer.

– Como assim?

– Chega! Ele quer sofrer.

O velho serenou e depois sorriu de leve, vislumbrando mais uma oportunidade para exibir suas técnicas. Senhô Generico, além de traficante, era mestre do empalamento com vassoura, uma adaptação caseira daquela tortura dos tempos de Drácula. A(h) nossa(!) (personagem) virou-se quando quebraram o cabo de madeira. Voltou os olhos e ficou paralisado ao ver a lasca repleta de ferpas. Uma estaca para matar vampiros. Num espasmo, viu um homem sendo crucificado de ponta cabeça. E a brincadeira começou. Tentou sentir a dor do amigo. Impossível. Aquilo não era verdade, era um filme, um jogo, literatura. Música. Os gritos rasgados por dentro eram música. Tentou ser forte. Foda-se, pensou. No cu dos outros é refresco.

Suas lembranças dariam um livro, único.

– Seu Generico, dá aquela!

– Meu filho, nóis fomo absorvido... e absolvido! Exposto e depois engolidos! Tamos finalmente desgastados e reeditados. Nos controlam e... não existimos! – disse o velho, num facho de lucidez. Voltou a si, olhou para os lados e se endireitou. Serviu-lhe.

Generico havia se regenerado através da igreja evangélica, trocara um vício pelo outro. Membros do partido espionavam-no para averiguar a veracidade de sua conversão, a única porta de saída daquele inferno. Apertaram-lhe na saída de um domingo. Dois canos acariciavam sua bochecha, sua mulher, sua fé. Rezou alto, em resposta. Nunca a palavra tinha sido tão luminosa. Uma luz tão forte, tão óbvia, nunca antes. Nunca mais. Trabalhava agora no Centro de Vegetação. Generico cuidava da distribuição, aplicação e, secretamente, fazia parte do projeto Cura pelo Terror. Para dar um choque nos zumbis, para acordarem pra vida, pra Jesus. Faziam uma roleta russa fictícia, com balas de festim. Eles eram preparados com doses placebo. Sem o anestésico, se cagavam e rezavam desesperadamente. Na verdade, aquilo não era placebo, era uma altíssima dose de realidade, uma droga da qual se abstiveram por não aguentar a pressão. Muitos caíam nessa, outros poucos voltavam. Num outro patamar, havia a Ressurreição. De modo um pouco mais radical, o cidadão que não aparentava muito interesse nas coisas da vida, no trabalho, ou em Deus, era enterrado vivo. Ficava três dias dentro do caixão, a sete palmos, num solitário purgatório. O que lá se passava nem com magia se descreve. Mas, enfim, o sujeito que se julgava bosta supera milagrosamente o plano ideal. 72 horas em pleno contato com a matéria, com o real, com a existência e, sem contraste, com os limiares dos mesmos. Tudo junto num mesmo espaço, medonho, purificador. Pouquíssimos sócios do Centro de Vegetação estavam cientes dessa prática, o que reduzia o controle do processo. Não se via os enterros, tampouco o desterro. O ressuscitado era mandado pra longe, novinho em folha. Às vezes alguns não renasciam, mas ninguém dava falta. Contudo, com o vampiro nunca deu certo, servia apenas para entreter. Hoje tampouco aceitam lhe fazer novas tentativas.

– Sô Generico, dá quela!

Enrolado num cobertor, ele caminhava pelo cenário montado. O governo havia criado os tais “Centros de Vegetação”. A ideia partiu de um jovem prefeito, que com entusiasmo levou-a ao governador. Este achara aquilo sem cabimento, por um lado. Por outro, faria uma faxina que deixaria os centros das cidades e sua imagem perante os reis poderosos e os príncipes atrevidos um brinco.

Não sabia se o projeto era de um excesso ou de uma gritante ausência de hipocrisia. Pensou com medo na influência que sua decisão teria sobre a vida daqueles, daqueles... Mas, fazer o quê, como o tal moleque já havia conquistado o apoio de uns loucos, resolveu implantar o plano de prevenção de danos (ou simplesmente de limpeza) no estado. Entretanto, fez questão de rebatizá-lo com ironia, para deixar implícito que sancionava aquela porra toda a contragosto e também para, como que do outro lado da mesma moeda, a que ele jogaria aos viciados, ser um título banal, de significados piscando, verdes, um verde quase sensacionalista.

O projeto de vampiro olhou para o céu. Ali era sempre outono ou primavera. Sempre temperaturas amenas, anestésicas. Um sonho de nuvens brancas, esfumaçadas, onde se podia esperar por um desfecho feliz, igual ao de ontem. Enfim, conseguiram extrair todos da cidade, do concreto, para lhes confinar numa fazenda imaginária. Era triste ver tantas consciências magnetizadas por séries de aventuras em série. Quis ele, num anseio, expressar sua realidade. Responderia o que quisesse a sociedade. Novas respostas.

Mas ela queria as mesmas, pois ainda vendem.

Num outdoor antigo, pobre e abandonado, viu uma campanha para não se pensar o crack. Fez menção de iniciar um debate, um discurso agressivo, verossímil. Não. Talvez, pelo menos, um monólogo. Poderia assustar alguém com isso, afinal, ele era um vampiro. Sua aura desestabiliza qualquer sistema de proposições céticas ou ateias, a perturbação e a negatividade são sentidas com o instinto. Mudou o trajeto. Na verdade, não, pensou. Não conseguia (ou não acreditava poder) fazer as pessoas pensarem sobre a vida, sobre o mundo. Estava desgastado, queria ser desconsiderado, não suportava mais ler ou ouvir falar de si e dos seus semelhantes, de suas existências moribundas. Eles eram só mais um gênero, mas a exposição repetitiva tornou-lhes vulgar, uma mercadoria, uma coisa barata que já não chocava e já não fazia sentir, nem culpa, nem pena, nem medo.

Apesar de não lhe fazerem perguntas, ele não teria o que dizer se. Suas palavras desapareceram na noite como morcegos, livres apenas para consumir. Estava na superficialidade do poço, espremendo o bagaço.

Um aperto no peito. Percebeu que aquela vida poderia durar para sempre. Sentiu saudade do amor e dos tratos de sua mãe, tremendo. Mas a sua condição não permite choro ou desespero. A insegurança tornou-se um conceito vago, perdeu o seu veneno. Resolveu voltar para o seu leito. Lá estirado, os pés juntos e os dedos finos e amarelos entrelaçados, ficou ansioso por consumir sua obsessão. Sua razão já funcionava independente dos sentidos, da materialidade, do contexto (a alma já tinha ido embora há décadas). Em meio ao devaneio, tentou se mexer. Sem sucesso, não sabia como dar a ordem, qual botão apertar.

– Play! – e nada.

– Praaaay! – nenhum som, nenhum movimento, nenhum motivo. Viu-se limitado por uma madeira aveludada, encaixotado. Resignou-se, enfim, às ideias medievais, tentando também enquadrá-las. Suas histórias eram apenas mais umas pedrinhas atiradas a um monte enorme dessas, com as quais já não se pode construir. O que era ele?

– Sou genérico daquela...

Saiu e foi atrás de chupar alguém e viver um amor adaptado no cinema.
     
Guto Wolf

Guto Wolf é graduando em ciências sociais pela UFSC. Mais textos do autor no blog: bibliotecawolf.wordpress.com

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